Bolsonaro e o novo coronavírus: o oboé da sinfonia desafinada da extrema-direita
Bolsonaro no último desfile de 7 de setembro - Fabio Rodrigues Pozzebom/Agênci

Bolsonaro e o novo coronavírus: o oboé da sinfonia desafinada da extrema-direita

Sua atuação é a mais criminosa do mundo e contra ele estamos no front da guerra.

Bernardo Corrêa e Fernanda Melchionna 18 abr 2020, 14:17

A estrutura narrativa deste texto merece um pedido de perdão, pois organizamos a exposição de argumentos de forma análoga à Quinta Sinfonia do grande mestre Beethowen. Usar a estrutura de talvez a maior obra-prima da história da música clássica para falar de crueldade, ignorância e incompetência que marca a extrema-direita mundial e, em especial de Bolsonaro, pode ser visto como um sacrilégio, mas tem certa lógica se compreendida em seu contexto.

No mistério do universo musical, tons maiores são alegres e tons menores são tristes. A Quinta Sinfonia foi composta em um momento difícil da vida de Beethoven e sua surdez se acentuava. Provavelmente por isso tenha composto, pela primeira vez em sua obra, uma Sinfonia em tom menor. Nos parece interessante “compor em tons menores” este texto, pois o momento é grave, mas acreditamos que o mundo em que estamos, apesar de triste, irá revolucionar sua existência após a pandemia, e o que se faz hoje determina as condições de construir um novo futuro que não seja o passado com outro nome.

No primeiro movimento da Quinta Sinfonia, o “pam pam pam paaaam” representa o destino batendo à porta, o dilema da mudança. Já no segundo movimento, predomina uma melodia triste, porém, muito bonita, refletindo as desilusões do autor e, por outro lado, seu otimismo. Nos movimentos finais, terceiro e quarto, há uma orquestração solene, representando a esperança de novos rumos que a vida podia tomar. Entretanto, não há um gran finale e a tensão do início volta ao final, deixando em aberto o próprio destino.

Na Sinfonia desafinada da extrema-direita, que tem Trump como seu primeiro violino, Bolsonaro é análogo a um oboé, que desafina toda a orquestra e emite sons insuportáveis quanto mais se pronuncia fora do tom. Sua atuação é, sem dúvida, a mais criminosa do mundo e contra ele estamos no front da guerra.

Destino à porta

Quando Bolsonaro foi eleito, circulava nas redes sociais brasileiras um ‘meme’ que dizia que o povo brasileiro havia agido como uma criança que coloca os dedos na tomada. Ela até suspeita que pode tomar um choque, no entanto, paga para ver. Agora, em uma crise grave e muito mais ampla, o choque pode ser mais duro que o imaginado. Entretanto o isolamento político de Bolsonaro e a divisão da burguesia abre um cenário de mudanças rápidas e novas possibilidades.

O Estado de desrepresentação no Brasil não começou nas eleições de 2018, mas cinco anos antes, nas Jornadas de Junho de 2013. Ali realmente o destino bateu à porta e a mudança pediu passagem. Apesar de nossos esforços, a ausência de um programa e de um partido que pudesse realmente representar a insatisfação somada à repressão policial, fez com que o movimento fosse derrotado. Dois anos depois, a derrota deu lugar a seu simulacro: marchas da direita pelo impeachment de Dilma que deram o substrato social (especialmente entre as camadas média e altas, mas não só) para o golpe parlamentar de 2016 e para as redes de fake news bolsonaristas. A sessão do Congresso Nacional que tirou Dilma do poder, nesse momento com apenas 6% de apoio popular, foi presidida por um gângster como Eduardo Cunha, imediatamente depois preso por corrupção. Em rede nacional ao vivo, a sessão envergonhou os brasileiros do que havia se tornado a “Nova República” após a queda da ditadura. Bolsonaro, na ocasião, era deputado e seu voto foi uma homenagem a um dos mais cruéis torturadores do regime militar, o Coronel Brilhante Ustra.

Na crise de representatividade dos partidos hegemônicos da ordem, combinada à desmoralização do maior partido de esquerda do país e com o demônio da crise econômica mostrando seus chifres para os de baixo, seria provável que um outsider se fortalecesse. O cenário mundial e nacional marcado pelo ‘interregno’ de Gramsci, trazia esta possibilidade latente. Segundo as palavras do revolucionário sardo: Quando estas crises acontecem, a situação imediata se torna delicada e perigosa, porque o campo fica aberto a soluções de força, à atividade de potências obscuras representadas pelos homens providenciais ou carismáticos[1].

As fontes que propiciaram o fenômeno do bolsonarismo, entretanto, são tão perigosas quanto frágeis. Nas grandes crises, o capital mostra a sua negatividade e a burguesia mostra sua essência. Os que se venderam outrora como antiestablishment, se tornam a própria caricatura piorada do establishment em crise. Seus dirigentes imaginam a saída da crise econômica por meio da receita falida do libertarianismo econômico. Uma espécie de liberalismo primitivo elevado a uma condição quase religiosa, na qual o capitalismo é o fim inexorável da marcha do progresso. Por isso, cada medida macroeconômica tomada pela equipe do governo aprofunda a crise e não a resolve. Também por isso, frente a uma crise sanitária eles estão mais preocupados com a saúde dos mercados do que com a vida da população.

Em segundo lugar, o decadentismo usado como discurso para crescer e coesionar seus seguidores abre caminhos a uma forma de pessimismo crônico. Não à toa, a horda bolsonarista toda vez que é colocada contra as cordas, evoca quase como um mantra que a culpa é do PT, que com o PT era pior, etc. É claro que o governo petista teve sua parcela de responsabilidade na crise que se abateu ainda antes do Coronavírus, mas não é essa música que a orquestra ouve de seus maestros. Para se tornar politicamente dirigente, a nova direita herda do fascismo (além da reação às lutas democráticas e por liberdade civis condensando atrasos e preconceitos como racismo, o machismo, a xenofobia e a LGBTfobia), a característica de capilarizar o ressentimento, ou seja, propagar a ideia de que o mundo está em plena decadência moral para poder, no momento seguinte, se apresentar como o bote salva-vidas dos valores da sociedade. Trata-se daquilo que Robert Soucy[2], em seu estudo sobre o fascismo francês, identificou como um dos pilares da versão fascista dos anos trinta: “a revolta contra a decadência”.

Em terceiro lugar, vale a pena recorrer ao conceito de populismo desenvolvido por Ernesto Laclau[3], para compreender o fenômeno bolsonarista. Nessa abordagem, o populismo é um fenômeno que constitui-se a partir da definição de um “nós” e um “eles” para, a partir, daí dar unidade a um grupo social constituído como “povo” e significá-lo ideológica e politicamente. Desse ponto de vista, se pode compreender melhor como os novos “populismos” de direita têm a capacidade de mobilizar, mais ou menos, distintas classes sociais, borrando suas fronteiras. Aqui houve uma atualização desqualificada do anticomunismo, encontrando no bolivarianismo em decadência seu principal inimigo, uma versão atualizada da “ameaça” comunista. Utilizou-se da corrupção como recurso discursivo para estabelecer a fronteira entre esquerda e direita, a partir dos escândalos revelados pela Operação Lava-Jato e a desmoralização do PT.

A”orquestra” heterogênea e casuística que levou Bolsonaro ao poder, foi composta por agentes das Forças Armadas, milicianos, seguidores do astrólogo autodidata Olavo de Carvalho, crentes evangélicos, conservadores de sempre, reacionários, terraplanistas, setores da burguesia periférica e oligarquias regionais, além de outros oportunistas que viram uma janela para o crescimento eleitoral e a rapinagem do Estado. Regado a muita fake news, o mito do capitão que coloca o Brasil acima de tudo e deus acima de todos garantiu a unidade política. Como afirmamos no início, em tempos de crise profunda tudo isso pode ser quase nada. A Sinfonia começava então a desafinar

Hora do duelo

O governo Bolsonaro já vinha demonstrando grande fragilidade antes da Covid-19. Seu tratamento com o tema ambiental, especialmente no caso dos incêndios na Amazônia, feitos pelos latifundiários para aumentar as áreas de plantação de soja e criação de gados. No tratamento às comunidades indígenas e quilombolas, vítimas de grande violência no campo. Mas talvez onde tenha perdido uma parte importante de sua base de apoio mais plebéia e feminina tenha sido o plano econômico ultraliberal que vinha a passos largos retirando direitos trabalhistas e previdenciários sem sinais de recuperação econômica do país. Os escândalos de corrupção envolvendo sua família e alguns ministros, também manchavam a narrativa de que estava “limpando o país”. Ainda assim, conservava certa unidade entre os setores que compõem o governo. Contava com boa parte da direita mais ao centro no Parlamento para tocar estas medidas econômicas e um apoio popular acima dos 30%.

A crise com estes setores, começou a se expressar a partir de uma virada mais autoritária, com vistas a um regime político mais fechado enfrentando-se com o presidente do Congresso e com o Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro, pessoalmente e usando parte do aparato governamental, passou a convocar manifestações de seus apoiadores com esta pauta mais autoritária. No entanto, o vírus chegou antes de sua virada e a comitiva presidencial que esteve nos EUA estava quase toda contaminada pelo Coronavírus. Ainda assim, depois de desidratadas as marchas que convocou, contrariando as orientações da OMS e seu próprio Ministro da Saúde, ele foi à pequena manifestação feita na capital federal no dia 15 de março, teve contato direto com as pessoas, tirou selfies, e distribuiu beijos e abraços.

As declarações posteriores foram ainda mais irresponsáveis e criminosas. Disse que o novo vírus não passava de uma “gripezinha”, que seu “histórico de atleta” o protegia da contaminação. Levantou-se contra o isolamento social e falou que as pessoas deveriam usar o fármaco cloroquina, sem nenhuma comprovação científica de sua eficácia, nem de seus riscos. Mas frente à irresponsabilidade do presidente, um movimento espontâneo de Panelaços roubou a cena em todo o país, já que grande parte da população já encontrava-se em casa. Os crimes de responsabilidade cometidos anteriormente, agora encontravam-se com uma indignação popular. De maestro, Bolsonaro passou a um instrumentista desafinado e cada vez mais isolado em sua própria Orquestra.

 Bolsonaro havia escolhido dirigir seus seguidores de extrema-direita e não o país. Se enfrentou com governadores de estados de sua própria base aliada. Perdeu protagonismo político para seu Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que segue defendendo as orientações da OMS, como o isolamento social e esteve a ponto de ser demitido, há poucos dias. Bolsonaro recuou em sua demissão, pois perdeu apoio até mesmo de sua base militar nesta tentativa. Com seu negacionismo e postura torpe está cada vez mais isolado política e socialmente.

Quando nós deputados decidimos, junto à direção do MES/PSOL, eu (Fernanda Melchionna), Sâmia Bonfim, David Miranda e Luciana Genro, em conjunto com centenas de artistas, cientistas, lideranças políticas e intelectuais, entrar com um pedido de impeachment contra Bolsonaro, não foi  por prestígio político. Sabíamos que seria um péssimo momento para uma crise política, mas talvez o mais necessário. Acreditávamos que era preciso dar um sinal político para os panelaços e a indignação popular que cada vez mais cresciam. Não à toa, chegamos a mais de 1milhão de assinaturas de apoio à inciativa. Intelectuais como Valdimir Safatle, Rosana Pinheiro Machado, Silvio Almeida, Alvaro Bianchi e Ruy Braga; artistas como Gregório Duvivier, Maria Rita, Carlos Latuff, Felipe Neto e Zélia Duncan; cientistas do calibre de Sidarta Ribeiro e Stevens Kastrup Rehen nos acompanharam. Entramos com o pedido na mesma noite em que houve um dos maiores panelaços da história recente. A história não costuma dar uma segunda chance.

Ao povo trabalhador está relegado o trágico dilema: morrer de fome ou se contaminar com o Coronavírus. Por isso, a atuação do PSOL no Parlamento tem priorizado projetos como a renda básica emergencial de R$ 600 aos trabalhadores informais que conseguimos aprovar, com uma emenda nossa por proporcionar às mulheres chefes de famílias monoparentais o dobro do valor, chegando a R$ 1.200. Também temos trabalhado em torno de um plano de ação que tem como medidas emergenciais a reconversão industrial para que as empresas e universidades possam orientar a produção de materiais de higiene e, principalmente, Equipamentos de Proteção Individual aos trabalhadores da Saúde que hoje arriscam suas vidas, para salvar outras, sem as condições necessárias de trabalho e às vésperas do colapso do Sistema Único de Saúde que Bolsonaro pretendia privatizar antes da crise. 

Sabemos que, pela desigualdade social brutal, nosso país é um alvo perigosíssimo da pandemia. Se as favelas brasileiras forem contaminadas, as consequências serão incomensuráveis. Podemos assistir a um verdadeiro genocídio, aos moldes do que estamos vendo no Queens e no Brooklyn, sem precedentes. Por isso, é uma obrigação histórica dos revolucionários brasileiros lutar para derrubar Bolsonaro, o mais rápido possível. Apontar um caminho político para enfrentar a crise. Apesar da gravidade da situação e do apoio que a inciativa do impeachment ganhou em um importante setor da intelectualidade e da esquerda, nem toda a esquerda está a favor desta tática. A Sinfonia da esquerda também tem suas dissonâncias.

É um debate muito importante do ponto de vista estratégico. Pois a ausência da esquerda na discussão das saídas deixa um espaço para que a direita, que está muito dividida, vá se recompondo. Políticos burgueses como o governador do estado de SP ou o próprio Ministro da Saúde aparecem como um contraponto a Bolsonaro. Na ausência de uma oposição política que corresponda à oposição social que cresce, as classes dominantes se reciclam e se reposicionam. Não se trata de voluntarismo, mas efetivamente de iniciativa que preserve a independência de classe e dê um sentido à construção de uma esquerda renovada com um programa anticapitalista. Este posicionamento tem que ser, desde já uma resposta ao futuro, pois o cenário pós-batalha da guerra contra o Coronavírus será um terreno de debate estratégico.

Batalha final

O mundo não será o mesmo depois da pandemia. Isso já é um consenso, inclusive entre os economistas burgueses. Há um certo consenso casuístico dos economistas que durante a pandemia devem ser mais keynesianos. O tema mais importante é quem, no pós-batalha, pagará a conta desta intervenção estatal na economia. Alguns falam em um novo Plano Marshall, outros estão como um abutre esperando para se alimentar da tragédia e recolocar o ajuste neoliberal sobre as costas dos trabalhadores. Mas o que nós socialistas revolucionários devemos propor, de modo concreto, para sair da crise?

Como primeiro ponto, devemos partir das principais lições que a pandemia pode nos deixar: 1) o capitalismo não pode resolver os principais problemas da humanidade e, em seu desenvolvimento, leva a catástrofe e a miséria em seu DNA, produto da crescente contradição entre a produção social e a apropriação privada da riqueza; 2) a educação e a ciência devem ser públicas e são a saída para  a preservação da saúde e da  reprodução social humanas; 3) os sistemas de saúde públicos e universais são indispensáveis e não podem ser privatizados; 4) a ação predatória da natureza traz consequências trágicas incomensuráveis à vida humana; 5) a solidariedade de classe é o mais importante afeto humano para superar o capitalismo; 6) é preciso construir uma organização política de novo tipo, em nível mundial, para organizar, colaborar e trocar experiências nacionais, com o objetivo de levar adiante a tomada do poder político pelos trabalhadores, cada vez mais necessária para a nossa própria existência.

Dessas lições, depreende-se a necessidade de um novo programa de transição que vá à raiz dos problemas. Que tenha o ecossocialismo como perspectiva, e se relacione de maneira harmônica com a natureza e a vida. Que seja feminista, ponha fim ao machismo e o patriarcado como objetivo e as mulheres como um dos principais sujeitos sociais da mudança. Que seja antipreconceitos de qualquer natureza (racismo, xenofobia, LGBTfobia…). Que os sistemas financeiros devem estar sob controle público e não sirvam para o jogo da especulação. Que taxe os bilionários, com vistas à redução da desigualdade e coloque no horizonte a expropriação dos recursos estratégicos para que o Estado possa planejar sua utilização e socialização, sem ter o lucro como objetivo único. 

O diapasão do socialismo é o único que pode afinar a sinfonia humana para evitar a barbárie e criar um mundo onde a vida seja o valor mais importante a ser preservado. Só assim poderemos vislumbrar um gran finale para a crise atual.


[1] Antonio GRAMSCI. Cuadernos de la Cárcel, V. 5, Ediciones Era/Universidad Benemérita de Puebla, 1984.

[2] Robert Soucy, Fascismes français?, Ediciones Autrement, 2004.

[3] Ernesto Laclau, A Razão Populista, Três Estrelas, 2018.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.