Grã-Bretanha: renúncia do primeiro-ministro abre nova situação política no país, com riscos e desafios para a esquerda

Grã-Bretanha: renúncia do primeiro-ministro abre nova situação política no país, com riscos e desafios para a esquerda

A nova situação aberta com a renúncia de Keir Starmer e as questões colocadas para esquerda britânica

Márcio Musse 23 jun 2026, 08:49

A primeira semana do verão britânico começou quente. Além de um alerta vermelho do serviço de meteorologia sobre uma onda de calor que atravessa grande parte do país, a manhã de segunda-feira começou também com a renúncia do Primeiro Ministro Keir Starmer, do Partido Trabalhista (Labour). Starmer fica no cargo “interinamente” até que o Labour defina seu próximo líder, que consequentemente se tornará PM, o que deve ser formalizado até o final de julho (podendo se estender até o final de agosto ou início de setembro). Seu substituto será Andy Burnham – ainda não está formalizado mas provavelmente será aclamado sem grande (ou qualquer) oposição. 

A renúncia de Starmer não pegou ninguém de surpresa. O governo do trabalhista, apesar de ter vencido com ampla maioria de assentos as Eleições Gerais há menos de dois anos. Na ocasião, o Labour conquistou uma maioria confortável e, mesmo com um perfil bem mais à direita que o de sua direção anterior (Jeremy Corbyn), carregava as expectativas da maioria da população e da classe trabalhadora em reverter as políticas de austeridades e ajuste fiscal de mais de uma década de governo do Partido Conservador. Mas Starmer e o governo Labour, como fazem governos de centro-esquerda e coalizão de classes em várias partes do mundo, não adotou esse caminho. Seguiu a política de ajuste fiscal, atacou benefícios sociais e sua gestão de política externa foi catastrófica. Na verdade, Starmer mesmo no governo costumava dizer que sua principal “conquista” havia sido expulsar a esquerda do Labour e torná-lo mais palatável ao grande capital e sua agenda neoliberal.

Sua subserviência a Trump virou até piada em quadros humorísticos, mesmo quando tentava mostrar uma posição diferente dos EUA. Sua postura perante o genocídio em Gaza foi revoltante, caracterizada por “passar pano” para os massacres de Isarel sobre o povo palestino enquanto fez o que estava a seu alcance para reprimir as manifestações de apoio ao povo palestino. Seu governo chegou ao cúmulo de declarar “terrorista” uma organização de denúncia do genocídio (Palestine Action), e as cenas de centenas de ativistas presos em manifestações pacíficas – muitos deles pessoas idosas ou portadoras de necessidades especiais – correram o mundo. Além disso, o governo Starmer respondeu à propaganda racista e xenófoba da extrema-direita se adaptando e capitulando a ela. O resultado não foi surpreendente: uma queda acelerada na popularidade do governo e a extrema-direita crescendo e capitalizando o desgaste e a desilusão.

Eleições Locais e a “By-Election” mais importante da história recente da Inglaterra

Em maio, há poucas semanas, houve uma grande rodada de eleições locais na Inglaterra e nacionais na Escócia e País de Gales. Aquele processo confirmou o que já era perceptível nas ruas e locais de trabalho: o governo Starmer já era um defunto político. O Labour sofreu perdas históricas na quantidade de assentos em conselhos locais e prefeituras. No País de Gales, pela primeira vez o Senedd (Parlamento Galês) não teve maioria Labour – e o partido nacionalista Plaid Cymru conquistando o governo local. Na Escócia, o Labour também perdeu ainda mais espaço e o partido nacionalista escocês SNP mantém o controle. Vale ressaltar que é a primeira vez na história do Reino Unido que as três nações “anexadas” – Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales – tem seu First Minister (Primeiro MInistro local) de partidos nacionalistas e defendem a independência em relação a Londres. Esses três partidos (Sinn Fein na Irlanda do Norte, SNP na Escócia e Plaid Cymru em Gales) tem um perfil de centro-esquerda, bem mais à esquerda que o Labour atual.

Na Inglaterra, o principal vencedor das eleições locais foi o Reform UK, partido de extrema-direita capitaneado por Nigel Farage – figura que se tornou globalmente conhecida por estar à frente da campanha pelo Brexit. O Reform cresceu e atualmente lidera as pesquisas de opinião no país, com sua base de apoio principalmente entre o público masculino, branco, acima de 60 anos e residente nas áreas mais rurais do país. Mas também cresceram os Greens, que vem ganhando bastante terreno e hoje ocupam o espaço à esquerda na política britânica.

Ao final das eleições locais, o Membro do Parlamento (MP) por Makerfield – um distrito na Grande Manchester  – renunciou ao mandato. Quando isso acontece, ocorre uma eleição complementar (by-election) apenas naquela localidade, para a substituição do MP. Isso era uma movimentação para que Andy Burnham, prefeito de Manchester pelo Labour e adversário de Starmer, tentasse novamente chegar ao Parlamento para iniciar uma disputa pela liderança do Partido e, consequentemente, pelo cargo de Primeiro Ministro da Grã-Bretanha.

Burnham havia tentado em Gorton-Danton (outro distrito em Manchester) que teve by-election em fevereiro, mas sua candidatura foi barrada pelo diretório nacional do Labour, controlado por Starmer e seus aliados. Dessa vez a aposta era ainda mais arriscada: o perfil de Makerfield é de um eleitorado mais velho, menos etnicamente diverso e votou esmagadoramente a favor do Brexit em 2016 e nas eleições locais, há pouco mais de um mês, o Reform teve mais de 50% dos votos e ganhou todos os oito sub-distritos (wards) disputados. Ou seja, um terreno muito mais favorável a uma vitória do Reform que, caso se confirmasse, deixaria Nigel Farage “na cara do gol” para ocupar o cargo máximo em Westminster em apenas uma questão de tempo. Mas Andy Burnham fez uma campanha “nacionalizada” – deixando claro que era candidato não só a parlamentar mas fundamentalmente a PM (com um discurso quase que de oposição, na forma) – e ganhou a eleição no dia 18 de junho com 55% dos votos.

O que esperar de um governo de Andy Burnham.

Burnham venceu bem essa eleição – e se apresenta como uma resposta à pergunta que o Labour (e a esquerda de conjunto) vem fazendo no último período: “como barrar o avanço e a chegada da extrema-direita ao poder?”. 

Burnham faz um discurso de diferenciação com Starmer, e promete algumas alterações no modelo de governar (mais poder e decisões localizadas), uma postura mais altiva na política externa e acena com uma postura de buscar diálogo com setores mais à esquerda – com os quais Starmer se vangloriava de ter expulsado e demolido as pontes. 

Mas não devemos esperar nada fundamentalmente diferente do governo Starmer, talvez com estes ajustes e a postura mais eloquente. Em termos econômicos, ambos estão comprometidos com políticas de austeridade, pró-mercado e com a continuidade da agenda econômica vigente. Recentemente, ele declarou que apoia uma política ainda mais rígida em relação à imigração, endossando as mudanças propostas por Shabana Mahmood (muito criticada por semelhanças às políticas anti imigração de Trump). Podemos observar algumas mudanças no tom em relação a Israel e à política externa (principalmente em relação a Trump/EUA e maior relação com a União Europeia), mas não ações práticas e políticas fundamentalmente diferentes do governo atual. Em outras palavras: um governo de conteúdo neoliberal, que pode ter algumas políticas compensatórias e um discurso mais “à esquerda” em algumas questões – mas segue fundamentalmente a agenda de austeridade e ajuste fiscal que aumentam a exclusão social e desilusão na maioria da população. Além disso, em governos anteriores, Burnham foi ministro da saúde e avançou na privatização do NHS (Sistema de Saúde Pública britânico), votou a favor da Guerra do Iraque e esteve envolvido com organizações sionistas dentro do Labour, para citar alguns exemplos.

Esquerda Independente ou “time do Burnham”?

Esse quadro coloca questões importantes, e podemos estar diante de um divisor de águas na esquerda britânica com potencial repercussão na esquerda europeia e internacional. O que fazer diante da nova situação política?

Uma coisa foi a campanha eleitoral de Makerfield – onde uma vitória do Reform (que era tida como bastante provável) e abriria de vez as portas de acesso da extrema-direita ao poder – e era uma corrida entre este partido e Burnham. Nessa, um voto tático “anti-Reform” como forma de barrar essa importante conquista de posição era uma tática válida e correta. Os Greens lançaram uma candidatura formal (o candidato inicialmente nomeado renunciou pouco após sua nomeação), não fizeram campanha e tiveram menos de 1%. O antidemocrático modelo eleitoral britânico, onde a eleição de cada assento (distrito) é uma eleição majoritária em turno único faz com que esse tipo de tática seja ainda mais aplicável em alguns momentos – o que chegou inclusive a ser usado por Lenin como exemplo em um de seus escritos clássicos. Era uma situação diferente da by-election de fevereiro, quando a esquerda se unificou em torno à candidatura de uma trabalhadora encanadora dos Greens contra Labour e o Reform – e acabou ganhando a eleição.

Outra coisa é depositar qualquer confiança no novo governo Burnham – alimentando a ilusão de que será um governo mais “nosso” – e adotar uma postura de compor sua base de sustentação ou mesmo apoiá-lo desde fora. Seja por compactuar com a idéia que um novo PM, com um discurso um pouco mais elaborado e ajustado mas sem mexer nas estruturas e na agenda central do Governo pode fazer a diferença ou – o que acontece em alguns casos – enxergar no governo Burnham um “dique seguro” para conter o avanço da extrema-direita racista, xenófoba e neo-fascista no país. Esse é o grande divisor de águas na esquerda britânica que se coloca para o próximo período.

Esse debate não é novidade. Ele aparece em outros países (como no Brasil) e já se colocou em outros momentos da história – é parte de um dos debates mais clássicos e conceituais dentro da esquerda socialista: o de como enfrentar o fascismo. O atalho de se apoiar o governo de plantão sempre parece mais seguro no curto prazo, mas acaba pavimentando ainda mais o caminho para a extrema-direita. Depois de algum tempo, quando começa a ficar claro que  o governo não atende as expectativas e suas próprias promessas, a extrema-direita capitaliza esse descontentamento com um falso discurso anti-sistema, e se depara com uma esquerda majoritariamente desmoralizada e bastante identificada com o status quo. Por isso, não apenas no Reino Unido e no Brasil, mas em todas as partes do mundo, é necessária uma esquerda independente, que faça unidades de ação quando necessário “com o diabo e sua avó” para deter qualquer avanço do fascismo e suas variantes – mas em nenhum momento se coloque como linha auxiliar de governos burgueses e de conciliação de classes. Pois só assim, com esse perfil independente, classista e com uma forte agenda anticapitalista podemos disputar a sociedade nesse conturbado período de transição que vive o mundo. E, na Grã-Bretanha, não conseguiremos cumprir esse papel sendo a esquerda do “time do Burnham”.

Por um governo Zack Polanski – baseado nos movimentos sociais e sob um Manifesto anticapitalista

Está na ordem do dia a questão de quem deve governar a Grã Bretanha. O atual governo e (possivelmente) o setor majoritário da burguesia e do imperialismo tem sua resposta: Andy Burnham. Outros setores da burguesia (e do imperialismo), e a extrema-direita também tem o seu (que, embora tenha perdido força recentemente, ainda tem peso): Nigel Farage. E o nosso?

Zack Polanski (líder dos Greens) hoje aparece como uma das figuras políticas de maior popularidade na Grã Bretanha. Dentre os mais jovens, e nas áreas metropolitanas, aparece em primeiro lugar. Com todas as limitações de seu partido (que não é um partido da classe trabalhadora), se apresenta com um programa e perfil bem à esquerda, semelhante ao de Jeremy Corbyn durante a fase do Corbynismo (segunda metade dos anos 2010). A esquerda britânica não pode alimentar ilusões no novo governo Burnham, e tem desde já apontar essa alternativa como a saída para a crise do país. Levantar elementos defendidos por Polanski como taxação das grandes fortunas e dos ricos, nacionalização das empresas privatizadas (e com isso reduzir o custo de vida), controle de aluguéis e investimento em moradias populares e sociais, além de uma política anti imperialista no cenário internacional, a começar pela condenação de Israel e Trump por suas guerras e genocídio do povo palestino. Isso não significa uma adesão aos Greens ou um cheque em branco a Polanski e os caciques do partido, mas a uma campanha de massas, dinâmica, e que hoje tem condições de nos colocar na polarização de disputa do projeto para o país.

Essa campanha se dá em todos os terrenos, desde a luta social até as disputas eleitorais. No final de julho haverá a by-election para a prefeitura de Manchester – Andy Burnham acaba de renunciar ao cargo – e os Greens anunciaram que vão disputar “pra valer”.


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