A cidade que nasceu atrás da cerca
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A cidade que nasceu atrás da cerca

Em “Os Sem-Floresta”, quando a floresta vira condomínio, o muro deixa de separar apenas territórios e passa a definir quem pertence à cidade

Vanderlei Tenório 11 ago 2026, 08:50

Foto: Reprodução

No primeiro dia da primavera, depois de meses de hibernação, Verne acorda convencido de que o mundo permaneceu intacto durante o seu sono. Para uma tartaruga de hábitos metódicos, a natureza deveria seguir a ordem conhecida. Mas a floresta desapareceu.

Ou melhor, ela ainda está ali, mas deixou de ser exatamente uma floresta. No lugar onde antes havia árvores, caminhos improvisados e uma convivência caótica entre diferentes espécies, surgiu um bairro residencial. Uma enorme cerca viva separa os animais do novo território ocupado pelos humanos. Do outro lado do muro, há gramados aparados, casas padronizadas, piscinas, jardins cuidadosamente planejados e uma promessa de ordem.

É assim que começa Os Sem-Floresta, animação lançada em 2006 pela DreamWorks. O filme, aparentemente uma aventura infantil sobre animais tentando sobreviver à expansão urbana, funciona também como uma pequena fábula sobre um fenômeno cada vez mais presente nas cidades contemporâneas: a transformação do espaço urbano em territórios separados por barreiras físicas, sociais e simbólicas.

A história acompanha RJ, um guaxinim oportunista que, depois de destruir acidentalmente o estoque de comida de Vincent, um urso ameaçador, recebe uma missão impossível: recuperar tudo em uma semana ou enfrentar as consequências. Sem alternativas, ele encontra na recém-criada comunidade humana uma fonte inesgotável de alimento e convence os outros animais de que a solução para a escassez está do outro lado da cerca.

Mas a cerca simboliza algo que ultrapassa a simples divisão entre espécies. Ela representa a substituição da lógica da coexistência pela lógica da segregação. A floresta deixa de ser um espaço comum e passa a funcionar como um território administrado, no qual alguns têm o direito de ocupar e usufruir do ambiente, enquanto outros são deslocados para as margens e tratados como corpos estranhos à nova paisagem.

A animação exagera, como toda boa fábula deve fazer, mas não inventa completamente essa paisagem. As cidades reais também criaram as suas próprias cercas.

A promessa de viver longe da cidade

Durante muito tempo, viver na cidade significava partilhar o espaço com o diferente. Ruas, praças, mercados e transportes públicos funcionavam como pontos inevitáveis de encontro entre pessoas de origens, rendimentos e modos de vida distintos. A experiência urbana se construía justamente nessa convivência, feita de conflitos, negociações e da necessidade de compartilhar o mesmo espaço.

A diversidade, portanto, não era um elemento externo à cidade, mas uma dimensão inseparável da sua existência. Como argumenta o filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre em O Direito à Cidade (1968), o sentido do urbano está ligado à possibilidade do encontro, à presença simultânea dos diferentes e às relações sociais que surgem dessa convivência.

Esse encontro, porém, passou a ser cada vez mais percebido como um problema. Nas últimas décadas, especialmente diante do crescimento da violência urbana e da sensação generalizada de insegurança, ganhou força uma nova ideia de habitação: a possibilidade de construir pequenos mundos particulares dentro da própria cidade. Surgiram, assim, os condomínios fechados, vendidos como refúgios contra o caos urbano.

A publicidade imobiliária das décadas de 1980 e 1990, impulsionada por modelos como Alphaville, ajudou a consolidar esse imaginário. Os anúncios raramente apresentam apenas apartamentos, casas ou ruas internas; comercializam uma experiência, uma forma de vida protegida. Crianças brincando sem preocupação, famílias caminhando por áreas verdes e vizinhos supostamente semelhantes a partilhar espaços de lazer compõem uma representação cuidadosamente construída. A mensagem transmitida por esses empreendimentos é que a tranquilidade estaria dentro dos limites protegidos, enquanto o exterior aparece associado ao risco e à desordem.

É uma lógica semelhante à do bairro criado em Os Sem-Floresta. Atrás da cerca viva, os humanos acreditam ter construído um ambiente perfeito, livre das ameaças da floresta. O problema é que essa perfeição depende justamente da existência da barreira. O muro não elimina os problemas da cidade; apenas define quem pode permanecer protegido deles.

A invenção do lado de dentro e do lado de fora

Os espaços fechados não são uma novidade na história urbana. Desde o surgimento das primeiras cidades, por volta de 3500 a.C., na Mesopotâmia, o espaço urbano foi organizado a partir de divisões associadas ao poder, à riqueza, à religião, ao trabalho e ao estatuto social. Como observa Maria Encarnação Beltrão Sposito em Capitalismo e Urbanização (1998), essas diferenciações acompanham a própria formação das cidades. A particularidade do período contemporâneo está na transformação dessas separações em produtos comercializáveis, fazendo da segregação uma mercadoria.

O condomínio fechado não vende apenas uma moradia. Vende a ideia de que existe um lugar destinado àqueles que se identificam com determinado grupo social. Ao adquirir um imóvel, o morador compra também uma identidade construída pelo próprio empreendimento. O condomínio deixa de ser apenas uma forma de habitação e passa a funcionar como um marcador de distinção social, associado ao prestígio que promete e ao afastamento que estabelece em relação ao restante da cidade.

Em Os Sem-Floresta, essa lógica aparece de forma quase literal. Após a hibernação, Verne e os outros animais descobrem que a floresta onde viviam foi substituída por um conjunto habitacional protegido por uma enorme cerca viva. À primeira vista, a barreira parece apenas um recurso paisagístico, uma tentativa de integrar a ocupação humana ao ambiente natural.

Porém, por trás dessa aparência de harmonia, ela reorganiza a paisagem a partir de uma nova lógica de pertencimento, na qual alguns são reconhecidos como parte daquele território, enquanto outros passam a ser tratados como intrusos.

A ironia do filme está justamente nessa inversão. Os animais, antigos habitantes daquele lugar, tornam-se invasores numa paisagem reorganizada pelos humanos. A cerca deixa de ser apenas um elemento físico e assume um significado simbólico, revelando uma fronteira entre aqueles que podem permanecer e aqueles cuja presença passa a ser considerada inadequada.

A socióloga Teresa Caldeira chamou atenção para esse processo ao analisar as transformações das grandes cidades brasileiras. Em Cidade de Muros (2000), ela descreve o crescimento dos chamados “enclaves fortificados”, espaços privados, cercados e vigiados, criados para oferecer segurança, exclusividade e controle sobre a convivência social. Segundo Caldeira, esses empreendimentos modificam profundamente a relação dos cidadãos com o espaço urbano, valorizando os ambientes privados e reforçando a percepção das áreas públicas como lugares associados ao perigo e à insegurança.

O resultado é uma cidade fragmentada. Em vez de um espaço marcado pelo encontro entre diferentes grupos, formam-se territórios isolados, nos quais cada comunidade estabelece formas próprias de ocupação e proteção. A cidade deixa de ser uma experiência partilhada e passa a funcionar como uma sucessão de mundos separados. Como a floresta de Verne.

Ou, talvez, como muitas cidades contemporâneas, onde a promessa de segurança cresce na mesma medida em que diminuem as possibilidades de encontro. A enorme barreira que divide a floresta em Os Sem-Floresta não serve apenas para proteger quem está do lado de dentro; ela também existe para determinar quem deve permanecer do lado de fora.

O condomínio como uma ilha

Em Os Sem-Floresta, a cerca viva funciona como uma fronteira invisível. Ela não representa apenas uma separação física entre dois territórios, mas revela uma determinada concepção de cidade, na qual a convivência com o diferente dá lugar à criação de espaços protegidos e delimitados.

Os humanos do novo bairro parecem ignorar que a floresta existia antes da sua chegada. Para eles, a natureza deixa de ser um ambiente com dinâmica própria e transforma-se numa paisagem incorporada ao projeto residencial, pensada para oferecer conforto, previsibilidade e controle. As árvores permanecem, mas já não representam um espaço de liberdade ou imprevisibilidade; tornam-se parte de um cenário planejado segundo as necessidades de uma vida organizada e protegida.

Essa lógica aparece nos discursos que acompanham os condomínios fechados, frequentemente apresentados como uma espécie de retorno a uma comunidade perdida. A contradição é que essa comunidade só se torna possível a partir da separação. O condomínio promete proximidade entre os seus moradores, mas constrói essa convivência através da distância em relação ao restante da cidade.

A análise do sociólogo polonês Zygmunt Bauman em Comunidade: a busca por segurança no mundo atual (2001) ajuda a compreender essa contradição. Para o autor, a busca por proteção pode levar à criação de comunidades baseadas na semelhança e na exclusão, nas quais o sentimento de pertencimento depende da construção de fronteiras que afastam aqueles percebidos como diferentes ou ameaçadores.

A vida interna desses empreendimentos é organizada para reduzir o contato com a cidade. Há academias, piscinas, salões de festas, áreas verdes, espaços infantis e até pequenos centros comerciais, com o objetivo de oferecer ao morador uma estrutura completa sem que ele precise estabelecer relações frequentes com o espaço público.

O resultado é uma inversão da própria experiência urbana. A rua, que durante muito tempo foi um lugar de encontro entre diferentes grupos, passa a ser associada ao risco; a praça, antes entendida como espaço comum, transforma-se num território visto com desconfiança. Na tentativa de produzir segurança através do isolamento, esses modelos de ocupação acabam por reforçar a fragmentação da cidade que pretendem proteger.

A segurança que aumenta o medo

A principal justificativa para a expansão dos condomínios fechados é conhecida: a segurança. Muros altos, câmeras, controle de acesso, vigilância privada e equipamentos tecnológicos são apresentados como respostas à violência urbana, transformando o condomínio em uma espécie de fortaleza moderna.

No entanto, a proteção oferecida por esses espaços é, em grande medida, individual. Beneficia quem pode pagar por ela, mas não enfrenta as causas coletivas da insegurança. Ao estimular a retirada dos grupos com maior poder econômico das áreas públicas, pode contribuir também para o enfraquecimento desses lugares.

Como demonstra o geógrafo Roberto Lobato Corrêa em O Espaço Urbano (1989), a vitalidade de uma rua depende da maneira como ela é ocupada e dos usos que reúne. Uma via com comércio, movimento e circulação constante de pessoas tende a ser mais viva e segura. Já aquela cercada por grandes muros, com pouca atividade comercial e poucos pedestres, pode acabar se tornando um espaço vazio.

Essa é uma das contradições das cidades contemporâneas. Quanto mais pessoas procuram se proteger por meio do isolamento, mais o espaço coletivo pode perder vitalidade. O historiador e economista estadunidense Mike Davis examinou esse processo em Cidade de Quartzo (1990), ao mostrar como a obsessão pela segurança privada e pelo controle urbano pode aprofundar desigualdades e contribuir para o abandono das áreas públicas.

Em Os Sem-Floresta, a associação de moradores liderada por Gladys Sharp representa essa obsessão pelo controle. Ela não vê os animais como parte de um ecossistema alterado pela chegada dos humanos, mas como uma ameaça que precisa ser eliminada.

A solução encontrada não é compreender o problema, mas afastá-lo através de um exterminador. A floresta torna-se um inimigo, reforçando a metáfora central do filme. Quando determinados grupos sociais são vistos como ameaças permanentes, a resposta deixa de ser construir uma cidade mais justa e passa a ser criar barreiras.

O problema de uma cidade sem encontros

Em Os Sem-Floresta, a cerca aparece como uma solução simples para um problema que não é. Ela separa a floresta do bairro e estabelece, sem que ninguém pareça questionar essa divisão, quem pertence a cada lado. Para os moradores, parece suficiente. O que está fora pode ser mantido à distância.

Só que os animais continuam ali. A floresta também. A existência de uma barreira não altera o fato de que todos ocupam o mesmo território.

É uma imagem que ajuda a pensar a cidade. Os condomínios fechados prometem uma vida protegida das incertezas do lado de fora, mas não conseguem romper completamente com elas. Seus moradores continuam trabalhando na cidade, utilizando seus serviços e dependendo de uma rede de pessoas que atravessa diariamente os portões.

A diferença é que alguns podem escolher até onde desejam experimentar a cidade. Essa possibilidade tem um preço coletivo. Quando uma parcela da população abandona as ruas e concentra sua vida em espaços privados, o espaço público perde parte de sua importância. A cidade passa a ser vivida de maneira desigual. Para alguns, como lugar de encontro. Para outros, como caminho necessário entre a casa e o trabalho.

Não se trata de negar o medo da violência. Ele existe e transforma a maneira como as pessoas ocupam o espaço urbano. Mas existe uma diferença entre buscar proteção e aceitar que a separação seja o princípio que organiza a cidade.

Em Os Sem-Floresta, os animais só compreendem a dimensão do problema quando percebem que não estão diante de uma invasão qualquer. O que está em jogo é o direito de continuar naquele lugar.

Talvez a cidade esteja diante de uma questão parecida. Quem tem dinheiro pode comprar distância, mas não pode comprar uma cidade diferente. Pode escolher o condomínio, mas não pode deixar de fazer parte do território que existe além dele.

Os muros podem proteger propriedades, mas não resolvem aquilo que existe do lado de fora. A segurança privada pode afastar o medo por algum tempo, mas não substitui uma cidade capaz de oferecer condições dignas de vida para quem está dentro e para quem está fora.

No fim, a cerca não divide apenas dois espaços. Ela revela uma cidade que foi aprendendo a conviver menos consigo mesma. E talvez seja justamente nessa perda de convivência que esteja uma das faces mais silenciosas da desigualdade urbana.


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