Para além do bolsonarismo: o partido Missão
Renan Santos

Para além do bolsonarismo: o partido Missão

Uma análise da extrema direita que busca superar o bolsonarismo sem abandonar sua agenda radical

Israel Dutra 6 jun 2026, 12:43

Foto: Instagram Renan Santos

O crítico mais enfático da crise do Bolsomaster fora das hostes da esquerda foi Renan Santos. Pré-candidato a presidente pelo partido Missão, Renan aproveitou a oportunidade. Além de exigir a retirada de Flávio da disputa, trouxe para os holofotes suas propostas e sua política: disputar a fundo contra o bolsonarismo o espaço da extrema direita. 

Um índice popular é gritante: na venda de toalhas na praia, Renan compete com Lula, Flávio Bolsonaro e Neymar como figura popular. 

Além da janela de oportunidade aberta com a crise do Master, Renan já vem se perfilando com força nas pesquisas eleitorais. Oscila entre 3% e 4% na maioria das sondagens, chegando a 7% num dos cenários da pesquisa Atlas/Intel. O dado mais gritante, porém, é na disputa do voto (e a simpatia) da juventude. Em alguns cenários, ele chega a disputar perto das primeiras vagas, com um dos índices mostrando 21% de preferência na faixa entre 16 e 24 anos. 

O partido Missão é a expressão político-eleitoral do Movimento Brasil Livre (MBL). O Missão/MBL é a expressão de um fenômeno mais global, de reposicionamento da extrema direita, com muitos traços neofascistas, a partir de uma visão estratégica. 

Uma diferença importante com o bolsonarismo é que descartam o improviso que motivou o salto de Jair para disputar a agenda política nacional, vencendo as eleições de 2018. Sua disputa envolve a combinação da luta por uma “hegemonia” com um método de “aproximações sucessivas”. Estão realmente dispostos a fazer as devidas “batalhas culturais”, sendo mais próximos dos conceitos que Gramsci dispunha para interpretar os fenômenos, do que o simples empirismo que, por vezes, a extrema direita aparenta. 

Seu objetivo principal para disputar a hegemonia, em meio a crise orgânica da Nova República, é construir volume de força. Portanto, querem aproveitar a janela de oportunidade para se posicionar eleitoralmente, mas também privilegiam a ação extraparlamentar. As ações violentas e midiáticas de parte dos membros do MBL contra o movimento estudantil nas universidades é uma das pontas avançadas dessa batalha, que ganha aqui contornos de disputa física contra a esquerda. 

É preciso compreender o que quer Renan Santos e seu partido Missão para melhor combatê-los.  

Superar o clã 

O Missão se legalizou em outubro de 2025. Sendo a trigésima legenda a obter registro legal junto ao TSE, apenas dois anos após sua fundação logrou algo que não é simples: quase 600 mil apoios válidos, em um critério draconiano que não se pode assinar o apoiamento sendo filiado a algum partido. 

Missão tem dois objetivos estratégicos imediatos: a) se consolidar como um projeto viável de extrema direita; b) se postular como alternativa em relação ao Bolsonarismo, inclinando parte do eleitorado para além do clã. 

Com uma estrutura nacional, com figuras de proa – além de Renan, têm Kim Kataguiri, Artur do Val, Amanda Vettorazzo, Guto Zacarias -, o Missão quer dar um salto, articulando seus dois objetivos imediatos. 

Em 2022, no segundo turno, o MBL chamou o voto nulo, se separando de Bolsonaro, como parte da campanha do “trevo de três folhas”, para chamar atenção que buscava um espaço de “terceira via à direita”. 

A marcação de um programa é parte disso: um ultraliberalismo a partir de propostas polêmicas, que criam fatos políticos – num refinado e contemporâneo modelo de “agitação e propaganda”, como eliminar parte dos impostos, defender abertamente a pena de morte e ter em Bukele seu modelo de segurança pública.

Além da agitação e da disputa no terreno das redes sociais, com uma articulação robusta da disputa no campo digital, o Missão coloca no centro o problema da propaganda, da batalha das ideias, sugerindo dar densidade às suas propostas. 

Parte disso é a exploração do chamado “Livro Amarelo”. Dividido em fascículos, ele apresenta um programa – não apenas um amontoado de consignas, mas uma totalidade que disputa uma visão de mundo e de Brasil. Com vistas ao ideário conservador, repete e recicla fórmulas de Plínio Salgado e Olavo de Carvalho. 

A Revista Valete é seu “órgão central” de propaganda teórica, num formato deslocado que confronta a Piauí na forma e no conteúdo. 

A veloz conjuntura política da eleição brasileira pode fornecer um ambiente propício para o vetor de superação do bolsonarismo; até aqui, o apoio da burguesia mais à direita ao projeto de Flávio segue mantido, como ilustrou a foto de Tarcísio e Nunes com o presidenciável do clã, na Marcha para Jesus em SP. 

Entretanto, a crise do Bolsomaster seguirá em aberto, pois é muito provável que novos detalhes e revelações acerca do financiamento de Dark Horse venham à nota. A ida aos Estados Unidos por parte de Flávio logrou um êxito inicial, com Trump o reconhecendo, mas o desdobramento do tarifaço e a crise do Pix inverteram o ativo trumpista, colocando na conta de Flávio um desgaste que apenas começa. 

Dentro desse quadro, Renan tem uma largo espaço para crescer, superar expectativas e disputar o espaço à direita. Os outros competidores marcam passo – o Novo, com Zema, e o setor ligado à coalizão da UDR com o PSD de Kassab, a partir de Caiado -, seguem patinando nas pesquisas de opinião. 

Que Renan irá crescer é um fato. A questão é em que escala. Em recente artigo para Folha, o atento articulista Juliano Spyer, chama atenção para o fenômeno Renan, mirando na sua base de apoio fundamental, os jovens urbanos, na franja mais à direita, com formação universitária, movido por certo idealismo (e ressentimento). 

A estratégia do Missão é combinar seu próprio ecossistema (MBL, Livro Amarelo, ações exemplares e midiáticas contra a esquerda nas universidades, Revista Valete) com os outros ecossistemas da direita e dos conservadores. 

O impulso ligado aos núcleos “redpill”, que vocalizam misoginia e machismo nas redes sociais, é parte também do repertório e do ambiente em que se move o Missão. Junto a isso, a pauta da segurança pública, onde querem pegar carona no recente triunfo do inexperiente Abelardo Spriella, que venceu o primeiro turno na Colômbia e é o favorito na segunda volta. 

Herdeiros do Simulacro 

Apesar da novidade e da luta pelo “transpasso” em relação ao bolsonarismo, o projeto do Missão remonta há mais de uma década. E não é “qualquer década”.  Também pela história é possível compreender os objetivos políticos do Missão/MBL. 

O MBL surgiu e disputa a política a partir de saltos de qualidade em sua construção. 

A gênese de seu projeto remonta à crise orgânica que se estabeleceu no Brasil, após a irrupção das Jornadas de Junho de 2013. 

É preciso compreender os elementos centrais aí combinados: 

  1. a crise orgânica que não foi resolvida pela esquerda ou por baixo, derivando uma aposta de parte da burguesia para a via do “simulacro”, que desviou a bronca popular para as manifestações de massas que deram bases ao golpe parlamentar que tirou Dilma; 
  2. a onda internacional da extrema direita que se plantou para disputar o mundo pós-crise de 2008, com a ascensão de seu principal líder, Donald Trump; 
  3. o salto de qualidade dos núcleos anteriores da direita conservadora, organizados e alentados por Think Thanks, como os dos irmãos Koch, nucleados em frentes com diferentes nomes, mas sob a bandeira de “Estudantes pela Liberdade”, disputando em chapas estudantis, grupos de redes sociais e movimentos como o “Renova Vinhedo”, in vitro que gestou Renan Santos

Para responder a enorme crise e insatisfação popular, expressa nas ruas no biênio de 2013/2014, diferentes projetos se postularam. A falta de uma alternativa coerente, seja por uma esquerda mais combativa seja pelo governo (que recuou da proposta de uma saída constituinte que poderia apontar algum caminho), acabou gerando condições para uma saída conservadora, precária e provisória, para o impasse. Não queremos historicizar aqui, a profundidade da crise que se arrasta desde então, mas localizar o MBL nessa disputa. 

Chamamos de “simulacro” a aposta de parte da burguesia para resolver o impasse de Junho, quando uma rebelião popular colocou em xeque a institucionalidade do arranjo da Nova República. A prova mais evidente da operação do simulacro foi a criação do MBL, um espelho reverso do principal ator dos levantes de Junho, o MPL, Movimento Passe Livre. Os usos do liberalismo na forma do léxico dos “libertários” se voltaram para o principal ator social, a juventude, no marco dos “indignados” brasileiros. 

Como parte de sua história e dos saltos, o MBL decidiu eleger parlamentares, organizar seus congressos e modular discursos: ora de forma mais crítica à forma bruta do bolsonarismo, ora (como vem fazendo ultimamente) de forma mais aberta e neofascista, como no papel de tropa de choque quando acossa o movimento social e estudantil, com seus cliques e agressores. 

Um marco foi sua primeira candidatura à prefeitura de SP, com Artur do Val, em 2020, batendo na marca dos 10% dos votos, superando o candidato do PT.  

Seu novo salto foi a construção do partido Missão e a preparação, meticulosa e consistente, da campanha de Renan Santos. Sua repaginação vai na linha de tentativa/erro.  Seja ultraliberal, seja apoiado no conservadorismo nacional, a linha do MBL/Missão é disputar o sentido comum da direita brasileira. 

Suas batalhas “culturais” respondem à essa estratégia. Os ataques contra a arte, apoiando-se nos setores mais atrasados do conservadorismo, buscam se inscrever numa cruzada moralista. Do outro lado, com uma chave antipovo e mais elitista, a grande campanha que fizeram com a “Lei antiOruam” tomava como bandeira outra ponta desse fio moralista e conservador. Tudo a serviço de uma estratégia de acumular forças com muita agitação e propaganda, para além dos resultados imediatos. 

A disputa de Renan é a “mãe de todas as batalhas”.  Superar o improviso do bolsonarismo para se posicionar como principal ator da reorganização da extrema direita, ligada internacionalmente aos novos círculos de poder, do Vale do Silício, do que alguns chamam de tecnofascismo. 

A terceira onda da extrema direita

A extrema direita é um fenômeno mundial, resiliente e organizado. A organização de ambiciosos projetos – que vão desde a internacional neofascista até o manifesto Palantir – indicam continuidade, saltos e metamorfoses na presença dessas correntes no mundo. 

Trump funciona como líder e paradigma do desenvolvimento da extrema direita, que teve um salto após a crise de 2008, das frustrações com os governos da democracia liberal e com a disputa dos novos recursos energéticos e tecnológicos do mundo.

Trump 1 chegou ao poder em 2016, apostando contra todos, surpreendendo e se instalando contra as previsões da maioria do establishment. A ação do Capitólio foi um marco que encerrava a primeira fase, contida pelas mediações institucionais, convocando a segunda etapa do tropismo, na forma de combate. Trump 2 venceu as eleições, buscando assentar um projeto mais geral, com metas ousadas, onde a hegemonia do programa MAGA estava mais presente. O deslocamento do círculo empresarial dos bilionários de forma mais explícita, quando a maioria das empresas do Vale do Silício, que anos antes era um território dos democratas, migrou para o apoio a Trump. Um trumpismo de guerra marca a segunda fase desse projeto. 

No Brasil, guardadas as proporções, tivemos um trajeto parecido. Bolsonaro surpreendeu, venceu as eleições de 2018, quando Lula estava preso e banido.  O desastre que foi a pandemia debilitou seu projeto de reeleição, perdendo por poucos votos para a frente ampla com Lula em 2022. 

O “Capitólio à brasileira” também foi um marco, sem, entretanto, ter os mesmos efeitos que sua obra original estadunidense. Agora, Bolsonaro proscrito e preso, numa defensiva sem construir consenso entre as diferentes alas da burguesia, está fora do páreo eleitoral, num cenário imprevisível. A revelação do bolsomaster deixou Flávio em crise. A desesperada busca de um apoio em Trump mostrou que ainda é a principal carta da extrema direita, apesar de que a crise do Pix é um tiro que saiu pela culatra em termos de popularidade de Flávio. 

O “clã”, portanto, detém a hegemonia e a iniciativa da extrema direita brasileira, em sua segunda onda, até aqui. As eleições de outubro decidirão o veredito. 

O que começa a se discutir nos Estados Unidos, com algumas primeiras fissuras, é se uma derrota em novembro, nas eleições parciais, levaria o MAGA (tomando com movimento e constelação da extrema direita) a se colocar uma nova disputa de direção. Essa disputa poderia se dar por dentro do trumpismo – com seus escolhidos, como JD Vance e Rubio – ou por fora, com alas mais jovens e radicalizadas se impondo para disputar. 

No Brasil, o Missão está se posicionando para disputar essa terceira onda. E está se vinculando com os elementos mais radicalizados do MAGA. Duas inspirações estão presentes, de forma preocupante, que devem ligar o sinal de alerta. 

A presença do ideólogo e blogueiro de extrema direita Curtis Yarvin no festival nacional do MBL registra a aliança entre os brasileiros e o núcleo internacional do tecnofascismo. 

Curtis Yarvin é o animador do movimento teórico batizado “Iluminismo sombrio” que busca dar bases ideológicas para o neofascismo, de forma ainda mais violenta e supremacista que a atual linha Trump. Seu correlato no mundo político e empresaria, é Peter Thiel, dono da Palantir, que associa a extrema direita a projetos de ultravigilância e ultraviolência digital. 

Tais figuras são estrelas ascendentes na constelação da extrema direita, com o peso das big techs e podem ajudar a localizar o MBL na esteira do tecno-fascismo internacional. Vale ler e estudar as críticas que vem se fazendo ao manifesto Palantir. 

Nesse caldo, combinando a misoginia redpill, o programa mais agudo que Milei e a articulação estratégica de ferramentas de “pensamento e ação”, o Missão está apontando um caminho.  

Nossas batalhas – Uma após a outra

Como enfrentar o bolsonarismo, mas também a influência de Missão e MBL entre os jovens? 

Em primeiro lugar, não subestimando o peso e o alcance de suas ideias. O “efeito Marçal” em 2024 foi um sintoma que deve ser assimilado. Renan irá crescer nas pesquisas. Resta saber quanto e como. 

Em segundo lugar, usar da mesma definição que fizemos com Vladimir Safatle no dossiê que fizemos da revista Retomada: o nome disso é fascismo. A forma particular que cada elemento se desenvolve deve ser compreendida, porém não se pode deixar de caracterizar o risco contido nessa organização, que é uma das expressões brasileiras do neofascismo. 

Ainda sobre isso, em terceiro lugar, devemos combater na batalha cultural, na batalha de ideias. Não basta apenas responder ao pragmatismo eleitoral imediato. Sem disputar a juventude para um projeto, mover corações e mentes para um novo futuro, com uma visão igualitária, anticapitalista e ecossocialista. Isso significa disputar contra o “realismo capitalista” que reduz o horizonte de transformação à regulação do capitalismo em crise. 

E disputar na juventude, significa debater os grandes temas, construir espaços antifascistas e um cordão físico e ideológico contra os agentes provocadores do MBL, sobretudo quando atacam passeatas, entidades e lideranças estudantis. 

E por final, para disputar a fundo, é preciso (mesmo votando em Lula, de forma crítica) construir um polo alternativo e independente, dando nossas próprias batalhas pelos interesses da juventude e da classe trabalhadora; levando cada batalha parcial – como a das jovens secundaristas que se levantam contra os redpill – como parte fundamental da batalha antifascista e para construir uma hegemonia anticapitalista entre a juventude brasileira, único antidoto real contra os missionários neofascistas. 


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 03 jun 2026

Classe e soberania: o caminho para derrotar Trump

Os novos ataques de Trump contra o Brasil são gravíssimos e abrem um grande espaço para levarmos a luta por soberania como maioria social
Classe e soberania: o caminho para derrotar Trump
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça a Revista Retomada!
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas

Autores