PCC no transporte expõe vínculos políticos em São Paulo
Investigação sobre infiltração do crime organizado em empresas de ônibus atinge Milton Leite, aliado de Nunes e Tarcísio, e coloca em xeque o discurso de combate às máfias no transporte público
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
“Metade das empresas de ônibus de São Paulo está sendo investigada por serem do crime organizado, do PCC. Essa é a situação que a gente tá vivendo [em São Paulo].”
A declaração da vereadora Luana Alves (PSOL) resume a dimensão política da operação que atingiu o transporte público da capital paulista e colocou no centro das investigações o ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil). Para a parlamentar, o caso expõe uma contradição entre o discurso de combate ao crime organizado adotado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) e as relações políticas mantidas com uma das principais lideranças do centrão paulistano.
Milton Leite é aliado de Nunes e mantém interlocução política com o governo Tarcísio. Em 30 de agosto, poucas semanas antes da operação, o governador participou do lançamento das candidaturas dos filhos do ex-vereador, Alexandre Leite e Milton Leite Filho. Questionado sobre a relação com Milton Leite após a deflagração da operação, Tarcísio afirmou que ela sempre foi “institucional”, definindo-a também como “um relacionamento propositivo, voltado a projetos”.
É justamente essa proximidade que Luana coloca sob questionamento:
“Todo mundo deve estar vendo a operação que aconteceu, tendo como alvo várias figuras políticas poderosíssimas aqui de São Paulo, inclusive o ex-presidente da Câmara de São Paulo, Milton Leite, que é aliado do governador Tarcísio, que é braço direito de grande parte do governo de São Paulo e também aliado do Ricardo Nunes.”
A vereadora chama atenção para o contraste entre essas alianças e a imagem construída pelo governo paulista em torno da segurança pública.
“Então, esse é o governo que diz que vai combater, que está combatendo o crime organizado. O governo do Tarcísio tenta passar uma imagem de ‘um cara da segurança pública que combate as máfias’, combate os crimes, mas olha a situação que a gente tá”, disse.
Investigação mira empresas de ônibus e suspeitas de lavagem de dinheiro
A Operação Vectura Corrupta, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil, investiga a suspeita de infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) em empresas de transporte coletivo e em estruturas do poder público.
Segundo a investigação, 12 das 22 empresas de ônibus que operam na capital estariam sob suspeita de terem algum tipo de relação com integrantes ou colaboradores da organização criminosa. A apuração envolve suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção, fraude em licitações e utilização do setor de transporte para movimentar recursos ilícitos.
A operação também alcançou figuras políticas e empresários ligados ao setor. Entre os alvos está Milton Leite, que teve a prisão temporária decretada por 30 dias.
A decisão judicial afirma que o ex-vereador é citado em diferentes momentos da investigação como possível responsável pela operação de empresas que estariam sob controle do PCC. O documento também menciona depoimentos de policiais militares que apontariam Leite como proprietário de fato da Transwolff, empresa que já havia sido investigada por suspeita de lavagem de dinheiro para a facção.
Milton Leite nega ser dono da Transwolff e qualquer relação com o PCC. A empresa também afirma que o político não possui participação societária, não participou da gestão e não deu ordens na companhia. Em declaração ao UOL, Leite afirmou:
“Não sou dono de empresa de ônibus e só assumi uma interlocução na SPTrans a pedido do Bruno Covas (ex-prefeito morto em 2021), por causa da greve de 2019. Não tem nada de ilegal. Vou me apresentar ainda hoje porque não devo nada”.
Até a manhã desta sexta-feira (18), porém, ele ainda não havia se apresentado à polícia.
Mensagens colocam Milton Leite no centro da investigação
A investigação chegou ao nome do ex-presidente da Câmara a partir de mensagens encontradas nos celulares de pessoas apontadas como integrantes ou colaboradoras do PCC.
Em um dos diálogos citados pela polícia, um suspeito afirma que seria necessário “envolver o Milton Leite para resolver a questão”. Em outro trecho, aparece uma preocupação em dar ciência a Leite sobre fatos envolvendo a UPBus.
Para os investigadores, as conversas indicariam que o ex-vereador poderia exercer influência sobre decisões estratégicas relacionadas ao sistema de transporte.
A decisão judicial também registra que Leite é mencionado como possível responsável pela operação de empresas investigadas. A acusação, entretanto, ainda está sendo apurada, e a defesa nega qualquer participação em esquema criminoso.
A relação com Nunes e Tarcísio
A proximidade política de Milton Leite com o prefeito Ricardo Nunes é conhecida. O União Brasil, partido comandado por Leite na capital, apoiou a candidatura de Nunes à reeleição em 2024, e o ex-presidente da Câmara teve papel importante na articulação política da gestão municipal.
Com Tarcísio, a relação também é política. O ex-vereador participa do campo de alianças que sustenta o governador na capital e, em agosto, o próprio Tarcísio participou de evento de campanha dos filhos de Leite.
Após a operação, entretanto, o governador procurou caracterizar a relação como institucional. “As operações não enxergam pessoas, não enxergam partidos, não enxergam posicionamentos políticos. Elas enxergam fatos”, afirmou Tarcísio.
A defesa política do governador é acompanhada de uma tentativa de separar a investigação criminal das alianças partidárias. O ponto levantado por Luana Alves é outro: se o governo estadual apresenta o combate ao crime organizado como uma de suas principais bandeiras, qual é o grau de responsabilidade política de seus aliados quando figuras próximas são atingidas por investigações dessa dimensão?
A vereadora também questiona o próprio modelo de transporte da capital.
“A cidade de São Paulo, tendo uma política pública tão importante quanto o transporte, que deveria estar a serviço da mobilidade das pessoas, de garantir mais igualdade, de garantir direito à cidade, está, na prática, servindo para interesses do crime organizado”, afirmou.
Crime organizado e poder público
O caso não representa a primeira investigação sobre a presença do PCC no transporte paulistano. A Transwolff, por exemplo, já havia sido alvo de uma operação em 2024, quando a Prefeitura de São Paulo interveio na empresa diante das suspeitas de utilização da companhia para lavagem de dinheiro.
A nova investigação amplia o alcance das suspeitas e coloca sob escrutínio um setor que movimenta bilhões de reais e depende diretamente de contratos, subsídios e fiscalização do poder público.
É justamente por isso que a questão ultrapassa a situação individual de Milton Leite. As investigações precisam esclarecer como empresas suspeitas de ligação com o crime organizado conseguiram operar dentro de um serviço público essencial, quais foram os mecanismos de fiscalização existentes e se houve participação ou conivência de agentes públicos.
Por enquanto, as suspeitas contra Milton Leite permanecem sob investigação e ele nega qualquer ligação com o PCC. O mesmo vale para os demais investigados, cuja eventual responsabilidade criminal ainda deverá ser estabelecida pelas autoridades.
Para Luana Alves, porém, o episódio já produz uma consequência política: coloca em xeque a narrativa de que a segurança pública pode ser tratada apenas pelo viés policial, enquanto as relações entre poder econômico, contratos públicos e grupos políticos permanecem intocadas.
“Essa situação que a gente tá mostra a hipocrisia da extrema-direita e do centrão. Estão juntinhos, que governam a cidade, o estado de São Paulo, a gente tem que se livrar disso”, afirma Luana.