Uma visão marxista da corrupção
Foto: Amanda Perobelli

Uma visão marxista da corrupção

A corrupção é um mecanismo estrutural próprio da atual fase do capitalismo

Pedro Fuentes 20 maio 2026, 20:16

O escândalo envolvendo o Banco Master — já definido por diversos analistas como um dos maiores casos de corrupção financeira deste século no Brasil — não representa uma anomalia do sistema. É, na verdade, a ponta do iceberg de um mecanismo estrutural próprio da atual fase do capitalismo. Em termos marxistas, trata-se de uma expressão do que Ernest Mandel definiu como capitalismo tardio: uma etapa marcada pela financeirização, pela concentração monopolista e pela fusão crescente entre grandes corporações e o Estado.

A corrupção costuma ser apresentada como um desvio moral: políticos desonestos, empresários gananciosos ou funcionários corruptos que “deturpam” o funcionamento normal das instituições. Essa interpretação liberal, porém, se torna insuficiente diante da escala dos grandes escândalos contemporâneos. O problema não é a corrupção de um sistema saudável. O problema é que a corrupção se converteu em uma das formas normais de funcionamento do próprio capitalismo a nível mundial em sua fase neolibera.

Desde a crise de 2008 — marco de uma crise multidimensional que combina estagnação econômica, financeirização extrema, crise dos regímenes democráticos burgueses, crise ecológica e instabilidade geopolítica — aprofundou-se um padrão global em que bancos, fundos financeiros, governos, grandes empresas e aparelhos estatais operam de maneira cada vez mais integrada. Privatizações, paraísos fiscais, contratos públicos, endividamento estatal e captura regulatória passaram a constituir mecanismos permanentes de acumulação de riqueza.

Não se trata, portanto, de um problema puramente ético, como sustenta a ideologia burguesa, nem de uma característica específica de governos progressistas, como afirma a extrema direita. A corrupção contemporânea é um fenômeno estrutural do capitalismo em crise. Em sua fase atual, marcada pela busca desenfreada de rentabilidade, pela especulação e pela despossessão social, surgem formas cada vez mais agressivas de acumulação. Em alguns casos, o próprio capitalismo assume traços mafiosos, articulando setores empresariais, agentes do Estado e organizações criminosas.

A corrupção como lógica sistêmica

Os grandes escândalos das últimas décadas mostram que não estamos diante de episódios isolados, mas de mecanismos recorrentes de funcionamento do capital global.

O caso Enron, nos Estados Unidos, em 2001, tornou-se símbolo da fraude corporativa moderna. A gigante do setor energético manipulava balanços contábeis para esconder dívidas e fabricar lucros fictícios. Seu colapso destruiu milhares de empregos e fundos de pensão, revelando o caráter profundamente especulativo do capitalismo financeiro.

Poucos anos depois, a quebra do Lehman Brothers detonou a crise mundial de 2008. Bancos comercializavam hipotecas podres em escala massiva enquanto agências de risco manipulavam avaliações financeiras. Quando a bolha explodiu, os Estados intervieram não para salvar a população atingida pelo desemprego e pelos despejos, mas para resgatar os próprios bancos responsáveis pela crise. O resultado foi uma gigantesca transferência de riqueza pública para o capital financeiro.

Mesmo o chamado “capitalismo digital” reproduziu velhas práticas. Em 2020, a fintech alemã Wirecard revelou um rombo bilionário baseado em ativos inexistentes, com forte cumplicidade regulatória e apoio midiático. A empresa era apresentada como símbolo da inovação tecnológica europeia até seu colapso fraudulento.

A relação entre Estado, guerra e corporações também aparece de forma explícita no caso Halliburton. Dick Cheney, vice-presidente dos Estados Unidos durante o governo Bush, havia sido CEO da empresa antes da invasão do Iraque. O complexo militar-industrial norte-americano transformou a guerra em um gigantesco negócio privado financiado pelo Estado.

Na América Latina, o caso Odebrecht talvez represente o exemplo mais acabado da corrupção empresarial contemporânea. A construtora brasileira organizou um sistema internacional de subornos que envolveu presidentes, ministros, campanhas eleitorais e obras públicas em numerosos países latino-americanos e África.  A empresa possuía inclusive um “Departamento de Operações Estruturadas”, especializado em administrar pagamentos ilegais.

Mas a Operação Lava Jato expressou uma contradição mais profunda. Ao mesmo tempo em que revelou esquemas reais de corrupção, também foi utilizada politicamente através do lawfare, da seletividade judicial e da articulação com interesses geopolíticos ligados a direita e ao imperialismo norte-americano. A destruição parcial da engenharia pesada brasileira e o enfraquecimento da Petrobras tiveram impactos econômicos. A crise política aberta no período Dilma Rousseff foi instrumentalizada para reorganizar o regime político e abriu caminho para a ascensão de Bolsonaro.

Os Panama Papers e os Pandora Papers revelaram outra dimensão estrutural do problema: a utilização sistemática de paraísos fiscais e empresas offshore por bilionários, bancos, empresários e líderes políticos para esconder riqueza e evitar tributação. As elites globais operam, cada vez mais, acima dos sistemas fiscais nacionais.

Na Rússia pós-soviética, as privatizações dos anos 1990 produziram um dos maiores processos de transferência de riqueza pública para mãos privadas da história moderna. O resultado foi o surgimento de uma oligarquia profundamente vinculada ao Estado e marcada por formas mafiosas de acumulação.

As Big Techs, por sua vez, representam uma nova etapa dessa lógica. Sem controle democrático efetivo, transformaram dados pessoais em mercadoria e instrumento de controle político em escala global.

O neoliberalismo não combateu a corrupção — reorganizou-a

Durante décadas, o neoliberalismo prometeu que privatizações, desregulamentação e redução do Estado diminuiriam a corrupção. O resultado foi exatamente o contrário.

Na América Latina, os anos 1990 foram marcados por privatizações atravessadas por negociatas, fuga de capitais e transferência massiva de patrimônio público para grupos privados. Na Argentina do menemismo, empresas estratégicas foram vendidas em condições profundamente questionáveis. No Peru, Fujimori combinou neoliberalismo radical, autoritarismo e corrupção mafiosa. No Brasil, o capital financeiro consolidou uma relação cada vez mais orgânica com o aparelho estatal.

O problema é que o neoliberalismo nunca buscou democratizar a economia. Seu objetivo sempre foi reorganizar o Estado em função da acumulação financeira.

David Harvey definiu esse processo como “acumulação por despossessão”: privatização de bens públicos, mercantilização de direitos sociais, saque de recursos naturais e transferência contínua de riqueza coletiva para o capital privado. A corrupção funciona frequentemente como mecanismo acelerador desse processo.

Corrupção no Estado suas instituições e representações políticas

A interpretação liberal reduz a corrupção a um problema moral individual. Já a ultradireita a utiliza para aparecer como “antisistema”. No Brasil, parte da esquerda institucional também caiu numa armadilha semelhante. Em reação ao uso seletivo da pauta anticorrupção pela Lava Jato, transformou o tema em tabu político. Agora, diante de novos escândalos do Banco Master envolvendo setores da direita e o clã Bolsonaro, retoma o discurso moralizante. O problema é que grande parte da população percebe — ainda que de maneira parcial e contraditória — que existe uma degradação profunda das instituições políticas como um todo.

Essa percepção contém um elemento real. O que aparece como “corrupção da política” expressa, na verdade, a captura do Estado por uma classe dominante cada vez mais concentrada em grandes corporações que se unem a bancos e fundos de inversão em uma economia cada vez mais financeirizada. Em paralelo, ocorre também a lumpenização de setores da própria burguesia, marcada pela especulação extrema, pela violência econômica e pela associação crescente com mecanismos mafiosos, como está demostrado por os métodos utilizados pela a família Vorcaro.

O Rio de Janeiro talvez seja uma das expressões mais acabadas desse processo. Em um estado profundamente rico em royalties do petróleo, e que tem o turismo como outra grande fonte de lucros consolidou-se uma combinação explosiva entre rentismo, degradação institucional, milícias, crime organizado e setores políticos organicamente vinculados às classes dominantes locais.

Nesse contexto, Rio de Janeiro é também a maior expressão de como as próprias representações políticas vinculadas a burguesia passam a funcionar como parte de uma camada social privilegiada integrada ao aparelho estatal, lucrando (lease roubando) do mesmo. As prefeituras, câmaras municipais, Congresso Nacional e poder judicial são utilizados para lucrar com comissões, licitações, emendas parlamentares que permiten-le se enriquecer qualitativamente quando chegam a cargos públicos. A bancada congressual do “centrão” no Brasil e um claro exemplo de esse mecanismo, que tem uma lógica reprodutiva de pães a parentes e filhos.  De essa maneira, independentemente de sua origem partidária, muitos desses setores formam uma camada social  que adota formas de vida, padrões de consumo e interesses materiais cada vez mais comuns com a alta burguesia totalmente afastados das classes trabalhadoras e populares.

Para além da moralização

Enquanto existirem monopólios gigantescos, financeirização extrema, paraísos fiscais, dependência extrativista e captura corporativa do Estado, quer dizer o capitalismo na forma atual que existe, a corrupção seguirá sendo reproduzida estruturalmente

Por isso, a saída não pode se limitar a “mais transparência” ou “melhores instituições”, embora ambas sejam necessárias. O problema central é político e social: quem controla a riqueza produzida coletivamente e em benefício de quais interesses?

Uma perspectiva democrática e anticapitalista exige controle público e social dos setores estratégicos da economia, ruptura com o poder do capital financeiro, combate efetivo aos paraísos fiscais, transparência radical das contas públicas e ampliação da participação popular nas decisões econômicas.

Sem enfrentar o poder estrutural do grande capital, o combate à corrupção continuará sendo seletivo, instrumentalizado e frequentemente funcional a novas formas de autoritarismo e neofascismo. Entendida assim a luta contra a corrupção e parte de um programa de transição necessário para ganhar aos trabalhadores e o povo para um novo horizonte: um sistema social donde se termine com o poder político e económico das classes dominantes. O horizonte é um novo sistema baseado no ecosocialismo.


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