Milei volta a atacar Lula e agrava crise com o Brasil
Presidente argentino repete acusações sem provas contra Lula, questiona decisões do STF e acusa governo brasileiro de interferência; ofensiva ocorre após apoio explícito à candidatura de Flávio Bolsonaro
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O presidente da Argentina, Javier Milei, voltou a atacar duramente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ampliando uma crise diplomática que já levou o governo brasileiro a convocar seu embaixador em Buenos Aires para consultas. Em nova entrevista, Milei repetiu que Lula é “ladrão”, “corrupto” e “presidiário”, acusou o brasileiro de interferência política na América Latina e afirmou, sem apresentar provas, que o governo brasileiro teria destinado US$ 1 bilhão à campanha de Sergio Massa nas eleições argentinas de 2023.
As novas declarações foram dadas no domingo (2), em entrevista à emissora argentina LN+, poucos dias depois de Milei ter desembarcado em São Paulo para participar da convenção do Partido Liberal (PL) que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. A visita já havia provocado uma reação inédita do Itamaraty: o chanceler Mauro Vieira convocou o embaixador argentino no Brasil para cobrar explicações e chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, a consultas. O Ministério das Relações Exteriores classificou os ataques como uma afronta ao chefe de Estado, às instituições brasileiras e ao povo brasileiro. Ao insistir nos insultos, Milei afirmou:
“É ladrão! É ladrão! É um ladrão, é um corrupto. Foi condenado (…) Foi preso. Portanto, também presidiário. E o libertaram por uma falha administrativa do procedimento; não por ser inocente. Portanto, é ladrão, é corrupto.”
Questionado sobre o caráter agressivo das declarações, o argentino respondeu: “É muito mais leve chamar de ladrão o ladrão do que o próprio ato de roubar”.
A afirmação distorce o histórico judicial de Lula. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações impostas ao presidente nos processos da Lava Jato porque a 13ª Vara Federal de Curitiba não era competente para julgá-los. O STF também confirmou a suspeição do então juiz Sergio Moro no caso do triplex, reconhecendo sua parcialidade na condução do processo.
Portanto, não procede a versão de que Lula tenha sido simplesmente “libertado por uma falha administrativa”. As condenações foram anuladas por decisões do Supremo Tribunal Federal e Lula recuperou seus direitos políticos, podendo disputar a eleição presidencial de 2022.
Acusações sem provas e ofensiva contra a esquerda
Milei também retomou uma acusação feita anteriormente pelo deputado Eduardo Bolsonaro: a de que Lula teria colocado US$ 1 bilhão na Argentina para financiar a campanha de Sergio Massa, adversário do atual presidente argentino em 2023.
“Eduardo Bolsonaro contou que o senhor Lula pôs um bilhão de dólares na Argentina na campanha de Massa para me atacar. Além disso, (Lula) pôs um grupo de assessores brasileiros (na campanha). Então, a esses que me acusam de interferência política digo que, se há alguém que interfere politicamente na região, é Lula, contaminando, com as ideias imundas do socialismo, todos os lugares”, afirmou.
Milei não apresentou evidências para sustentar a acusação. A retórica, entretanto, se encaixa no discurso político que o presidente argentino vem utilizando desde sua chegada ao poder: transformar governos de esquerda, movimentos sociais e instituições públicas em inimigos a serem combatidos.
O argentino também afirmou que as críticas a Lula seriam uma forma de defender “os brasileiros de bem” e voltou a atacar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a quem acusou de perseguir adversários políticos e de agir sob influência do presidente brasileiro.
“Eu fui ao Brasil e não ataquei os brasileiros; falei em favor dos brasileiros. Falei sobre Lula, o corrupto, o condenado, e sobre o juiz Alexandre de Moraes, que negou a visita de Bolsonaro.”
A declaração ignora que Milei estava em território brasileiro participando de um ato político destinado a apoiar um candidato à Presidência e atacando o chefe de Estado brasileiro. O próprio governo Lula considerou o episódio sem precedentes nas relações bilaterais.
Um presidente estrangeiro em campanha por Flávio Bolsonaro
A escalada de Milei não pode ser dissociada de sua atuação aberta na eleição brasileira. O presidente argentino foi a São Paulo para participar da convenção que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato do PL e declarou apoio ao filho de Jair Bolsonaro na disputa contra Lula.
A presença de um chefe de Estado estrangeiro em um ato partidário brasileiro é incomum e evidencia a dimensão internacional assumida pela disputa eleitoral. A imprensa internacional tem apontado a aproximação de Milei com a extrema direita regional e sua estreita sintonia política com os Bolsonaro e com Donald Trump.
Milei e os Bolsonaro cultivam uma aliança política desde 2023. O presidente argentino já havia recebido Flávio Bolsonaro em Buenos Aires e, em junho, reafirmado publicamente seu apoio à candidatura do senador.
O apoio também é parte de uma articulação mais ampla da direita radical no continente. Milei mantém forte alinhamento político com Trump e tem buscado consolidar uma rede regional de governos e lideranças de direita. Analistas ouvidos pelo Guardian descrevem sua atuação como parte de uma tentativa de fortalecer uma aliança da extrema direita latino-americana.
Não por acaso, Flávio Bolsonaro comemorou a presença do argentino e declarou que Milei havia dito aquilo que “muito brasileiro queria falar”. O candidato do PL também afirmou que o presidente argentino “fez um discurso que não atacou o Brasil. Atacou o comunismo”.
A declaração ajuda a revelar a natureza essencialmente eleitoral da ofensiva. Ao atacar Lula e elogiar Flávio Bolsonaro, Milei não está apenas expressando uma divergência entre governos: está se colocando diretamente na disputa política brasileira.
Crise diplomática pode se aprofundar
O primeiro efeito concreto dos ataques já ocorreu. Em 26 de julho, o Itamaraty convocou o embaixador argentino no Brasil para transmitir a “repulsa” do governo às declarações de Milei. Na mesma ocasião, Julio Bitelli foi chamado a Brasília para consultas — gesto diplomático reservado a situações de grave descontentamento.
O problema é que, quando parecia haver espaço para uma redução das tensões e o retorno do embaixador brasileiro a Buenos Aires, Milei voltou a elevar o tom.
A insistência pode prolongar a ausência de diálogo político entre os dois presidentes e dificultar a coordenação bilateral em temas de interesse comum. Brasil e Argentina são os dois maiores países do Mercosul e têm uma relação econômica e estratégica que ultrapassa as divergências ideológicas entre seus governos.
Uma deterioração permanente das relações poderia atingir negociações comerciais, projetos de integração regional e a própria capacidade do Mercosul de atuar de forma coordenada. O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina, o que torna a escalada retórica especialmente contraditória para um governo que depende das relações econômicas com o país vizinho. O próprio Itamaraty ressaltou que Brasil e Argentina mantêm 203 anos de relações de amizade e cooperação.
Por enquanto, a tendência é que Brasília preserve os canais diplomáticos formais, mas endureça a resposta sempre que Milei ultrapassar os limites considerados aceitáveis na relação entre Estados. O governo brasileiro já demonstrou que não pretende tratar como simples divergência ideológica ataques pessoais ao presidente da República, ao Judiciário ou às instituições democráticas.
A “campanha anti-Argentina”
Milei também voltou a sustentar outra acusação sem provas: a existência de uma suposta campanha internacional contra a Argentina, financiada por Brasil, México, Partido Democrata dos Estados Unidos e governo espanhol.
“Toda a campanha contra a Argentina foi motorizada pelo Brasil”, afirmou. “Com dinheiro para ‘influencers’, atores e outros. Foi o Brasil. O Brasil em primeiro lugar. Em segundo lugar, o México. Em terceiro lugar, os Estados Unidos, o Partido Democrata. E a Espanha de Pedro Sánchez.”
A base citada por Milei para a acusação, entretanto, é um levantamento sobre a origem das conversas nas redes sociais sobre a Argentina. O estudo não demonstra que os governos dos países mencionados tenham financiado uma campanha coordenada, tampouco comprova a existência de uma operação internacional para atacar o governo argentino. A acusação foi classificada por veículos internacionais como não acompanhada de evidências.
A estratégia tem uma lógica política conhecida: diante de dificuldades internas, construir inimigos externos e atribuir a eles a responsabilidade por problemas domésticos. O discurso também permite a Milei apresentar sua batalha contra a esquerda como parte de uma disputa continental, reforçando sua posição como uma das principais referências da extrema direita latino-americana.
Uma disputa que ultrapassa Milei e Lula
A crise entre Milei e Lula, portanto, não se resume à antipatia pessoal entre os dois presidentes. Ela ocorre em meio à eleição brasileira de 2026 e à tentativa da extrema direita internacional de fortalecer a candidatura de Flávio Bolsonaro.
O presidente argentino já deixou claro de que lado está. Trump também demonstrou apoio ao campo político de Flávio, enquanto Milei transformou sua visita ao Brasil em palanque eleitoral. A imprensa internacional vem tratando essa convergência como parte de uma ofensiva mais ampla de lideranças de direita para influenciar o cenário político brasileiro.
Nesse cenário, os ataques pessoais de Milei a Lula cumprem simultaneamente uma função ideológica e eleitoral: reforçam sua identidade política diante da direita internacional, alimentam a polarização regional e oferecem munição ao bolsonarismo na disputa presidencial brasileira.
Para o Brasil, porém, há um custo institucional. O confronto entre dois presidentes pode ser absorvido pela disputa eleitoral, mas a deterioração das relações entre os dois maiores países do Cone Sul produz consequências que ultrapassam os interesses de Milei, Lula, Bolsonaro ou qualquer candidato.
O desafio diplomático para Brasília será responder às provocações sem permitir que a relação bilateral seja capturada pela lógica da guerra cultural da extrema direita – preservando, ao mesmo tempo, os interesses econômicos, a integração regional e a soberania brasileira.