Crônicas de uma Bolívia convulsionada #4
O encontro com Óscar e o aniversário de Marisol. De volta a El Alto
Foto: Protesto em El Alto. (ID/Reprodução)
Quarta-feira, hoje o dia amanheceu nublado, já são 7h15 e está difícil sair da cama, faz 1ºC. Depois do dia agitado de ontem em El Alto, o dia de hoje não tem, ainda, nada programado. Tenho os artigos pra terminar e contatos pra retomar.
Desço para o café já são quase 8h. O café do hotel tem sido só chá, bolachas, geleia e manteiga. No primeiro dia ainda tinha pão. Desabastecimento? Talvez. Pode ser só os donos do hotel tirando proveito da situação. Pelo menos a música está mais ao meu gosto, hoje toca um Deep Purple, Lazy. O jornal noticia mais de 80.000 negócios gastronômicos (bares, restaurantes, cafés) fechados em La Paz por conta dos bloqueios. Muita coisa. É, de uma maneira, a expressão da força do levante.
A força de uma mobilização pode ser medida de muitas formas. Pelo contingente na rua é a maneira mais “usual”, mas nem sempre se trata de quantidade. Tem um aspecto que é onde e como direcionar a força que tem. O cerco e os bloqueios causam um impacto enorme na vida de La Paz e na economia, no humor do povo, na força do governo.
Oscar, do CADTM me liga, marcamos um encontro às 11h, em frente à Universidad Mayor de San Andrés. Ufa! Uma reunião.
Corro para terminar o que preciso antes de ir. Com a atenção na estação de gás “Hugo Suárez Roca”, em Santa Rosa del Sara. Ontem os camponeses ocuparam o poço e interromperam o fluxo de gás natural. Nem sempre é sobre quantidade.
A polícia cercou o local nessa madrugada. Pode ser uma desocupação tensa. Não posso esquecer da coletiva do novo Ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, vai ser importante para precisar a leitura do caminho e dos tempos dos movimentos do governo.
O caminho ao encontro de Óscar é pelo “Paseo del Prado”, como chamam Av. 16 de julho, sequência da Mariscal Santa Cruz. Tem um canteiro todo reformado, bonito, com calçadas para os pedestres, flores, estátuas… a região tem uma cara um pouco diferente, muitos bancos, o Ministério da Economia, restaurantes.
Encontro Óscar e nos sentamos em um Café, em frente à Universidade. A conversa com Óscar me apresenta um olhar bem diverso do que tenho ouvido até agora. Me fala da cisão entre a esquerda “velha” (partidos marxistas daqui) e o movimento camponês que se aprofundou e cristalizou ao longo do tempo. Não sem erro dos partidos, me diz, que buscavam importar uma “fórmula” de revolução que não se aplicava aqui. Como dizer aos camponeses com mais de século de acúmulo de luta (desde os tempos de Tupac Katari e Bartolina Sisa, que cercaram La Paz ainda em 1781) que eles precisavam ser dirigidos pelo proletariado urbano? Difícil.
Ao mesmo tempo, isso levou à uma repulsa à organização partidária e movimentos urbanos, se tornaram “antipartido”. O MAS, me diz, era um movimento, não propriamente um partido. Eles mesmo chamavam de “instrumento político”. De fato, é assim mesmo que os setores do MAS se referem ao Partido.
Seguimos a conversa abordando as dificuldades do presente. Não existe uma direção política capaz de conduzir o conjunto dos movimentos que estão mobilizados. Sem uma direção capaz de saber a hora do avanço e do recuo, da radicalização e da massificação, da concentração de forças para a derrubada do governo, as chances de avançar para uma situação revolucionária são pequenas, diz.
Ele descreve o cenário da esquerda boliviana, das organizações sociais, muitas, diversas, divididas entre si. Os recortes étnicos também compõem esse emaranhado de relações, Aymaras e Quechuas são os dois principais povos, mas no Estado plurinacional, são mais de 30. Isso atravessa o movimento indígena, camponês e também operário, não existe movimento popular que não seja indígena e, logo, atravessado pelo tema das etnias. A esquerda partidária, marxista, é muito fraca. Mesmo organizações que dirigem um setor, como o magistério, contam seus membros nas dezenas.
Quero anotar tudo, mas é impossível. Prefiro focar na conversa. “Depois precisamos marcar uma entrevista pra registrar tudo isso”.
“Mas vê alguma saída?” pergunto a ele – a pergunta que tenho feito a todos. “Difícil”, ele responde. É a impressão mais recorrente. Óscar me pergunta sobre o PSOL, afinal, é uma reunião de diferentes grupos com tradições distintas, “uma experiência que pode nos ajudar aqui”, tem reunido e tentado trabalhar nessa linha com alguns grupos, “todos muito pequenos”.
Nos despedimos perto de 12h30, ele vai almoçar com o irmão e o pai, “já tem 88 anos”. Trocamos um abraço fraterno, combinando seguir em contato e trocando impressões. “Vamos marcar uma reunião pra nos contarem sobre o PSOL”.
Na volta pelo “Prado”, encontro um camarada argentino, do PO. Paramos pra conversar brevemente. Existe, por parte da direita, uma perseguição organizada a estrangeiros presentes nas manifestações. Um militante teve que antecipar a volta, me conta, o outro (o que trocou socos com o provocador no domingo) está “bem guardado”. Perguntei se não esteve na marcha na segunda, pois não o tinha visto. Ele esteve, subiu para El Alto para descer com a marcha, no meio do caminho teve que sair, foi hostilizado pelos marchantes, expulso. Ali também os de fora são vistos com restrição. É, não tá fácil…
Vejo que a polícia desocupou a estação de gás, 10 detidos, todos eles condenados no que chamam de processo abreviado. Em troca de uma condenação de até 3 anos, que implica cumprir em liberdade, as pessoas se declaram culpadas.
O governo enviou o projeto de lei do Estado de exceção, mau sinal. Meu sentimento é de que vão girar para a repressão mesmo. Era também o sentimento em El Alto, na véspera. A única coisa que impedia era a inexistência de uma lei que regulamentasse.
No fim da tarde, Andrea, filha de Marisol me liga. “Quero te convidar para nossa casa, para o aniversário da minha mãe”. Não consegui sequer comprar um presente, mas vou, claro.
Andrea me passa as coordenadas, “pegar a mobilidade verde claro, P ou W, que passe em Villa Pabon”. Tá bem, passa em frente ao hotel.
A “mobilidade” não demora, é um micro-ônibus antigo, desses com o motor projetado à frente, tipo escolares de filme, só um pouco menor. Está completamente lotado e eu não tenho dúvidas de que sou o estranho no ônibus. Não consigo acompanhar muito bem a paisagem, o que gostaria, o micro é muito baixo, tenho que ficar com a cabeça “encolhida” e encostando no teto, um pouco curvado. Já estava lotado, mas, no caminho, ainda entram mais umas quatro ou cinco pessoas.
Marisol está me esperando na rua, me recebe com a alegria de sempre. A casa, em uma parte mais alta da cidade, tem uma entrada em um portão de ferro fechado, dá diretamente para uma escada, a casa fica na parte de cima. A sala é repleta de objetos antigos, uma máquina de escrever, um telefone antigo com um suporte alto, muito parecido com o que tinha na casa da minha avó, e o destaque, uma vitrola, que ela mostra com orgulho. “Gosto de coisas antigas”, me diz.
Logo chega seu marido, ele senta brevemente comigo na sala. Está bem frio e Marisol traz uma coberta para eu cobrir as pernas. Não demora muito e alguém chama, Marisol e seu marido descem para “resolver uma coisa, já volto”. Andrea, com quem eu já conversei mais, está preparando a janta e Natalia, filha mais nova fica conversando comigo. O interesse é sobre o Brasil. “É muito quente? Como são as praias? Como é o carnaval?” no geral respondo que, “depende, muito quente no norte, muito frio no sul, tem praia bonita, outras nem tanto e o carnaval, bom também muda muito de lugar pra lugar”.
Marisol demora um pouco para voltar, já são quase 21h, ela volta e nos sentamos à mesa. Colocam talheres, mas Andrea diz, “isso nós comemos com a mão”. Eu sigo como eles. A bebida é coca cola com cerveja, Paceña, a cerveja local, “para não embebedar”, diz o marido da Marisol. Comemos a janta preparada por Andrea, carne de porco frita, batatas cozidas (com casca) e uma porção de um milho diferente, maior e bem branco. A comida é muito gostosa, mas não dou conta de comer tudo, é muita coisa.
Estou só eu e a família de Marisol, fico pensando no quão significativo é ela ter me recebido nesse momento. Cantamos parabéns e todos fazem um discurso de homenagem à aniversariante, até os pequenos Darel e Luciana, filhos de Andrea. Eu também tive que fazer o meu, na medida que o meu espanhol permitiu.
Já é tarde, antes de sair Marisol me mostra mais uma de suas peças favoritas, uma pequena estátua de Evo, com a qual, claro, eu tenho que tirar uma foto.
Volto de taxi, é o que me indicam. Em uma das ruas que dobramos, damos “de cara” com um bloqueio. O motorista, que trabalha acompanhado de seu filho (imagino de uns quatro anos), demora a dar ré e os “bloqueadores” se movem em direção ao carro. Tenso. Ele dá volta e partimos, dali ao hotel, sem mais sinais das manifestações.
Chego com a notícia de que o projeto de lei do Estado de exceção deve andar rápido, Senado e Câmara querem “contribuir” com o “reestabelecimento da ordem”. Amanhã, quinta, tenho um encontro com Joel, lá em El Alto. É hora de ver como o movimento recebeu a movimento do governo. Segue…