A (falta de) diplomacia como arma eleitoral
Trump amplia pressão econômica e diplomática, enquanto Milei ataca Lula e faz campanha por Flávio Bolsonaro; governo brasileiro denuncia tentativa de interferência estrangeira no processo eleitoral
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O Brasil enfrenta uma escalada diplomática sem precedentes recentes justamente quando se aproxima a eleição presidencial de 2026. Em duas frentes, os governos de Donald Trump, nos Estados Unidos, e Javier Milei, na Argentina, passaram a pressionar diretamente o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, atacar autoridades brasileiras e, de maneiras diferentes, interferir no ambiente político em que será disputada a sucessão presidencial.
De um lado, Washington transformou uma disputa comercial e diplomática em instrumento de pressão sobre o Brasil. Além do tarifaço que atinge produtos brasileiros, o governo Trump revogou nesta terça-feira (4) o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em mais um movimento de deterioração das relações bilaterais. A medida ocorreu em meio ao impasse sobre a nomeação do novo embaixador norte-americano em Brasília e às acusações do governo brasileiro de que Washington pretende interferir nas eleições.
Do outro, Milei deixou de se limitar a declarações hostis contra Lula e desembarcou pessoalmente no Brasil para participar de um evento partidário destinado a impulsionar a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. No palco da convenção do PL, o presidente argentino atacou Lula e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao mesmo tempo em que declarou apoio à candidatura do filho de Jair Bolsonaro.
A coincidência não é apenas cronológica. Os dois governos estrangeiros atuam em defesa de uma mesma corrente política latino-americana de extrema direita, enquanto o principal adversário de Flávio Bolsonaro nas urnas é justamente o presidente brasileiro.
O resultado é uma situação diplomática particularmente grave: parceiros estratégicos do Brasil passaram a utilizar instrumentos de política externa, comércio e influência política em um momento decisivo da democracia brasileira.
Washington transforma comércio em pressão política
A revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti veio depois de o Brasil não ter concedido imediatamente o agrément ao diplomata Daniel Perez, indicado por Washington para assumir a embaixada norte-americana em Brasília. O governo brasileiro sustenta que a Casa Branca atropelou a prática diplomática ao anunciar a indicação antes de solicitar formalmente a anuência brasileira. Não existe prazo definido para a concessão do agrément, segundo o Itamaraty.
A reação de Washington, portanto, não foi uma simples cobrança burocrática. O governo Trump optou por uma medida de forte carga política contra a principal representante diplomática brasileira em território norte-americano. Para o governo brasileiro, a decisão faz parte de uma sequência de ações hostis.
“A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo”, afirmou o governo Lula, que acrescentou: “Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”.
A avaliação brasileira encontra respaldo no contexto em que a crise ocorre. Antes da revogação do visto, o Itamaraty havia recusado a entrada de dois funcionários do Departamento de Estado norte-americano, Riley Barnes e Samuel Samson. A viagem seria oficialmente destinada a discutir integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão.
O governo brasileiro, entretanto, considerou que a visita poderia servir para levantar suspeitas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro – justamente uma das bandeiras utilizadas historicamente por Jair Bolsonaro e seus aliados para atacar as urnas eletrônicas. O episódio é especialmente sensível porque o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, é um conhecido crítico do governo Lula e mantém proximidade política com a família Bolsonaro.
O “Tariflávio” e a eleição brasileira
A dimensão econômica da crise não pode ser separada da dimensão política. Em julho, o governo Trump impôs novas sobretaxas sobre produtos brasileiros. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), duas medidas adotadas pelos Estados Unidos estabeleceram sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre parcelas das importações brasileiras.
Combinadas, as medidas atingem 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos. Desse total, 16,5% estão sujeitos à sobretaxa acumulada de 37,5%. Entre os produtos atingidos estão máquinas e equipamentos, diferentes tipos de madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções.
É nesse contexto que ganhou força no debate político brasileiro o apelido de “Tariflávio”, uma referência ao fato de que Flávio Bolsonaro passou a atuar politicamente junto ao governo Trump enquanto o Brasil sofria os efeitos das medidas comerciais.
O termo “Tariflávio” é uma construção política que traduz uma acusação que passou a ocupar o centro da disputa eleitoral: a de que integrantes da família Bolsonaro estariam aceitando ou até estimulando a pressão de Washington contra o próprio país para obter vantagens eleitorais.
A disputa chegou a um ponto em que o próprio senador Flávio Bolsonaro passou a ser associado diretamente ao debate sobre as tarifas. Em julho, Trump tornou o tarifaço um dos principais assuntos da campanha brasileira, enquanto aliados do 01 atribuíam ao governo Lula a responsabilidade pelo conflito comercial.
A crise, portanto, produz uma situação perversa: uma decisão tomada em Washington afeta empresas, trabalhadores e exportadores brasileiros, enquanto a oposição tenta transformar os efeitos da política comercial norte-americana em munição contra o governo brasileiro. O problema é que as tarifas não atingem o Palácio do Planalto. Atingem quem produz no Brasil.
Milei cruza a fronteira para fazer campanha
Se Trump atua sobretudo por meio da pressão econômica e diplomática, Milei escolheu uma forma mais explícita de intervenção política.
Em 25 de julho, o presidente argentino veio a São Paulo participar da convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Não se tratou de uma visita de Estado nem de uma agenda bilateral com o governo brasileiro. Milei veio participar de um evento partidário e declarar apoio a um candidato brasileiro.
A presença do presidente argentino foi descrita pela Reuters como uma tentativa de impulsionar a campanha de Flávio Bolsonaro e fortalecer uma articulação regional da direita.
No evento, Milei atacou Lula e o ministro Alexandre de Moraes. Chamou Lula de “presidiário” e Moraes de “lixo careca”. Também defendeu uma agenda de redução do Estado e liberalização econômica alinhada ao projeto político que vinha apresentar ao eleitorado brasileiro.
O gesto ultrapassou a tradicional diplomacia entre governos. Milei não estava simplesmente manifestando uma preferência ideológica: estava dentro do Brasil, em um palanque partidário, fazendo campanha política por um candidato à Presidência.
A reação brasileira foi imediata. O governo chamou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos e convocou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli. Dias depois, diante da continuidade dos ataques, o Brasil decidiu rebaixar o nível das relações diplomáticas com a Argentina.
De aliado de Bolsonaro a cabo eleitoral de Flávio
A aproximação entre Milei e a família Bolsonaro não começou agora. Desde a campanha presidencial argentina de 2023, Milei e Bolsonaro estabeleceram uma relação política baseada na rejeição à esquerda e na defesa de uma agenda ultraliberal. Em 2024, o presidente argentino esteve no Brasil, mas não se reuniu com Lula. Preferiu participar de um encontro conservador ao lado de Jair Bolsonaro.
Em julho de 2026, porém, a relação ganhou uma dimensão inédita: Milei tornou-se um apoiador internacional declarado da candidatura de Flávio Bolsonaro. Na convenção do PL, sua presença foi utilizada como símbolo da articulação internacional da direita. Flávio também passou a exibir apoios estrangeiros como ativos eleitorais, em uma tentativa de apresentar sua candidatura como parte de uma onda conservadora latino-americana. A agência Reuters registrou que, além de Milei, a campanha de Flávio buscou destacar manifestações de apoio de outras lideranças estrangeiras de direita.
A atuação de Milei, entretanto, tem consequências que ultrapassam a campanha eleitoral. Argentina e Brasil são os dois maiores países da América do Sul e têm uma relação estratégica para o Mercosul, para o comércio regional e para a integração econômica do continente.
A deterioração dessa relação não é um problema pessoal entre dois presidentes. Quando um chefe de Estado estrangeiro transforma o presidente brasileiro em alvo de ataques e utiliza território brasileiro para apoiar publicamente um candidato à Presidência, a crise atinge a própria relação entre os Estados.
Os ataques de Milei contra Lula
A escalada verbal do presidente argentino foi contínua. Durante a campanha presidencial argentina, Milei já havia chamado Lula de “comunista” e “corrupto”. Depois de assumir a Presidência, manteve os ataques.
Em 25 de julho, durante a convenção do PL, chamou Lula de “presidiário”. Na sequência, voltou a atacar o presidente brasileiro em redes sociais. Em 2 de agosto, em entrevista à emissora argentina LN+, Milei novamente chamou Lula de “ladrão” e “corrupto” e afirmou que o presidente brasileiro “não é inocente”.
Ao tentar justificar os ataques, afirmou que “é muito menos grave chamar um ladrão de ladrão do que cometer o ato de roubar”. Também classificou suas declarações como “palavras espontâneas”.
O problema é que a agressão não ficou restrita à retórica. A repetição sistemática das acusações, combinada com a participação de Milei em um evento eleitoral brasileiro, levou a diplomacia brasileira a tratar o episódio como uma questão de Estado.
Lula, por sua vez, inicialmente evitou responder diretamente.“Quem é esse cara?”, ironizou. Depois, endureceu o discurso:
“Vocês viram aqui a patacoada que fez aqui o presidente da Argentina. Eu não falei nada, porque a minha relação é uma relação de chefe de Estado com o Estado. E eu gosto do povo argentino e não vou ficar trocando coisa com aquela coisa. E não adianta falar bravo, porque eu não vou ficar bravo. O cara fez cara feia eu faço cara bonita. O cara demonstra ódio eu demonstro amor”.
A crise diplomática chega a um ponto inédito
O rebaixamento das relações com a Argentina é um sinal particularmente grave. O governo brasileiro decidiu manter seu embaixador em Buenos Aires no Brasil enquanto Milei continuar atacando Lula e outras autoridades brasileiras. O representante argentino em Brasília, Daniel Raimondi, também não deverá permanecer no país na condição diplomática anterior.
A medida não significa rompimento das relações diplomáticas nem expulsão formal dos diplomatas. Mas representa uma deterioração significativa da relação entre dois países que historicamente formam o principal eixo político e econômico da integração sul-americana.
A gravidade é ainda maior porque o conflito acontece em um momento em que o Mercosul já enfrenta pressões políticas e econômicas e quando a América Latina vive uma disputa cada vez mais aberta entre diferentes projetos de integração regional.
A Argentina é o terceiro principal parceiro comercial do Brasil e um dos pilares históricos do Mercosul. O comércio bilateral envolve cadeias industriais, automóveis, máquinas, alimentos, energia e milhares de empregos nos dois países.
Transformar uma divergência política entre presidentes em crise de Estado coloca interesses econômicos concretos em risco.
Não é apenas uma briga entre presidentes
É importante separar a disputa política de seus efeitos institucionais. Brasil e Estados Unidos possuem relações econômicas, diplomáticas e estratégicas profundas. Brasil e Argentina compartilham fronteira, comércio, instituições regionais e uma história de cooperação construída durante décadas. Nenhum desses vínculos deveria estar subordinado às preferências eleitorais de presidentes estrangeiros.
Quando Washington impõe tarifas ao Brasil, o impacto não recai sobre Lula individualmente. Quando a Argentina degrada a relação diplomática com Brasília, as consequências não atingem apenas o presidente brasileiro. Quando uma crise comercial encarece ou dificulta as exportações, empresas e trabalhadores pagam a conta.
É justamente por isso que a denúncia brasileira de interferência eleitoral não pode ser tratada como simples retórica de campanha. A situação é agravada pelo fato de que os dois líderes estrangeiros compartilham uma visão política de extrema direita e mantêm relações estreitas com a família Bolsonaro.
Assim, a eleição brasileira de 2026 se transforma em palco de uma disputa que ultrapassa as fronteiras nacionais – ainda que não caiba a governos estrangeiros escolher quem deve governar o Brasil utilizando sanções econômicas, pressão diplomática ou palanques partidários para tentar influenciar o eleitor brasileiro.
A soberania nacional não significa isolamento. Ao contrário: pressupõe relações diplomáticas maduras, comércio internacional e diálogo permanente. Mas exige também que o Brasil possa decidir seu próprio futuro sem que governos estrangeiros utilizem sua força econômica ou seu prestígio político para pressionar o eleitorado.
O momento exige, portanto, mais do que respostas pontuais do Itamaraty. Exige que o país compreenda a dimensão da crise. A escolha de quem governará o Brasil deve ser feita pelos brasileiros – nas urnas, sem tarifa como chantagem, sem diplomata como instrumento de pressão e sem presidente estrangeiro transformado em cabo eleitoral de candidato nacional.