Novo temporal expõe a urgência de prevenir desastres no RS
Enquanto milhares de gaúchos enfrentam novamente alagamentos, falta de energia e destruição, recursos federais destinados à prevenção ainda aguardam a execução de obras
Foto: Alina Souza/Correio do Povo
O Rio Grande do Sul voltou a enfrentar, nesta segunda-feira (21), uma situação de emergência climática. Temporais com ventos superiores a 100 km/h atingiram diferentes regiões do Estado, deixando quatro pessoas desaparecidas, 624 desalojadas e mais de 890 mil sem energia elétrica. Ao menos 64 municípios foram afetados, segundo levantamento divulgado pela imprensa. Em Farroupilha, na Serra Gaúcha, foram registrados 171 milímetros de chuva.
O episódio ocorre pouco mais de dois anos depois da enchente histórica de 2024, que atingiu 2,4 milhões de pessoas, matou 183 e provocou prejuízos estimados em R$ 88,9 bilhões. Um estudo publicado pelo WRI Brasil neste ano concluiu que a dimensão daquela tragédia não pode ser explicada apenas pelo volume excepcional de chuva: fatores relacionados à ocupação do território, desigualdade social, governança, falta de prevenção e negacionismo climático contribuíram para ampliar os danos.
É nesse contexto que ganha ainda mais relevância a cobrança feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao governador Eduardo Leite, há poucos dias. Em cerimônia realizada em 11 de setembro, Lula questionou publicamente a demora na execução de obras de prevenção financiadas com recursos federais destinados ao Rio Grande do Sul depois da tragédia de 2024.
O governo federal destinou cerca de R$ 6,5 bilhões ao Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos (FIRECE). Os recursos foram disponibilizados em dezembro de 2024 e têm entre seus objetivos justamente a recuperação da infraestrutura e a adaptação do Estado a eventos climáticos extremos. O plano prevê intervenções em 16 municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre e dos vales do Sinos e do Caí. Na ocasião, Lula demonstrou irritação com a demora na entrega das obras.
“Eu quero saber se essa culpa é da Caixa [Econômica Federal], se essa culpa é nossa, se é da cidade, se é do governo do estado, se é do prefeito”, disse o presidente.
O governador Eduardo Leite respondeu que a dimensão da enchente de 2024 obrigou à revisão dos projetos, porque os impactos teriam sido maiores do que os inicialmente previstos. Segundo o UOL, na ocasião foram liberados R$ 1,5 bilhão e assinados termos de aditamento para a execução dos projetos.
Prevenir não pode ser promessa para depois da próxima tragédia
A cobrança de Lula coloca no centro do debate uma questão que ultrapassa a disputa entre governos: quanto tempo um Estado que já sofreu uma das maiores catástrofes climáticas da história brasileira pode esperar para executar obras de prevenção? A resposta não pode ser dada somente depois que a água sobe.
O estudo do WRI Brasil é contundente ao apontar que desastres não são simplesmente acontecimentos naturais. O fenômeno climático extremo é o gatilho, mas sua transformação em tragédia de grandes proporções depende também das condições sociais, ambientais e institucionais existentes antes que a chuva caia.
Entre os fatores identificados pelos pesquisadores estão a ocupação de áreas de risco, a fragmentação da governança, a desigualdade social, a insuficiência de planejamento e a baixa cultura de prevenção. O trabalho também identifica o negacionismo climático e a desinformação como fatores que contribuem para a subestimação dos riscos.
Isso significa que reconstruir pontes, estradas e casas depois de uma enchente é necessário, mas insuficiente. É preciso investir em sistemas de alerta, planejamento urbano, proteção ambiental, drenagem, contenção de cheias, recuperação de matas ciliares, monitoramento meteorológico e estruturas de defesa capazes de funcionar antes – e não apenas depois – do desastre.
O negacionismo também produz vulnerabilidade
A discussão sobre mudanças climáticas segue atravessada por uma disputa política. No Brasil, setores da extrema direita e da direita já fizeram declarações questionando ou relativizando a origem humana do aquecimento global.
Em agosto deste ano, por exemplo, Flávio Bolsonaro negou, durante sabatina no Jornal Nacional, que o aquecimento global tenha origem humana. O UOL Confere classificou a afirmação como incompatível com o consenso científico sobre a influência das atividades humanas no aquecimento do planeta.
Durante o governo Jair Bolsonaro, declarações semelhantes foram feitas por integrantes do governo. O então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles chegou a classificar a mudança climática como um “assunto acadêmico controverso”, enquanto o ex-chanceler Ernesto Araújo negava a existência de uma crise climática. Registros dessas declarações constam inclusive de documentos oficiais do Congresso.
Mas o problema não se limita àqueles que negam explicitamente o aquecimento global. Existe também uma forma mais silenciosa de negacionismo: reconhecer a existência das mudanças climáticas, mas não transformar esse reconhecimento em prioridade de governo. É nesse ponto que o caso gaúcho se torna emblemático.
Em 2024, Eduardo Leite afirmou que não havia cometido erros por “negligência, omissão ou negacionismo” e declarou ser favorável à ciência. Ao mesmo tempo, seu governo foi criticado por ambientalistas e especialistas pelas mudanças promovidas na legislação ambiental. Em 2020, foram alterados 480 pontos do Código Ambiental gaúcho. Reportagem do UOL também registrou críticas de especialistas às mudanças e ao aumento do desmatamento no Estado durante a gestão. O governo estadual contestou a interpretação de que as alterações teriam enfraquecido a proteção ambiental ou contribuído para os danos das enchentes.
Portanto, a discussão não deveria ser reduzida a uma disputa sobre quem acredita ou não acredita na crise climática. A questão concreta é o que os governos fazem diante de um fenômeno cuja existência e agravamento são amplamente reconhecidos pela ciência.
A conta da emergência climática chega primeiro aos mais pobres
Os efeitos dos temporais também expõem outra dimensão da crise: a desigualdade.Quem mora em áreas sujeitas a alagamentos, depende do transporte público, vive em regiões sem infraestrutura adequada ou trabalha em atividades diretamente afetadas pelo clima possui menos condições de se proteger e reconstruir a própria vida depois de um desastre.
O WRI Brasil aponta justamente a desigualdade socioeconômica como um dos elementos que ampliam a vulnerabilidade diante de eventos extremos. Para os pesquisadores, enfrentar o problema exige incorporar a justiça climática às políticas de adaptação.
Por isso, a nova tempestade que atinge o Rio Grande do Sul não deveria ser encarada apenas como mais um episódio de mau tempo.
Ela é também um lembrete de que a emergência climática exige Estado presente, planejamento de longo prazo e dinheiro público aplicado em prevenção. Os R$ 6,5 bilhões destinados pelo governo federal ao Estado representam uma parcela importante desse esforço. A população gaúcha tem o direito de saber quanto já foi efetivamente aplicado, quais obras foram concluídas, quais estão em andamento e por que outras ainda não saíram do papel.
Depois da tragédia de 2024, o Rio Grande do Sul recebeu uma demonstração dolorosa de que esperar o desastre acontecer para agir custa caro – em dinheiro, infraestrutura e, sobretudo, em vidas.