Flavio, Michelle e o pedido de desculpas que não encerra o ‘’conto de farpas’’
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Flavio, Michelle e o pedido de desculpas que não encerra o ‘’conto de farpas’’

O pedido de desculpas não conclui a narrativa que foi construída desde a publicação do primeiro vídeo da Michelle

Vanessa Quadros 25 jul 2026, 15:57


Ontem o senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) gravou um pedido de desculpas a sua madrasta Michelle Bolsonaro. Esse pedido foi seguido por uma resposta simples e direta: ‘’te desculpo’’, seguida de um discurso bem direcionado às eleitoras evangélicas e ao povo brasileiro. Existem muitos elementos desse ‘caso’ que valem ser analisados para que a esquerda não o subestime.

Antes de tudo, é importante entender que o pedido de desculpas não conclui a narrativa que foi construída desde a publicação do primeiro vídeo da Michelle. As desculpas são necessárias dentro de um contexto em que a extrema-direita brasileira precisa apresentar uma unidade política, como ambos expressam diretamente nas últimas declarações. Ainda assim, Michelle é a grande vitoriosa desse processo. Por um lado, ela dialoga com o voto feminino, popular e evangélico, combinando assertividade política com a imagem da boa esposa cuidadosa. Por outro, ela se consolida no imaginário do povo como a mãe da pátria: jovem, bela, preocupada mas calma. Essa personagem não é nova para quem estuda o Fascismo como movimento de massas.

Em Psicologia de Massas do Fascismo, Reich discute a importância dessa figura do modelo social do fascismo: ‘’A idealização e o culto da maternidade, que tão flagrantemente contrastam com a brutalidade com que são tratadas na realidade as mães da classe trabalhadora, são essencialmente, meios para não permitir que as mulheres, adquiram consciência sexual, ultrapassem o recalcamento sexual imposto e vençam a ansiedade sexual e os sentimentos de culpa sexual. A mulher sexualmente consciente, que se afirma e é reconhecida como tal, significaria o colapso completo da ideologia autoritária. As tentativas conservadoras de reforma sexual cometeram sempre o erro de não concretizar suficientemente o slogan “direito da mulher ao seu próprio corpo”, de não considerar e defender clara e categoricamente a mulher como ser sexual, pelo menos tanto quanto é defendida e considerada mãe. Além disso, basearam sempre sua política sexual essencialmente na função de reprodução, esquecendo-se de romper com a identificação reacionária entre sexualidade e reprodução. Por este motivo, não conseguiu fazer frente às tendências místicas com a força necessária.’’ Ainda que escritas em 1933, é interessante como essas palavras parecem dizer, e dizem, sobre a construção da personagem Michelle, mas também de seus limites em um país que tem uma constante latência da luta feministas contra os feminicídios e por direitos sexuais das mulheres e crianças. Logo em seguida, Reich coloca um elemento que se combina com as contradições da história de Michelle com o ex presidente: ‘’A oposição entre “mãe” e “prostituta”, feita, por exemplo, pelo filósofo.

Weininger, corresponde à oposição que o homem reacionário efetivamente faz entre prazer sexual e reprodução. Nesta perspectiva, o ato sexual por prazer desonra a mulher e mãe; uma prostituta é uma mulher que aceita o prazer e vive para ele. O ponto de vista de que a sexualidade só é moral quando a serviço da reprodução, de que, além da procriação, tudo mais seria imoral, constitui a característica principal da política sexual reacionária’’

Se anos atrás as palavras ‘’Bela, recatada e do lar’’ na capa da revista Veja sobre a primeira-dama Marcela Temer rapidamente viraram uma narrativa de humor. Hoje, esse modelo de mulher, tão necessário para o Capital em crises, disputa votos, cava espaço na política e se arma dos próprios direitos femininos conquistados pelos movimentos de mulheres antecedentes. Falamos então exatamente da mesma contradição: é por causa do feminismo que as mulheres votam mais, estudam e se recusam a corresponder com a reprodução social do capital e gerar uma nova geração de trabalhadores obedientes e produtivos para salvar o sistema econômico. Mas é também por causa do feminismo que as mulheres da extrema-direita (Michelle, Damares, Zambelli, Bia Kicis e tantas outras) têm espaço na política e, contraditoriamente, trabalham pelo crescimento da misoginia e da violência contra a mulher.

Diante disso, as tarefas dada às feministas, socialistas e pré-candidaturas que se lançam ao desafio eleitoral nos próximos meses são: 1- afirmar o programa feminista como um projeto para o povo, que protege as familias do feminídio e salva a vida das mulheres pobres e trabalhadoras. 2- apresentar uma alternativa coletiva e militante 3- desmacarar as ilusões e romantizações da família Bolsonaro que disputa por um trono do pai derrotado e que há anos abusam dos privilégios da vida política e corrupta.


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