A Copa do Mundo de Trump?

A Copa do Mundo de Trump?

O efeito Trump sobre a Copa do Mundo e as relações de poder com a FIFA

Júlio Pontes 25 maio 2026, 18:38

Estamos a menos de um mês do início da Copa do Mundo, a ser sediada no Canadá, México e, concentrando 78 dos 104 jogos, Estados Unidos. A aprovação dos países-sede reunidos em uma candidatura comum aconteceu em 2018, sob o primeiro mandato presidencial de Donald Trump (2017-2021). Agora, quase oito anos depois, a Copa do Mundo e a FIFA reencontram-se com Trump em seu segundo mandato, a quem a entidade, acreditem ou não, se refere como “líder que se importa com o povo”.

O papel da FIFA não é exatamente um raio em céu azul na história da entidade com sede em Zurique, isto é, a federação internacional sempre negociou o futebol que controla como uma ferramenta de propaganda para os governos e regimes políticos de plantão, recebendo em troca investimentos astronômicos e garantindo sua crescente expansão na indústria do futebol. Em 1934 e 1978, por exemplo, a Copa do Mundo aconteceu na Itália fascista de Benito Mussolini e na Argentina sob a ditadura de Jorge Rafael Videla.

Em ambos os casos, coincidentemente ou não, os países-sede tornaram-se campeões do mundo. Nunca é demais lembrar que as duas “coincidências” estão cercadas de polêmicas e controvérsias que envolvem, direta ou indiretamente, o papel da FIFA. A seleção argentina campeã de 1978 inusitadamente goleou o Peru por 6×0 quando precisava de ao menos 4 gols de vantagem para avançar à final. De igual modo existem evidências de que a “azzurra” obteve vantagens indevidas para alcançar o título de 1934.

O que importa dizer nos exemplos históricos que aludem ao papel da FIFA e do futebol mercantilizado como sócios do poder estabelecido é que estamos novamente diante de uma Copa Mundo que tem cheiro de sangue. Não é por acaso que Trump recebeu de Gianni Infantino o “Prêmio de Paz da FIFA”, recém-criado para compensar, provavelmente, o Nobel da Paz dado a María Corina Machado – líder da oposição burguesa venezuelana, cujo país – depois de bombardeios e ações militares ilegais dos Estados Unidos – teve o ex-presidente Nicolás Maduro sequestrado pelo “pacifista” Trump.

Depois do engodo de premiar Trump como líder da paz, Infantino achou razoável propor um aperto de mão entre o presidente da federação palestina e israelense no congresso da FIFA em Vancouver. O representante palestino, Jibril Rajoub, recusou sujar as mãos de sangue neste aperto de mão, honrando a memória dos/as mais de 421 atletas de futebol palestinos assassinados/as pelo Estado de Israel – entre os quais o maior ídolo da seleção palestina, conhecido como “Pelé da Palestina”: Suleiman Al-Obaid.

Neste mesmo evento no Canadá, o Irã foi a única delegação ausente, mesmo com sua seleção nacional tendo conquistado vaga para Copa do Mundo. O presidente da federação iraniana, Mehdi Taj, teve a entrada impedida no aeroporto pelas autoridades canadenses, depois de Trump ter defendido a exclusão do Irã da Copa do Mundo e que a FIFA colocasse a Itália em seu lugar. Embora Infantino tenha assegurado a participação do Irã e mesmo a realização dos seus jogos nos Estados Unidos, até agora os iranianos não conseguiram seus vistos para ingressar no país. Diante de tamanha instabilidade e dos ataques de Trump, a delegação iraniana e Claudia Scheinbaum anunciaram que a seleção ficaria hospedada no México durante a realização do evento esportivo.

Mas por que, afinal, interessa a Trump a Copa do Mundo, não sendo o futebol um esporte popular nos Estados Unidos? Antes de tudo, o futebol é um esporte em ascensão nos EUA, o que explica, por exemplo, o fato da Major League Soccer (MLS) ter obtido o maior crescimento entre as ligas americanas no mês de janeiro. Essa popularização está diretamente relacionada ao “efeito Messi”, com quem Trump se reuniu na Casa Branca em março junto ao seu time, o Inter Miami, atual campeão da temporada da MLS.

Está aí, portanto, um dos motivos que levou Trump a intervir tão abertamente na realização da Copa do Mundo, tornando-se presidente de uma comissão organizadora criada por ele mesmo, rejeitando as medidas da FIFA para entrada de torcedores no país e confirmando a presença da polícia migratória do ICE durante as partidas. Além disso, a presença de Trump no futebol agora seria também um contraste com 2019, isto é, quando a seleção feminina dos EUA campeã do mundo se recusou a encontrá-lo e sua principal jogadora, eleita naquele ano a melhor jogadora do planeta, Megan Rapinoe, tornou-se uma das principais vozes contra o trumpismo e o movimento MAGA.

Em resumo, Donald Trump disputa também a hegemonia cultural de um esporte em ascensão nos Estados Unidos, tradicionalmente associado aos jovens e imigrantes progressistas. Justo o contrário de outros esportes e eventos onde Trump tem presença constante, como UFC (artes marciais mistas) e NFL (futebol americano). O futebol, pois, apresenta-se como mais um “para-raio das guerras culturais no país”, como definiu um jornalista do DW.

No entanto, os esforços de Trump e da FIFA para tornar a Copa do Mundo uma vitrine de sucesso incontestável não foram até aqui suficientes. A taxa de ocupação dos hotéis é baixa e os ingressos mais baratos custam mil dólares, chegando a cifra de treze mil dólares se a pedida for assistir à final. O próprio Trump foi obrigado a criticar a precificação dos ingressos, citando diretamente sua base social proletarizada do Queens e do Brooklyn que não teria condições de assistir aos jogos da Copa do Mundo em seu próprio país.

Ainda não é possível prever os efeitos de Trump sobre a Copa do Mundo, assim como o contrário. É possível afirmar, por outro lado, que a indústria do futebol controlada pela FIFA está completamente subordinada a Trump, mostrando-se disposta a transformar a Copa do Mundo em um palco para sua agitação fascista, tal como fez em 1934 e 1978. Ao mesmo tempo, sob a Copa do Mundo, com os olhos do mundo voltados para o maior evento de futebol do mundo, novos choques e enfrentamentos sociais e políticos contra Trump e a extrema direita podem ter lugar, concretamente, por exemplo, em ações da polícia migratória do ICE durante os jogos.


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