Do aplicativo à inteligência artificial: os novos caminhos do controle sobre o trabalho
Em Itapira/SP, o sociólogo Ricardo Antunes discutiu as transformações provocadas pelas plataformas digitais e pela inteligência artificial
Foto: Reprodução
Na quarta-feira, 5 de agosto, uma pergunta ocupou o plenário da Câmara Municipal de Itapira: qual será o futuro do trabalho quando parte crescente das decisões sobre quem trabalha, quanto trabalha e quanto recebe estiver nas mãos de sistemas que ninguém vê?
A pergunta foi lançada pelo sociólogo Ricardo Antunes, professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), durante a palestra “Trabalho em Plataformas e Inteligência Artificial: Qual o Futuro do Trabalho?”, promovida pela Escola do Legislativo. Antunes acompanha há décadas uma transformação que alterou não apenas os locais de trabalho, mas a própria maneira como o trabalhador passou a se relacionar com o emprego.
A cena mais conhecida dessa mudança cabe numa tela de celular. Um motorista abre o aplicativo, aceita uma corrida e parte. Um entregador recebe um pedido e atravessa a cidade. Alguém, em algum lugar, define o preço e acompanha o desempenho. O trabalhador não sabe exatamente quem está por trás dessas decisões nem tem a quem recorrer para questioná-las. O controle chega pelo celular, por meio de notificações e avaliações.
É nesse espaço entre a aparência de autonomia e a realidade da dependência que Antunes localiza o que chama de “privilégio da servidão”, expressão que também dá título a um de seus livros. O trabalhador de plataforma é apresentado como empreendedor, dono do próprio tempo, responsável pelo próprio negócio. Mas essa liberdade tem algumas condições: estar disponível, aceitar determinadas corridas, cumprir metas, manter boas avaliações e permanecer conectado.
O paradoxo interessa a Antunes porque mexe com uma ideia antiga do mundo do trabalho. Durante muito tempo, a luta dos trabalhadores foi também uma luta pela conquista de autonomia diante do patrão. Agora, observa o sociólogo, a autonomia aparece no discurso das próprias empresas como argumento para retirar direitos. O empregado desaparece do vocabulário, mas a subordinação permanece. A diferença é que ela ficou mais difícil de localizar.
O patrão que não precisa falar
Antunes chamou de “despotismo algorítmico” uma forma de controle que se tornou menos visível à medida que a tecnologia passou a ocupar o lugar de antigos mecanismos de vigilância. Não é preciso que alguém dê uma ordem direta ou cobre o trabalhador. O algoritmo interfere no ritmo do trabalho sem jamais se apresentar como autoridade. Uma corrida que deixa de aparecer ou uma remuneração que muda são decisões percebidas apenas pelos seus efeitos.
O poder, nesse caso, chega disfarçado de funcionamento automático. Parece fazer parte da própria lógica da plataforma, como se não houvesse uma escolha por trás daquilo que acontece na tela. O trabalhador conhece o resultado, mas raramente os critérios que o produziram. Quando tenta contestá-los, muitas vezes não encontra sequer alguém do outro lado.
É nesse ponto que a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a organizar a relação de trabalho, interferindo no acesso às tarefas e, consequentemente, na renda. O comando não desapareceu; apenas deixou de ter uma presença tão evidente. Essa é uma das contradições da chamada Indústria 4.0: os instrumentos se tornam mais sofisticados, mas a dependência do trabalho humano permanece. O que muda é a maneira como ele é administrado.
A financeirização do capital e a expansão das plataformas digitais colocaram o trabalhador dentro de sistemas que funcionam em uma escala muito maior que a do próprio local de trabalho. A atividade de um motorista ou de um entregador pode ser afetada por decisões tomadas a quilômetros de distância, em escritórios que ele provavelmente jamais conhecerá.
Uber, iFood e Amazon são exemplos visíveis de uma lógica que já ultrapassou o universo dos aplicativos. O que está em disputa é uma nova forma de organizar o trabalho, apoiada em tecnologias que prometem autonomia ao mesmo tempo que ampliam as possibilidades de controle.
Essa forma de controle também está no centro da disputa jurídica sobre o trabalho por aplicativos no Brasil. Motoristas e entregadores não têm, hoje, os mesmos direitos de um trabalhador contratado pela CLT. A discussão sobre a existência ou não de vínculo empregatício passa justamente por uma pergunta difícil de responder quando o chefe é um sistema: até que ponto um trabalhador pode ser considerado autônomo se não define o preço do próprio serviço, depende da distribuição das corridas e pode ter sua conta desativada pela plataforma?
O debate ganhou dimensão nacional com as discussões no Congresso e no Supremo Tribunal Federal. No Tema 1.291, o STF deverá analisar se a relação entre motoristas e plataformas configura vínculo de emprego. O julgamento interessa não apenas aos motoristas, mas ao modo como o país pretende enquadrar uma forma de trabalho que nasceu à margem das categorias tradicionais.
Enquanto a definição não chega, permanece uma situação peculiar. O trabalhador é chamado de parceiro ou empreendedor, mas não controla elementos que normalmente permitiriam que alguém fosse, de fato, dono do próprio negócio. Não estabelece o preço da corrida, não escolhe como a plataforma distribui a demanda e pode perder o acesso à principal fonte de renda sem que exista uma relação trabalhista formal.
A autonomia, nesse cenário, parece menos uma condição concreta do que uma palavra disputada. De um lado, as plataformas se apresentam como intermediárias tecnológicas. De outro, trabalhadores e pesquisadores apontam para uma forma de subordinação que não desapareceu com a tecnologia, apenas mudou de lugar. O problema não é apenas jurídico. Ele ajuda a revelar uma característica mais ampla do trabalho contemporâneo: a distância entre o discurso de liberdade e as condições reais em que essa liberdade pode ser exercida.
A inteligência artificial também precisa de trabalhadores
Quando a discussão chegou à inteligência artificial, Antunes chamou atenção para um aspecto que costuma ficar fora do debate. Fala-se muito sobre a capacidade das máquinas de substituir trabalhadores, mas pouco sobre o trabalho necessário para que elas aprendam a realizar aquilo que fazem.
Os sistemas de inteligência artificial generativa dependem de uma quantidade enorme de tarefas humanas. Há pessoas encarregadas de classificar informações, avaliar respostas e corrigir erros. Muitas dessas atividades são fragmentadas e realizadas de maneira pouco perceptível. É nesse universo que aparece o chamado microtrabalho.
Um exemplo recente vem da Índia. Trabalhadores passaram a receber para registrar, em vídeo, tarefas domésticas que poderão servir de treinamento para robôs. Com câmeras presas à cabeça e sensores de movimento, eles cortam frutas, dobram roupas, preparam alimentos e realizam outras atividades corriqueiras.
Uma das trabalhadoras ouvidas pela France Presse no início do ano relatou receber cerca de dois dólares por hora para gravar essas tarefas. Os vídeos são encaminhados a empresas que desenvolvem sistemas capazes de fazer com que robôs reconheçam movimentos e aprendam a reproduzir ações humanas.
A cena tem algo de estranho. Para ensinar uma máquina a cortar uma manga ou dobrar uma toalha, alguém precisa executar o movimento repetidas vezes diante de uma câmera. A promessa de automatização começa, portanto, com muito trabalho humano.
No Brasil, esse trabalho também tem um traço particular: ele é majoritariamente feminino. O estudo Fabricar os dados: o trabalho por trás da Inteligência Artificial, realizado pelo Laboratório de Trabalho, Plataformização e Saúde (LATRAPS), vinculado à Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), aponta que as mulheres representam 63% dos microtrabalhadores brasileiros. Em outros países pesquisados, os homens chegam a representar cerca de 70% dessa força de trabalho.
Não há um número preciso de brasileiros envolvidos nesse mercado, porque as plataformas raramente divulgam seus dados. Uma das exceções é a Microworkers, que informou ter cerca de 300 mil perfis brasileiros registrados em 2023.
A pesquisa ajuda a explicar por que esse tipo de ocupação encontra espaço no país. A informalidade e a instabilidade da renda empurram trabalhadores para atividades que prometem algum dinheiro sem exigir um vínculo formal. Entre as mulheres, porém, há outra questão: a dificuldade de conciliar o trabalho remunerado com as responsabilidades de cuidado.
Segundo o estudo, 73,7% das mulheres entrevistadas estavam desempregadas e 38,7% dependiam exclusivamente das plataformas. Mais de seis em cada dez eram mães ou responsáveis pelos cuidados de outras pessoas da família. Para parte delas, o trabalho digital aparece como uma possibilidade de ganhar dinheiro sem precisar sair de casa.
A flexibilidade, nesse caso, tem um preço. O trabalho pode ser realizado entre uma tarefa doméstica e outra, durante pequenos intervalos do dia. O tempo que antes não era considerado produtivo passa a ser ocupado por uma atividade que pode gerar alguma renda.
É uma mudança sutil. A plataforma não precisa determinar um horário fixo. Basta estar disponível quando surgir uma tarefa. A jornada deixa de ser uma faixa claramente delimitada do dia e se espalha pelos intervalos da vida cotidiana.
Em entrevista concedida à BBC News Brasil em 2025, Matheus Viana Braz, pesquisador e um dos autores do estudo Fabricar os dados: o trabalho por trás da Inteligência Artificial, chama atenção para esse aspecto. As mulheres tendem a acessar as plataformas várias vezes ao longo do dia, em períodos curtos, aproveitando os momentos entre uma atividade de cuidado e outra.
O resultado é um trabalho fragmentado, repetitivo e difícil de abandonar. Segundo Braz, entre as queixas aparecem o isolamento, a fadiga e a sensação de falta de sentido. A necessidade de permanecer conectada em busca de tarefas também pode produzir ansiedade e dificultar a separação entre tempo de trabalho e tempo de descanso.
Uma tecnologia apresentada como caminho para reduzir o esforço humano depende, em sua própria construção, de trabalhadores que executam tarefas pouco visíveis e pouco valorizadas. A máquina parece autônoma porque boa parte desse trabalho desaparece atrás dela.
Para Antunes, a inteligência artificial não significa simplesmente o fim do trabalho. Ela modifica sua distribuição e pode deslocar determinadas atividades para trabalhadores com menor poder de negociação. No caso brasileiro, também revela quem está disponível para ocupar esses espaços: uma parcela significativa de mulheres que já carrega uma jornada de cuidados e encontra nas plataformas uma alternativa diante da falta de outras oportunidades.
A discussão não pode se limitar aos empregos que poderão desaparecer. É preciso perguntar que trabalho permanecerá, quem terá acesso a ele e sob quais condições.
A resistência continua existindo
O diagnóstico de Antunes não termina em uma profecia de catástrofe. A tecnologia pode alterar profundamente a maneira como o trabalho é organizado, mas não elimina aquilo que existe antes dela: o conflito entre quem controla os meios de produção e quem precisa trabalhar para viver.
Os entregadores talvez sejam um dos exemplos mais claros dessa contradição. A plataforma os apresenta como trabalhadores independentes, cada um responsável pela própria jornada. Na prática, todos dependem de sistemas que distribuem as tarefas e estabelecem os valores pagos por elas.
Foi contra essa lógica que entregadores de aplicativos organizaram, em 2025, o “Breque Nacional dos Apps”, uma paralisação de dois dias que reuniu trabalhadores de centenas de cidades brasileiras. Entre as reivindicações estavam o aumento da taxa mínima para R$ 10 e do valor pago por quilômetro rodado, além de mudanças na remuneração das entregas agrupadas.
A pauta dizia respeito ao dinheiro, mas não apenas a ele. Havia também uma disputa pelo direito de participar das decisões que definem o próprio trabalho. Como argumentaram os organizadores do movimento, é difícil chamar alguém de autônomo quando essa pessoa não pode sequer estabelecer o preço pelo qual vende sua força de trabalho.
Durante uma audiência pública no Supremo Tribunal Federal, o entregador Nicolas Souza Santos resumiu a contradição ao questionar a ideia de autonomia oferecida pelas plataformas. Se o trabalhador não define quanto vale seu serviço, dizia ele, a liberdade prometida pelo aplicativo tem limites bastante concretos.
A mobilização também expôs outro aspecto dessa relação. Em paralisações anteriores, segundo os trabalhadores, plataformas ofereceram bônus para estimular a continuidade das entregas e houve denúncias de ameaças de bloqueio. A disputa não acontece apenas nas ruas. Ela também se trava dentro dos próprios aplicativos, onde a plataforma pode tentar influenciar a decisão de aderir ou não a uma greve.
Ainda assim, a experiência cotidiana produz uma percepção que o aplicativo não consegue controlar completamente. Quando trabalhadores percebem que enfrentam problemas semelhantes, a ideia de que cada um está sozinho começa a perder força.
A plataforma fragmenta o trabalho. A organização coletiva tenta reconstruir algum vínculo entre aqueles que ela mantém separados. É uma disputa que não se resolve apenas com tecnologia. A história do trabalho também é feita de movimentos capazes de transformar experiências individuais em reivindicações comuns. Sindicatos, greves e mobilizações continuam existindo porque a relação entre trabalhador e empresa não desaparece quando o patrão passa a operar por meio de uma tela.
Em 2025, o impasse chegou também às negociações institucionais. Um grupo de trabalho coordenado pelo Ministério do Trabalho e Emprego tentou aproximar plataformas e trabalhadores para discutir direitos básicos, proteção contra acidentes e melhores condições de trabalho. Depois de meses de reuniões, as empresas rejeitaram as demandas apresentadas pelos trabalhadores, e as negociações terminaram sem acordo.
Para Antunes, é justamente nesse terreno de conflito que o futuro permanece em aberto. Pensar o trabalho do amanhã exige mais do que imaginar máquinas cada vez mais inteligentes. É preciso perguntar quem controla essas máquinas, para que elas servem e o que acontece com aqueles que trabalham sob suas regras.
O algoritmo pode organizar o trabalho. Não pode, sozinho, determinar o que os trabalhadores farão diante dele.
A palestra completa está disponível no canal da Câmara Municipal de Itapira no YouTube.