Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

ARQUIVO: Das redes e ruas, a passagem para a luta política

Texto publicado horas antes de ato que marcaria a história recente da cidade de São Paulo expressa o sentimento da juventude que parou o país.

No começo de junho, a população começava a transformar o país - Reprodução
No começo de junho, a população começava a transformar o país - Reprodução

“Eu nunca tinha votado no PT em São Paulo, mas, depois dessa sujeira do Haddad com a passagem, não voto mais”. “Acho que tem que protestar mesmo! Se todo mundo fizesse isso no palácio, fosse pra Brasília, queria ver se o salário da gente não aumentava também”. Assim conversavam dois homens no metrô de São Paulo, entupido como de costume, às 19 horas. O assunto seguiu: do aumento das passagens ao óbvio inferno diário cuja amostra tínhamos naquele vagão da linha vermelha; da onda de violência dos últimos meses à falência da política de segurança estadual. “Também esse Alckmin não dá”, continuava o outro.

Diálogos como este, na última semana, têm sido comuns em São Paulo. Nos ônibus, trens, metrô, em casa, no trabalho e com a família, é impossível não se envolver no debate sobre o aumento das tarifas de ônibus e metrô na cidade. A sensação, comum a muitos, é de que a situação passou do limite. Ninguém aguenta mais o péssimo serviço de transporte, a asfixiante dinâmica urbana e a imposição do aumento pelos governos sem nenhuma consulta, transparência sobre os gastos do sistema ou garantia de melhora.

A última eleição municipal mostrou que a população paulistana não suporta mais o paraíso dos lucros para as empresas em que a cidade se transformou, cuja contrapartida são os péssimos serviços públicos e o massacre diário a que a população está submetida. Pouco tempo depois, no entanto, muitos parecem já ter feito sua experiência com a gestão de Haddad e do PT: até agora, de “novo”, só o acordo celebrado com Alckmin e o PSDB para aumentarem ao mesmo tempo as tarifas e minimizarem os efeitos eleitorais da medida.

Os primeiros raios no horizonte de uma nova situação política no país

A reação do movimento foi imediata. Em uma semana, três grandes atos reuniram milhares de pessoas. Envolvendo especialmente a juventude, o questionamento do aumento revela muito mais. Esgotou-se, no Brasil, um modelo de estabilidade política e econômica garantidor de enormes lucros para o sistema financeiro e as grandes corporações e pequenas concessões, muito parciais, a alguns setores do movimento de massas, numa amálgama comandada pela lógica da “governabilidade”, cujos sinônimos todos aprenderam com o mensalão ou com a venda de uma série de bandeiras e direitos a figuras como Marco Feliciano, Renan Calheiros, Katia Abreu ou José Sarney.

É que a crise econômica retorna ao país como um fantasma não exorcizado pelos tempos da “marolinha”. Agonia do lulismo: o crescimento medíocre de 2012, o descontrole com a inflação e as disputas entre frações da burguesia com o avizinhar-se da próxima eleição trazem à tona uma agenda de ajustes promovida pelo governo Dilma. A receita é conhecida: privatização dos portos e aeroportos, novas rodadas de leilões do petróleo e cortes nas áreas sociais. Para assegurar o controle e acalmar os mercados, o recado é claro: muita repressão. Foi assim que o governo decidiu calar as reivindicações dos indígenas, atacando o direito às demarcações em conluio com o agronegócio, e recorrendo às balas para matar o jovem Oziel Gabriel, terena do Mato Grosso do Sul, em recente conflito.

Daí o receio que os governos federal, estaduais e municipais manifestam, unidos, sobre as jornadas de atos contra o aumento das passagens. A novidade está no horizonte: mobilizar-se é cada vez mais uma necessidade e vencer é possível. Os exemplos vêm de fora e de dentro. Somos uma geração que cresceu educada para a apatia, mas que tem despertado para a participação inspirada pelo rejuvenescimento da palavra “revolução” a que assistimos ao vivo na Tunísia, no Egito, na Líbia e na dura luta do povo sírio. Somos uma geração que deu um passo à frente e derrotou o aumento das passagens em capitais do país, como Porto Alegre, Goiânia e Teresina. Sentimos diariamente a dimensão eminentemente urbana da crise e nos inspiramos nos enfrentamentos do povo turco, que foram do rechaço à privatização de uma área pública a um grande questionamento do governo Erdogan.

A nacionalização da luta contra o aumento das passagens é o sinal de uma nova situação no país. A juventude não aceita o ajuste dos governos e não está disposta a pagar pela manutenção dos lucros das grandes empresas. O imediato é derrotar, em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades, o aumento. Mas há algo mais profundo: o desejo de romper com a política falida das negociatas dos velhos partidos, cada vez mais assemelhados em programa e perfil, cuja disputa é apenas para ver quem leva a maior fatia do bolo. Definitivamente, não passa pelos governos Alckmin e Haddad o aumento dos nossos direitos: tarifa zero no transporte, defesa dos espaços públicos e garantia de equipamentos decentes de educação, saúde, lazer e cultura.

A repressão endurece: quem são os “vândalos”?

Está se comprovando, na verdade, que as mudanças que queremos passam por derrotar os governos do PT e do PSDB. E eles sabem disso. Para garantir os lucros das empresas de transporte, que prestam um péssimo serviço para a população, lançam mão de uma repressão brutal: a Polícia Militar tem impedido que as manifestações possam começar e terminar. A estratégia é consciente: desrespeitar o direito de manifestação, agredir com bombas e tiros, prender e acirrar os ânimos para fabricar as manchetes. Assim, em vez de sermos noticiados de que os atos saltaram de 3 a 5 mil e depois a 10 mil pessoas em apenas uma semana, vemos uma sucessão de manchetes alardeando o “vandalismo” e a “baderna”. Querem trazer medo aos que possam se somar à luta e desacreditar as reivindicações.

Infelizmente, os governos têm contado, para isso, com o auxílio de um setor minoritário, aliás muito minoritário, que participa das marchas e opta por ações isoladas e individualistas. São uma minoria de céticos, que não confiam na ação coletiva e na força do movimento e preferem lançar mão de um suposto radicalismo que na verdade vira às costas a milhões de paulistanos que não toleram o aumento e a péssima qualidade dos transportes, mas não aceitam participar de um movimento que se reduza ao enfrentamento pelo enfrentamento. Nossa via, ao contrário, é a via dos milhares que não aceitam a repressão dos governos e seguem nas ruas, debatendo, gritando, agitando suas faixas, cantando. Nós estamos convencidos de que nossa vitória passa por conquistar maioria social. E acreditamos que podemos alcançá-la.

O que a imprensa não diz, na verdade, é que o verdadeiro vandalismo é a imposição antidemocrática de um aumento para o qual Haddad e Alckmin simplesmente escolheram a data. Não o debateram com ninguém nem se esforçaram para justificá-lo. Querem fazer com que o aumento pareça “natural”. O motivo é óbvio: para que alguns sigam ganhando, a maioria tem que perder. A verdadeira baderna é calar manifestações democráticas ao som dos tiros e das bombas. As declarações de José Eduardo Cardozo, ministro petista da Justiça, vão além: agora o governo Dilma decidiu acionar a Polícia Federal para “investigar” e punir os manifestantes.

Imprensa, empresários do transporte, governos, PT e PSDB unidos contra o povo
Se a nossa conclusão é de que precisamos estar juntos para vencer, também o outro lado cerrou fileiras numa impressionante coalizão para garantir os interesses da burguesia – sim, é disso que se trata –, acalmar os mercados e tentar manter a estabilidade. Frente à queda das bolsas e o descontrole cambial, às vésperas da Copa das Confederações, tudo o que o governo não quer é dar sinais de fraqueza e instabilidade com várias capitais do país convulsionadas. O problema não está mais na escala dos centavos, mas dos bilhões.

Por isso, nos últimos dias, eles mobilizaram seu “partido” mais influente: a imprensa. As televisões, Globo como sempre à frente, e os velhos jornalões repetem em uníssono que se trata de um movimento desprezível e minoritário, um “grupinho de criminosos”, como definiu Alckmin pautando boa parte da mídia nacional. Como bonecos de ventríloquos, estes “jornalistas” emprestam a voz aos empresários dos transportes, a Haddad, Alckmin e aos velhos partidos, todos trabalhando pelos interesses do sistema financeiro e das corporações. É precisamente por isto que na Europa os movimentos “indignados” têm feito um chamado a derrotar a “ditadura dos mercados” que se mostrou a verdadeira face da democracia liberal em tempos de crise. A este chamado, nós também dizemos presente!

Conquistar maioria social e ir à luta política: a passagem que precisamos para derrotar o aumento!

Hoje, 13 de junho, milhares de jovens ocuparão as ruas de cidades de todo o país. Serão muitos e serão diversos: trabalhadores, estudantes, mulheres, negros, LGBTs, organizados em coletivos ou não, poetas, ciclistas, cantores. Levarão faixas, vozes, baterias, skates ou só a indignação. Juntos, no entanto, abrem as portas dos novos tempos no Brasil. Procuram, mesmo que ainda tateantes, uma alternativa política à intransigência dos governos, à repressão da polícia e ao lucro das empresas. É nosso dever construí-la.

Texto publicado às 11h49 do dia 13 de junho de 2013 no portal juntos.org.br

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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