Trump decide hoje sobre novo tarifaço contra o Brasil

Trump decide hoje sobre novo tarifaço contra o Brasil

Termina nesta quarta-feira (15) prazo para Trump decidir sobre novas sobretaxas sobre produtos brasileiros. Planalto considera medida injustificada, enquanto especialistas veem motivações políticas e alertam para impactos sobre os dois países

Tatiana Py Dutra 15 jul 2026, 08:48

Foto: Reprodução

O governo dos Estados Unidos deve anunciar nesta quarta-feira (15) se aplicará uma nova rodada de tarifas sobre produtos brasileiros, encerrando meses de negociações diplomáticas e uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). Caso a proposta seja confirmada, milhares de produtos brasileiros poderão enfrentar uma sobretaxa adicional de 25%, tornando o Brasil um dos países mais penalizados pela política comercial do presidente Donald Trump.

A decisão representa mais um capítulo da estratégia protecionista adotada por Trump desde o início de seu segundo mandato e pode provocar efeitos relevantes tanto para a economia brasileira quanto para consumidores e empresas norte-americanas. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), aproximadamente 4,2 mil produtos brasileiros, que somam cerca de US$ 15 bilhões em exportações anuais, poderão ser atingidos.

Governo brasileiro classifica medida como “injusta”

Na véspera da decisão, representantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), do Ministério das Relações Exteriores e da Assessoria Especial da Presidência reuniram-se, pela quinta vez desde maio, com o representante comercial norte-americano, Jamieson Greer.

Em nota oficial, o governo brasileiro reiterou que considera as possíveis sobretaxas desprovidas de fundamento técnico.

“O governo brasileiro reiterou que a aplicação de qualquer sobretaxa se mostra injusta e não é o caminho para que possamos formular um acordo bilateral mutuamente adequado.”

Segundo o MDIC, nenhuma das alegações apresentadas pelo USTR justificaria a adoção de novas barreiras comerciais.

Apesar da escalada das tensões, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém a orientação de buscar uma solução negociada, embora integrantes do governo admitam que Washington endureceu sua posição nas últimas semanas.

Ao mesmo tempo, o Palácio do Planalto não descarta responder com medidas comerciais caso as tarifas sejam efetivamente implementadas, respeitando as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e os instrumentos previstos na legislação brasileira.

O que os Estados Unidos alegam

A investigação foi aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, mecanismo utilizado para apurar práticas consideradas prejudiciais aos interesses comerciais norte-americanos.

Entre os pontos questionados estão a regulamentação do comércio digital, o funcionamento do Pi, a proteção da propriedade intelectual, o acesso ao mercado brasileiro de etanol, políticas ambientais e combate ao desmatamento ilegal. Especialistas observam, porém, que vários desses temas extrapolam questões estritamente comerciais e dialogam com disputas regulatórias envolvendo grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos.

Entre os episódios frequentemente citados estão decisões do Supremo Tribunal Federal relativas às plataformas X e Rumble, além da crescente regulamentação brasileira sobre serviços digitais.

Brasil pode se tornar um dos países mais tarifados pelos EUA

Levantamento do Global Trade Alert (GTA), iniciativa do centro de estudos suíço St. Gallen Endowment, mostra que atualmente o Brasil ocupa a 13ª posição entre os países mais afetados por tarifas efetivas impostas pelos Estados Unidos. Se a nova sobretaxa de 25% for confirmada, o país passará para o segundo lugar, ficando atrás apenas da China.

Segundo Johannes Fritz, diretor do St. Gallen Endowment, a intensidade das medidas não parece decorrer apenas da relevância comercial do Brasil. Hoje, o Brasil é apenas o 17º maior parceiro comercial dos Estados Unidos. Na avaliação do pesquisador, o tratamento diferenciado pode refletir fatores políticos:

“O que parece plausível é que tenha um componente de alianças pessoais ou, pelo menos, políticas, já que Bolsonaro foi citado explicitamente.”

Quais setores podem sofrer mais

Embora commodities agrícolas apresentem maior capacidade de redirecionamento para outros mercados internacionais, observadores apontam que os maiores impactos recaem sobre produtos manufaturados. Segundo o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro:

“Os exportadores de manufaturados serão os mais afetados. As commodities têm vida própria para sobreviver no mercado internacional.”

Entre os segmentos mais vulneráveis estão:

  • aeronaves
  • máquinas e equipamentos
  • ferro-gusa
  • álcool etílico
  • madeira
  • móveis
  • couro
  • calçados
  • tabaco
  • produtos metalúrgicos
  • autopeças

Só no Rio Grande do Sul, a sanção pode afetar  mais da metade das exportações, segundo a Federação das Indústrias (Fiergs). A entidade estima que setores como madeira, couro, calçados, tabaco e indústria de transformação concentram mais de 100 mil empregos, o que aumenta a preocupação com possíveis reduções de produção e investimentos.

Como isso pode afetar brasileiros e americanos

Os efeitos não se limitam às grandes empresas exportadoras. Caso as tarifas reduzam significativamente as vendas aos Estados Unidos, empresas brasileiras poderão enfrentar queda na produção, suspensão de investimentos, redução de jornadas, demissões em setores exportadores e menor arrecadação em municípios fortemente dependentes dessas cadeias produtivas. Além disso, produtos inicialmente destinados ao mercado americano podem precisar ser redirecionados para outros destinos, muitas vezes com margens menores.

As tarifas de importação são pagas por quem importa os produtos, e parte desse custo costuma ser repassada ao consumidor final. Por isso, entidades empresariais americanas e brasileiras argumentam que um novo tarifaço também pode encarecer produtos vendidos nos Estados Unidos.

O setor calçadista brasileiro, por exemplo, afirma que a medida representaria uma situação de “perde-perde”, ao elevar custos para varejistas norte-americanos e reduzir a competitividade de fornecedores brasileiros. Em cadeias industriais integradas, empresas dos EUA também podem enfrentar aumento no custo de matérias-primas e componentes importados do Brasil.

Política comercial ou pressão política?

A condução das tarifas também alimenta um debate sobre o uso de instrumentos econômicos para pressionar governos estrangeiros. Desde o anúncio das primeiras sobretaxas, Donald Trump fez referências públicas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e criticou decisões do Judiciário brasileiro.

Essas declarações levaram analistas de comércio internacional a discutir se parte da estratégia americana extrapola objetivos econômicos tradicionais e incorpora elementos de disputa política e diplomática.

Especialistas em relações internacionais observam que o uso de tarifas como mecanismo de pressão política não é novidade na política externa de Trump. Durante seu primeiro mandato, o presidente norte-americano utilizou medidas semelhantes em negociações com China, México, Canadá e União Europeia, frequentemente vinculando questões comerciais a objetivos geopolíticos ou de política interna.

No caso brasileiro, a associação pública entre as medidas comerciais e a situação judicial de Jair Bolsonaro foi vista por diversos analistas como um elemento incomum nas relações bilaterais entre os dois países, uma vez que introduz fatores de natureza política doméstica em uma disputa formalmente apresentada como comercial.

Agora, todas as atenções se voltam para Washington. A decisão anunciada nesta quarta-feira poderá redefinir a relação econômica entre Brasil e Estados Unidos, afetar milhares de empresas e trabalhadores e abrir um novo capítulo nas disputas comerciais que marcaram o segundo governo Donald Trump.


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 09 jul 2026

Depois da frustração brasileira na Copa

Para toda frustração, lições são necessárias e precisamos usar do espírito de ação e reflexão coletiva para pensar nos próximos passos da luta
Depois da frustração brasileira na Copa
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça a Revista Retomada!
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas

Autores