Venezuela 2026: um ano nefasto, duas tragédias

Venezuela 2026: um ano nefasto, duas tragédias

Dois acontecimentos devastadores marcam o ano de 2026 na Venezuela

Oscar Feo Istúriz 9 jul 2026, 09:51

O ano de 2026 ficará marcado na história da Venezuela por dois acontecimentos devastadores: o dia 3 de janeiro, data da intervenção político-militar dos Estados Unidos, e o dia 24 de junho, quando um duplo terremoto de grande intensidade abalou e deixou a nação de luto.

Sobre o dia 3 de janeiro, tem havido um intenso debate. Sem dúvida, foi uma derrota humilhante para a Venezuela. Sua principal consequência foi a perda de nossa independência e soberania, concretizada na instalação de um governo liderado pela vice-presidente Delcy Rodríguez, mas claramente controlado por Washington. Hoje, as decisões trascendentais da política e da economia venezuelana são tomadas nos Estados Unidos, que se apoderaram do petróleo e administram os recursos de sua comercialização. De lá, Donald Trump humilha e zomba constantemente do nosso povo; o exemplo mais grotesco é a designação da Venezuela como o “51º estado” da União. Transformados em uma espécie de “protetorado” sob tutela militar e econômica, a luta pela recuperação da independência e da soberania torna-se a tarefa fundamental do povo venezuelano.

Por sua vez, o duplo terremoto de 24 de junho é uma ferida aberta. Devido à proximidade do acontecimento, ainda pairam muitas interrogações sobre seu impacto humano, político e econômico. Não repetirei os números dolorosos de vítimas e afetados que hoje vivemos de perto. No entanto, é crucial ressaltar que esse cataclismo abala um país já destruído por décadas de má governança, corrupção, ignorância e improvisação. Essa deterioração institucional crônica provocou o êxodo de milhões de pessoas, entre elas profissionais e técnicos altamente qualificados que hoje seriam vitais para a recuperação do país. Com uma capacidade de resposta estatal extremamente reduzida, o desafio não é apenas reconstruir a infraestrutura e atender às vítimas, mas empreender uma reconstrução integral das instituições.

Em ambas as tragédias há um denominador comum: a desinformação, a deturpação da realidade e a opacidade informativa. Isso nos coloca diante de uma disputa feroz entre visões opostas, onde não existe uma única verdade, mas múltiplas versões em conflito. Já vimos em outras catástrofes como o caos é instrumentalizado para impor narrativas reducionistas. Enquanto as comunidades procuram sobreviventes entre os escombros, certos centros de produção de informação constroem narrativas que atendem a interesses geopolíticos alheios à população. Atualmente, laboratórios midiáticos dirigidos do exterior — em sua maioria ligados a María Corina Machado — buscam capitalizar o sofrimento e a dor coletiva, transformando-os em ira e raiva utilitárias. Eles transformam a tragédia em um espetáculo para consumo nas redes sociais e configuram matrizes de opinião que obscurecem as causas estruturais, desviando a atenção das tarefas urgentes de resgate, assistência e reconstrução.

Denunciamos, além disso, que os Estados Unidos — fiéis à tradição imperial de transformar desastres em estratégias de intervenção colonial — utilizam essa catástrofe para consolidar sua presença militar no território, disfarçando de solidariedade o que, na realidade, é um mecanismo de controle político.

Por fim, reafirmamos nosso caráter anti-imperialista. Reconhecemos que a reconstrução diante dos efeitos do terremoto requer a solidariedade internacional e latino-americana; mas essa mesma força é necessária para recuperar a independência manchada em 3 de janeiro. Somente assim poderemos abrir os braços para uma verdadeira cooperação solidária que nos permita nos reencontrar e curar um povo hoje profundamente de luto.


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