Crônicas de uma Bolívia convulsionada #1
A chegada e primeiras impressões, lutas fragmentadas. O encontro com Marisol
Foto: Mobilização popular nas ruas bolivianas. (Telesur/Reprodução)
Estevan Campos escreve diretamente de La Paz como correspondente exclusivo da Esquerda em Movimento.
A viagem não teve grande preparação e planejamento, pois foi definida um tanto às pressas, dada a situação política da Bolívia. A viagem na madrugada, com longa conexão em Lima, antes de chegar à Bolívia já seria cansativa. O primeiro choque na chegada foi a combinação do cansaço, com o frio além do esperado (estava -1ºC na hora da chegada em El Alto) com o soroche, que é como chamam o mal da altitude e os efeitos do ar rarefeito em um organismo não acostumado. Sigo as recomendações que recebi antes da viagem e compro um par de soroche pills, um remédio para amenizar os efeitos da altitude.
No aeroporto, aguardando a resposta do contato que tinha, a primeira coisa que fiz foi ler o jornal local. O El Diário, o “decano” do jornalismo boliviano, um jornal tradicional, já deu os primeiros sinais. Editorial e uma série de colunistas apelando ao governo para que decretasse o Estado de Sítio – o governo havia mudado a lei nesta semana, facilitando esse tipo de decreto. Reportagens sensacionalistas davam destaque unicamente para o desabastecimento, a única mobilização registrada é a de médicos pedindo o fim dos bloqueios. A primeira leitura é de que a burguesia está por esmagar o movimento.
Meu contato, Marisol, retorna. Não conseguirá me encontrar no aeroporto. Desço para La Paz pelo teleférico, é tudo muito diferente. A grandeza das montanhas ao redor impacta. A primeira coisa que me dizem no trajeto é: teleférico para vocês é turismo, para nós, é transporte.
Encontro Marisol no Obelisco da avenida Santa Cruz, a principal via do centro da cidade. Ela está com Andréa, sua filha mais velha. Marisol é muito acolhedora, atenciosa, mesmo em meio a uma série de compromissos, se deslocou para me acomodar em um local adequado, estou a poucos quarteirões da sede do governo. Combinamos de nos encontrar no sábado. “São muitas coisas para te contar, a história é longa, tem muitos detalhes que preciso te dizer”.
Descanso. Acordo já são 17h, no jornal uma entrevista ao vivo do vice-presidente, Edmand Lara. Lara é uma figura das redes, um ex-policial que cresceu pelas denúncias de corrupção dentro das polícias. A entrevista é um anúncio da divisão no governo (e na burguesia). Se diferenciar do Presidente Paz e sua linha de Estado de exceção. Dá sinais aos movimentos, defende a anulação das ordens de prisão contra Argollo, líder da COB e Vicente Salazar, líder da Federação Tupac Katari, feitas na véspera. Lara e a igreja católica compõe um bloco, uma linha de mediação. Minha percepção da entrevista é de que ao mesmo tempo que sinalizam aos movimentos, tentam isolar Evo e sua ala.
Saio para uma primeira impressão do centro. Uma breve caminhada, encontro uma manifestação de trabalhadores da limpeza, uniformes verdes, outros laranja. Estão em frente à sede da prefeitura. Um tanto dispersos. Um grupo tenta atacar um portão grande, não tem chance de derrubarem. Um segundo grupo está na rua lateral: os funcionários sairão por aí? O terceiro e maior grupo realiza uma assembleia improvisada. A liderança é jovem, parece um tanto inexperiente, não consegue dar unidade aos grupos.
Abordo alguns dos participantes. Pergunto os motivos, estão há três meses sem receber salários. A luta deles é e não é parte do movimento geral. As bandeiras gerais, a queda do governo de Rodrigo Paz, não aparece no protesto. A faixa central é contra o Prefeito, Cesar Dockweiler, ex-gerente da empresa Mi Teleferico, foi do MAS, e como outros tantos saiu do Partido após sua fragmentação. Foi eleito por um partido que fundou, o Ciudad Humana.
A pluralidade das lutas foi a marca desse primeiro dia. Teriam força os funcionários da limpeza sem a convulsão que atinge o País? Difícil dizer. Mas sempre nos momentos de convulsão, as lutas represadas acham um caminho pra se expressar. Vem à mente 2013 e o quanto ele “destravou” lutas e foi o ano, até então, com o registro do maior número de greves no Brasil.
A Bolívia não é o Brasil, claro. Nesse século, temos 2013 como um momento de irrupção. Bolívia, tem 2000, 2003, 2005, 2008, 2019 e agora 2026. A tradição de luta e radicalidade é muito superior
…
No sábado pela manhã saio para tentar chegar à sede da COB, tentar um contato. Vão realizar à tarde um “ampliado” para definir se atende ao pedido de negociação da igreja e de Lara. Preciso do contato. A sede da COB está fechada, uma mulher que mora em frente me informa: “só segunda”. Na volta, passo pelo bloquei policial. A Praça Murilo, onde fica a sede do governo está cercada. São duas linhas de bloqueio policial. Tento passar, digo que sou turista, “só quero tirar uma foto”. Ninguém passa.
Encontro Marisol na recepção do hotel, ela está com sua netinha, Luciana. Me presenteou com três livros sobre a história de Evo Morales. A referência de Evo para Marisol é enorme. Ela foi do MAS, do setor de Evo, de sua equipe. Me convida para caminhar pelo centro da cidade conversando, quer me contar “todos os detalhes” da história do MAS, de Evo presidente e como se chegou à fragmentação.
Começa a história pela chegada de Evo à presidência. O racismo não se supera de uma hora para outra. Mesmo com praticamente 90% indígena, sempre os brancos governaram. Evo assume, mas a desconfiança com sua capacidade de chefiar o Estado, por ser um indígena, líder cocaleiro, existe mesmo dentro da equipe de governo.
Passamos pela Igreja San Francisco, não sou fã de igrejas, mas as construções me encantam. É uma construção de 1549. Impressionante.
Seguimos falando da história, por vezes pergunto da situação presente. “Calma, chegaremos lá”, me diz Marisol. De fato, ainda tem muito detalhe para chegarmos ao tempo presente. Ela me fala de como a estrutura do Estado serviu à cooptação de lideranças e formação de uma estrutura de poder paralela ao Partido. “A burocracia tem vida própria”, lembro eu.
Esse processo de cooptação a partir da máquina do Estado, junto à ação de figuras centrais do Governo que utilizaram de seus postos pra isso, são parte importante do processo de fragmentação do MAS, me diz Marisol. Mas essa interpretação dela e de seu grupo é atual, à época, não viram a fragmentação chegar.
A derrota do golpe de Estado que levou Jeanine Áñez ao governo aparece brevemente na conversa, mas é um fato a ser registrado. Bolívia é um país que conseguiu derrotar um golpe de Estado no cenário de ascenso da extrema direita.
A eleição de Luis Arce em 2020 aprofundou os problemas do partido. O governo não ter agido para reverter os processos contra Evo foi considerado uma traição. A implosão do Partido inicia por aí, me fala Marisol. A eleição de 2025 foi só a resultante disso. Fragmentado em três grupos, o antigo MAS perdeu muito de sua força. Eduardo del Castillo (MAS) e Andrónico Rodriguez (AP) somaram pouco mais de 10% dos votos. Evo chamou voto nulo, que alcançou 20%.
Assim chegamos ao nosso destino, encontramos Andréa, a filha mais velha de Marisol. Aos sábados, como muitos bolivianos, ela abre uma tenda no chão, na rua, vendendo produtos usados. Me convida para almoçar ali mesmo, sentados no meio fio, um prato de macarrão, com batatas e uma milanesa com molho bem apimentado.
Andréa está terminando Direito e organiza um coletivo de mulheres voltado ao apoio às mães solo. Conversamos bastante sobre as iniciativas, me conta sobre como falta legislação que dê garantias às mulheres nessa situação. O não pagamento de pensão é recorrente pelo que me diz, ela mesma não recebe a pensão da Luciana há quase um ano. Uma luta. Falo de nossas companheiras feministas do PSOL, de Sâmia, Fernanda e de Luciana, xará de sua pequena. O interesse dela pelas nossos é imediato.
Vai chegando o final da tarde, com ele o frio e a diminuição do movimento na rua. Ajudo a desmontar a banca. Nos despedimos para encontrarmos no domingo. Marisol vai em busca de uma entrevista com os companheiros do Trópico (Chapare).
O domingo promete. A COB transferiu seu ampliado para La Paz, no domingo de manhã. Não tenho outro lugar para estar. Fica para o próximo relato.