Alcolumbre, a 6×1 e o petróleo na Amazônia
Os novos elementos da situação eleitoral após a reaproximação entre Lula e Davi Alcolumbre
Foto: Davi Alcolumbre. (JTC/Reprodução)
Após um início de campanha forte para Lula e fraco para o bolsonarismo, a reaproximação entre Lula e Davi Alcolumbre, se consolidou com o apoio de Alexandre de Moraes. Após o reencontro, Alcolumbre encaminhou propostas essenciais para o governo em comissões do Senado: o fim da escala 6×1, a PEC da Segurança Pública e a dos minerais críticos.
Tal movimento acontece depois de uma grande derrota de Lula, quando a indicação de Jorge Messias ao STF foi barrada através da operação direta do presidente do Senado. A demonstração de força de Alcolumbre o colocou em melhor posição de negociação com o governo, em uma dinâmica cujo desfecho momentâneo foi a aproximação de setor importante do Centrão à campanha lulista. A declaração de Kassab de que “o Centrão está com Lula”, mesmo que numa tentativa demagógica de se afastar do próprio Centrão, foi outra sinalização nítida deste movimento.
Além das tramitações no Congresso, a comprovação da viabilidade da exploração de petróleo na Amazônia e a viagem de Lula e Alcolumbre ao Amapá foram passos concretos nesse processo de benefício mútuo tanto para o candidato à presidência quanto para o senador amapaense. Isso se destaca mais perante o atual contexto internacional, no qual a agressão imperialista contra o Irã e o subsequente fechamento do estreito de Ormuz colocam para o mercado a urgência de novas origens e fluxos para a cadeia internacional do comércio de petróleo e gás.
Enquanto isso, o início da campanha de Flávio refletiu a crise do bolsonarismo, com eventos fracos tanto no lançamento em Copacabana quanto no comício com Nikolas Ferreira em Minas Gerais, onde a extrema direita tem dois palanques para o governo estadual e provavelmente vencerá as eleições. O escândalo da relação com Vorcaro continua marcando o candidato e a ausência de figuras como Michelle Bolsonaro e Silas Malafaia completa esse cenário, assim como a repercussão às risíveis tentativas de “popularização” da campanha, como as danças constrangedoras e a imagem de Flávio com uma sunga branca produzida por IA, entre muitas outras.
De forma alguma o aparente favoritismo atual de Lula é definidor da campanha, que terá um segundo turno polarizado e marcado também pelas investigações por tráfico de influência realizadas pela Polícia Federal sobre o filho de Lula e um de seus assessores mais importantes. Mesmo no escândalo do Bolsomaster, lideranças do PT baiano também figuram como protagonistas de investigações que podem influenciar o resultado final.
Escala 6×1
O avanço da tramitação do fim da escala 6×1 antes das eleições é muito importante. Entretanto, a aposta desse avanço prioritariamente pela via institucional também põe em risco seu próprio resultado na medida em que coloca o desfecho desta pauta, a mais importante demanda econômica da classe trabalhadora em décadas, nas mãos do establishment conservador. Uma campanha eleitoral na qual essa luta extremamente popular fosse impulsionada desde baixo, pelo chamado à mobilização, com certeza teria resultados muito mais contundentes, a exemplo do processo contra a PEC da Impunidade no ano passado.
A movimentação reflete a aposta geral da campanha. O esvaziamento da mobilização e a fuga de temas que permitiriam ampliar a radicalidade, como o anti-imperialismo e o antifascismo, são a marca da estratégia petista não só para as eleições, mas também para seus governos, e o discurso de Lula na Vila Euclides demonstrou isso de forma nítida. É uma postura deixa de lado o debate sobre perspectivas de futuro, algo ainda mais importante nesse período final da vida política do presidente.
Infelizmente, isso se combina com a aproximação política de parte da direção do movimento contra a escala 6×1 ao petismo. A ida quase certa da Revolução Solidária (tendência de Rick Azevedo no PSOL) ao PT reflete essa opção e coloca em risco o sucesso desta luta justamente pela aposta na institucionalidade citada acima. A esvaziada mobilização realizada recentemente em Brasília foi mais um indício desse perigo.
Isso não significa, por si só, que a luta contra a 6×1 será automaticamente escanteada na campanha. A enorme aderência popular à redução da jornada é um dos elementos que podem mobilizar concretamente amplos setores na eleição, não só como eleitores, mas como ativistas contra a extrema direita. Nessa situação, o papel das campanhas do PSOL (especialmente de sua ala esquerda) será fundamental para marcar um perfil atrelado à mobilização ao redor desta luta.
Petróleo na Amazônia?
A extração de petróleo na foz do rio Amazonas é outro tema que deixa de lado o debate sobre perspectivas de futuro. Em uma época na qual a emergência climática é algo sentido por toda a população, a aposta na ampliação da indústria de combustíveis fósseis vai no sentido contrário da construção de alternativas do pós-Lula.
E, para além do contexto geral, os problemas ambientais presentes na exploração da Margem Equatorial são outro elemento central. A resistência técnica do Ibama ao projeto – alvo de enorme pressão do governo – é uma indicação que se soma a várias outras sobre os riscos da exploração. O recente abaixo assinado de ambientalistas e intelectuais contra o plano reuniu os principais motivos científicos para questionar a medida. Especialmente entre os mais jovens, público do qual a campanha de Lula busca se aproximar, terá essa questão como central para a definição de voto.
Indo no sentido contrário, Lula declarou no Amapá que enfrentou “tudo e todos para defender” o projeto. Quem seriam estes todos? O Ibama, indígenas, ribeirinhos, ambientalistas, acadêmicos e outros setores mais conscientes da pauta ambiental. Uma afirmação que indica mais uma vez os limites da estratégia de conciliação petista.
Do ponto de vista regional, Alcolumbre se reforça com a narrativa falaciosa do “desenvolvimento” do Amapá. Clécio Luis, governador do estado, e o senador Randolfe Rodrigues (curiosamente dois ex-psolistas) também são parte dessa articulação pró-perfuração, visando os futuros royalties, a chegada da Transpetro e de outras estruturas que poderiam impulsionar a dinâmica capitalista local. Mas o fato é que, além do aprofundamento da crise climática e do perigo para a biodiversidade, existem diversos dados demonstrando também que a contrapartida social das petroleiras é ínfima perante seus enormes lucros. E mesmo a justificativa de geração de empregos também é parcial, já que a mão-de-obra necessária para a atividade é altamente especializada.
Ainda que o tema da soberania seja, obviamente, parte deste debate e que os efeitos fechamento do estreito de Ormuz sejam muito concretos, o real interesse na exploração tem a ver muito mais com as necessidades do mercado de petróleo e gás. A Petrobras teve um lucro líquido de R$ 52,4 bilhões no segundo trimestre de 2026, uma alta de quase 100% em relação ao mesmo período do ano anterior, distribuindo R$17,4 bilhões para acionistas públicos e privado, e esses números demonstram graficamente a quem interessa de fato ignorar os múltiplos riscos do drill, drill, drill na Amazônia.
Um cenário incerto
Mesmo nesse momento positivo para Lula, o cenário continua arriscado. As pesquisas de segundo turno indicam um empate técnico com leve vantagem lulista, uma margem muito curta para garantir resultados. Nas próximas semanas, as baterias do conjunto das candidaturas da direita e extrema direita se voltarão contra Lula com o apoio de parte da mídia.
Não temos a dimensão sobre qual será o impacto da ingerência imperialista e das big techs nas próximas semanas, da mesma forma como não sabemos os impactos de possíveis revelações sobre o entorno próximo de Lula nem como se combinarão com aquelas ao redor do PT baiano. Nesse sentido, a postura de Lula sobre o tema, sem colocar a mão no fogo sobre esses possíveis casos de corrupção, é muito mais consciente do que a da grande maioria de seus correligionários.
Eleger Lula é essencial tanto para derrotar a extrema direita como para construir uma alternativa socialista de massas para depois de outubro. Para o primeiro desafio, reforçar e ampliar sua campanha é a principal tarefa das próximas semanas, já para o segundo, é essencial também reforçar um perfil programático que dê respostas a estas contradições da conjuntura, não somente como um exercício intelectual, mas especialmente porque a tendência é termos cada vez mais espaço para disputar politicamente amplos setores do povo que buscar olhar para o futuro mais do que para o passado.