Tsunami contra Trump!
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Tsunami contra Trump!

Há uma virada na consciência para uma esquerda mais radical e autêntica, que reflete a possibilidade de um novo debate de programa e estratégia, nos marcos da unidade antifascista

Israel Dutra 6 nov 2026, 19:41

Foto: Candidata ao Congresso Darializa Avila Chevalier, apoiada pelo DSA, durante comicio em Nova York. (Michael M. Santiago/GI)

Dias que valem por meses, semanas que valem por anos. Essa máxima pode ser ilustrada se observarmos a manifestação de Flávio Bolsonaro na avenida Paulista, entre o primeiro e segundo turnos. Naquela ocasião, líder nas pesquisas, o miliciano já desenhava como seria seu governo, dando amostras de até onde iria seu autoritarismo e subordinação a Trump. Bandeiras dos Estados Unidos, de Israel, bonés MAGA e até um míssil pedindo para Trump bombardear o Brasil serviram de agitação para legião de seus apoiadores. Semanas depois, Flávio foi derrotado de forma contundente pelo povo nas urnas e nas ruas, se transformou num fugitivo internacional e seu mentor e aliado Donald Trump acaba de receber uma verdadeira “surra” eleitoral nos Estados Unidos. O vento está soprando noutra direção.

O que separa no tempo e no espaço essas duas realidades: um verdadeiro tsunami antifascista.

A impressionante virada de Lula, apoiado nas ruas e nas redes, representou uma mudança de etapa política no Brasil. Entretanto, mais que isso, foi um ponto de inflexão e um símbolo para o mundo. A derrota que Trump acaba de sofrer nas eleições de midterms soma nesse vetor.

A extrema direita, contudo, segue sendo uma força relevante, central na realidade política mundial, com capacidade e iniciativa, pelo que tem entre setores de massa. O novo é o sentimento que se generaliza de que ele é não imparável nem invencível.

O que devemos precisar, além de celebrar, é o alcance dos efeitos da derrota de Trump, certamente o fato político mais relevante dos últimos tempos diante da situação mundial. Estamos entrando em uma nova fase da situação política internacional.

Nessa nova fase, contudo, o que marca é a agudização da polarização. A extrema direita segue forte e presente. Governa países e cresce eleitoralmente em várias partes do mundo. Tendo sido suas derrotas no terreno eleitoral, a última palavra não foi dada. A luta vai seguir.

Um revés histórico para o projeto trumpista

A eleição estadunidense foi um plebiscito de alcance mundial a respeito da gestão Trump e sua visão de mundo. A vitória dos Democratas se insere nesse contexto, como ilustra Dan La Botz:

O Partido Democrata conquistou uma vitória espetacular e histórica nas eleições de meio de mandato, impondo uma derrota esmagadora ao presidente Donald Trump e aos republicanos. Os democratas conquistaram o controle tanto da Câmara dos Representantes quanto do Senado, venceram disputas para governos estaduais e conquistaram cadeiras no Senado ou governos estaduais em estados do Sul e do Meio-Oeste que até então eram republicanos, como Texas, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Ohio e Kansas, redesenhando o mapa político do país. Em Michigan, o democrata progressista Dr. Abdul El-Sayed, a quem Trump e os republicanos haviam chamado de jihadista e terrorista, derrotou facilmente o republicano Mike Rogers.

O eleitorado deslocou-se 13 pontos percentuais à esquerda. Como muitos disseram, não foi simplesmente uma onda azul, mas um verdadeiro tsunami azul.

A derrota Republicana foi muito forte. A maioria do Senado e da Câmara passaram para as mãos da oposição democrata, causando inclusive fissuras na base MAGA. Nem os mais otimistas do campo Democrata previam uma vitória nesses termos: agora o Senado conta com 55 a 44 para a oposição, a Câmara dos Representantes tem uma margem ainda maior: 253 a 157.

Abatido moralmente, Trump responsabilizou sua derrota militar no Irã como pano de fundo de sua derrota eleitoral. Sua popularidade é a mais baixa de um presidente em muitos anos, beirando somente os 30% de aprovação popular.

A vitória eleitoral Democrata é baseada na luta democrática, em especial de latinos e imigrantes, contra o ICE, dando um salto na resistência anti Trump e contagiando o conjunto da sociedade dos Estados Unidos.

Valeria a definição que a derrota eleitoral é subproduto da fórmula “Minneapolis + Ormuz”, ou seja, Trump teve um revés dentro do movimento de massas em Minneapolis com a mobilização na cidade que expulsou e expôs o ICE, combinada com a vitória militar do Irã diante da agressão estadunidense.

As repercussões da derrota de Trump são múltiplas e intensas: o anúncio do corte do financiamento de 4 bilhões para o Estado de Israel, antes mesmo das urnas fecharem. Mesmo o governo sionista passa por uma crise, visto que Netanyahu foi derrotado nas urnas, em que pese a própria natureza colonial do regime sionista não possa ser alterada.

Ainda no terreno da política central, Marco Rubio e Pete Hegseth, figuras de proa do trumpismo, estão questionados e podem sair ou romper com o governo a qualquer momento.

As mudanças em curso no mundo

O processo mundial de radicalização tem diferentes ritmos e fenômenos. Depois da derrota de Flávio e Trump, o que há de mais vigoroso no mundo é o ascenso europeu, ainda em seus estágios iniciais. Um processo desigual, mas que combina a viragem à esquerda da geração Z, secundaristas e universitários, com a incipiente aliança com a classe trabalhadora, no caso das greves gerais da França de ontem (5 de novembro), do Estado Espanhol (marcada para o 11 de novembro) e da Itália (a greve organizada a partir de portuários em 30 de outubro e convocada para 20 de novembro). Esse processo não para por aí.

Destacamos também os acampamentos nas praças em Portugal, as mobilizações da juventude nas principais cidades da Alemanha, as greves e paralisações na Bélgica e Grécia, o levante popular e juvenil na Albânia e a vitória eleitoral da chapa dos “estudantes na rua” na Sérvia.

Esse ascenso está nos marcos de que a extrema direita não está diminuindo, mas sim apostando em dobrar a aposta e a polarização. Os partidos que vocalizam esse programa querem crescer nas eleições, diante da crise das democracia liberais e colocar em xeque direitos, se apoiando nos elementos mais atrasados da consciência como o ódio aos imigrantes, vide a crise de Ceuta.

Em outras partes do mundo, a conexão da geração Z se dá através de rebeliões e mobilizações, sem tanta nitidez programática. A vitória do “partido dos baratas” na Índia, que teve um forte apelo entre a juventude ao derrubar o ministro da educação, foi só o prelúdio do que pode vir pela frente, visto que Bangladesh começa a se agitar novamente, apenas citando a região mais populosa do planeta.

Sem esgotar uma análise mais geral que mereceria uma leitura mais extensa, vale citar que a disputa na América Latina terá importantes mudanças, visto o engajamento de Milei na fuga de Flávio. A iniciativa “Escudo das Américas” se enfraquece. De imediato, o processo de lutas se reorganiza na Bolívia e a surpreendente queda do presidente paraguaio, Santiago Peña, debilita ainda mais o projeto da extrema direita, dada sua relação carnal com o capital financeiro e com o trumpismo. Os olhos se voltam para a Argentina, com o projeto de Milei cada vez mais questionado, com a recessão econômica batendo as portas e a chance do movimento popular derrotá-lo.

A saída é pela esquerda: O começo de um novo movimento histórico socialista

Uma das grandes dificuldades do período é que, se a extrema direita e o trumpismo tem uma alternativa de poder, felizmente cada vez mais questionada, os trabalhadores e a juventude ainda não têm resolvido esse problema. As alternativas à extrema direita ainda estão no terreno da democracia liberal, do chamado “progressismo” e dos partidos social-democratas em crise, como apontou muito bem Luciana Genro:

Existe, assim, um impasse estratégico: a dominação burguesa enfrenta dificuldades crescentes para produzir estabilidade e legitimidade, mas a classe trabalhadora ainda não conseguiu construir uma alternativa política capaz de superar esse sistema.

Em muitos momentos, a insatisfação popular manifesta-se de forma predominantemente negativa: contra determinado governo, partido ou instituição. Derrubar quem governa, entretanto, não é o mesmo que construir uma nova ordem social.

Nesse terreno, contudo, também temos “boas notícias”. Há uma viragem na consciência para uma esquerda mais radical e autêntica, que reflete a possibilidade de um novo debate de programa e estratégia, nos marcos da unidade antifascista.

Os bons resultados do DSA nos Estados Unidos indicam essa radicalização. Essa “ala socialista” elegeu 7 deputados federais e a nova prefeita de Los Angeles, mostrando a complexidade da oposição Democrata, como aponta Pedro S. É um fenômeno objetivo, que expressa que 45% da juventude nos Estados Unidos busca uma “saída socialista”, ainda que esse socialismo seja indeterminado e o que o próprio DSA seja uma expressão política que pode ser considerada “centrista”. Mas é muito progressivo que, no coração do capitalismo tais tendências estejam se expressando. O próximo passo seria a hipótese de uma futura candidatura presidencial de Alexandra Ocasio Cortez.

Esse mesmo fenômeno, de busca difusa por alternativas de esquerda mais radicais, volta a ter lugar na “remontada” do Die Linke alemão, nas esquerdas soberanistas do Estado Espanhol, nas intenções de voto da Frente de Esquerda e em Myriam Bregman na Argentina.

A maré está virando

Para pensar na “nossa casa”, o fenômeno de simpatia e procura pelo PSOL, aqui no Brasil, não pode ser separado dessa tendência internacional. Durante e depois das eleições, muitos militantes buscaram se filiar ao partido como parte de um processo de reconhecimento do papel do PSOL na unidade antifascista, mas especialmente porque a luta eleitoral contra a extrema direita deu um sentido de urgência que mobilizou multidões não só para essa luta, mas também as próximas que virão.

Nesse sentido, as tarefas colocadas para o PSOL se ampliam e também cresce nossa responsabilidade. A vigilância e unidade permanente contra o fascismo em todas as frentes – na luta institucional, na juventude, nos sindicatos, movimentos sociais e no conjunto da população – deve ser combinada com a afirmação de um programa abertamente anticapitalista que enfrente os ataques à classe trabalhadora e aos setores oprimidos sem vacilação. As combativas novas bancadas eleitas pelo PSOL estarão à frente desse processo assim como nossos núcleos e frentes de atuação.

Nosso partido tem condições de representar esse polo crítico anticapitalista, lutando contra a austeridade do arcabouço fiscal, contra os juros abusivos e os mecanismos da dívida pública que estrangulam a nação para gerar renda aos grandes investidores. Na defesa dos serviços públicos com financiamento público que permita o atendimento digno da população e contra os inúmeros ataques aos biomas e seus principais defensores, os povos originários, promovidos pelos mesmos grupos capitalistas que roubam os recursos do país.

Encaramos esse novo momento a partir das oportunidades que abre, buscando construir um PSOL cada vez mais útil como ferramenta para a luta anticapitalista independente, fora da participação em governos, e buscamos novos alinhamentos como parte desse processo de reorganização que está a pleno vapor. Vamos por mais!


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Israel Dutra | 06 nov 2026

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