Juvêncio Mazzarollo, o último preso político da ditadura
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Juvêncio Mazzarollo, o último preso político da ditadura

Uma história didática para entender as perseguições do regime militar brasileiro no Paraná

Sergio Gadini 10 jun 2026, 10:45

Foto: Juvêncio Mazzarollo sendo detido por policiais da ditadura militar. (Reprodução)

Você já ouvir alguma coisa a respeito da vida do “último preso político da ditadura militar brasileira”? O gaúcho radicado na fronteira Oeste paranaense, Juvêncio Mazzarollo (1944-2014), foi preso pelo regime militar a partir da publicação de um texto no jornal semanário Nosso Tempo, de Foz do Iguaçu, veiculado em março de 1981.

E, foi assim que, em 27 de setembro de 1982, Juvêncio foi condenado por uma ‘corte militar’ em Curitiba, onde já foi preso e encaminhado à penitenciária de Piraquara, na região metropolitana da capital paranaense. Os outros dois sócios do Nosso Tempo – João Adelino de Souza e Aluízio Ferreira Palmar – foram absolvidos, pois o texto que baseou a condenação era assinado pelo ex-professor Juvêncio Mazzarollo. O jornalista foi julgado, condenado e preso pela ditadura militar sob acusação de “propaganda subversiva”, enquadrado no artigo 42 da famigerada Lei de Segurança Nacional (LSN), criada pela própria ditadura. No complexo Piraquara, o jornalista foi logo encaminhado ao setor de Segurança Máxima, onde ficavam os presos políticos e criminosos condenados por crimes comuns.

É oportuno lembrar que a Lei de Segurança Nacional voltou à pauta no Brasil em meados do ano 2020, quando o então presidente volta e meia alegava que manifestantes, principalmente de movimentos sociais, deveriam ser enquadrados pela famigerada legislação que orientou a ditadura militar no País. A imprensa, via de regra, repercutia, como se fosse algo aceitável ou a pretexto de contextualizar os desmandos herdados pelo regime golpista.

Na versão que “define os crimes contra a Segurança Nacional, estabelece sistemática para o processo e julgamento e dá outras providências”, a Lei referência (Nº 6.620) é de 17 de dezembro de 1978, amparado pelo Código Penal Militar, feito por Decreto-Lei Nº 1.001, de 21 de outubro de 1969. E foi com tal normativa que Juvêncio foi condenado e preso pelos militares. Pouco depois, em 14 de dezembro de 1983, a lei de segurança foi atualizada, inclusive por pressão de diversos setores da população que já não aguentavam tanto desmando e violência, pela Lei Nº 7.170.

Mazzarollo ficou em Piraquara em uma cela especial (por ter formação universitária) até fevereiro de 1983, quando foi transferido ao Batalhão da Guarda da Prisão Provisória (o conhecido Presídio do Ahú), em Curitiba. Alguns meses depois, em 08/08/1983, também por pressão da de entidades sociais, sindicais e religiosas, Juvêncio foi transferido para uma cela no quartel do Corpo de Bombeiros, localizado no bairro Portão, onde ficou preso até 8 de abril de 1984, quando conseguiu sair, depois de incontáveis campanhas com apoio nacional e internacional de solidariedade.

E o que falar do Juvêncio, antes e depois, de uma longa e injusta prisão política? O autor já tinha publicado um livro que não passou batido aos olhos dos censores do regime. O livro A taipa da injustiça (1980) conta a história de alguns impactos (sociais, econômicos e ambientais) da construção da usina de Itaipu no Oeste Paranaense. Estima-se que, só no lado brasileiro, cerca de 40 mil pessoas foram retiradas de suas terras para viabilizar a construção da hidrelétrica, com 8,2 mil desapropriações, a maioria de pequenos agricultores. Foi com esse povo, diretamente atingido pelo projeto dos militares, que Juvêncio trabalhou entre 1977 e 1979, orientando e ajudando na organização popular em busca de reconhecimento e pagamento de um valor justo às famílias desapropriadas. A partir de 1980, Juvêncio acompanha os movimentos de agricultores como repórter do jornal Nosso Tempo, onde também era sócio.

O jornalista Aluízio Palmar retorna a Foz do Iguaçu em 1979, com a anistia política aos perseguidos pela ditadura e foi recebido pelo fotógrafo João Adelino, que trabalhava no Hoje Foz, desde 1977, recebeu Aluízio na chegada à cidade, depois de peregrinar por diversos países, fugindo de regimes ditatoriais (Chile, Argentina, Brasil).

Lançado em 3 de dezembro de 1980, o semanário Nosso Tempo teve um papel importante nas lutas democráticas ao final da ditadura, não apenas no Oeste, mas em todo o Estado, pois pautou problemas sociais e demandas populares que, até então, tinham espaço limitado na mídia regional. A edição era escrita e editada pelos próprios jornalistas/sócios, que faziam todas as atividades no jornal.

“O jornalismo engajado, analítico e critico não é facilmente digerido pelos privilegiados que não aceitam perturbações a seu comodismo. Nem sempre o remédio mais eficaz é o que mais agrada ao paladar do doente. 0 NOSSO TEMPO estará sempre em busca do remédio eficaz, tenha o sabor ou o dissabor que tiver”, destaca o editorial da primeira edição do NT, em 3/12/1980. E foi esse o tom editorial que o projeto manteve ao longo de quase uma década de existência, o que resultou em ataques, perseguições, ameaças, processo e a prisão de um dos profissionais responsáveis pelo NT.

E quem teve a ideia e iniciativa de contar a história do último preso político do regime militar? Foi a jornalista e professora Daniela Neves quem teve a ideia, inclusive recuperando algumas memórias autorais, quando ela própria ia com os pais visitar o então preso político Juvêncio Mazzarollo no qualquer do Corpo de Bombeiros, no bairro Portão, em Curitiba.

O livro é também uma justa homenagem à dedicação de apoio e lutas solidárias que os pais da autora travaram – e ainda hoje travam – ao longo da vida em defesa da dignidade, direitos humanos, cidadania e, em especial, pela educação pública: Eliana e Lafaiete Neves.

Por ironia do destino, a primeira vez que ouvi a história foi de um ex-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Sérgio Murillo), em meados dos anos 1990, recém-chegando ao Paraná para trabalho. Uma história contada pelo então colega de projeto, trabalho e sonhos com um jornalismo independente: o também preso político Aluízio Palmar.

Juvêncio Mazarollo esteve no curso de Jornalismo da UEPG, em Ponta Grossa/PR, em outubro de 2001, para uma palestra na X Semana de Comunicação, evento do calendário anual mantido por estudantes e professores. Já Aluízio esteve em diversas ocasiões, também sempre prestigiando eventos locais na UEPG, para lançamentos de livros, conversas e entrevistas em eventos para descomemorar a série de golpes contra a democracia.

A pergunta do título, aqui, é intencional: sim, Juvêncio Mazzarollo foi preso por ousar fazer um jornalismo independente, disposto a criticar as práticas autoritárias do regime militar no interior do Paraná. Julgado, condenado e libertado, graças ao apoio de incontáveis manifestações, protestos e ações judiciais que pressionaram a tal ‘justiça’ de um regime autoritário.

Com um embasado trabalho de pesquisa, o livro foi publicado com recursos da Política Nacional de Aldir Blanc de Fomento à Cultura, mantido pelo Ministério da Cultura, através do edital público da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, em 2025. A biografia tem ilustrações de imagens da vida da personagem e também reproduções de reportagens do jornal Nosso Tempo, periódico em que Juvêncio trabalhou e publicou as matérias usadas pelo regime militar para condená-lo à prisão política. Aliás, o arquivo completo do jornal está disponível na internet, graças a uma parceria do ex-editor (Palmar) com a entidade Guatá Cultura em Movimento. O acervo pode ser acessado direto no site https://www.nossotempodigital.com.br/ 

A história contada pela jornalista Daniela Neves faz justiça à memória de uma das personagens que lutou publicamente contra a ditadura e pagou com anos de uma violência do estado. A biografia do Juvêncio, “o último preso político da ditadura brasileira”, é uma leitura necessária para entender a vida no interior do Paraná e em qualquer região ou município do País, onde as pessoas não silenciaram aos desmandos, perseguições e crimes executados por ‘autoridades’ que mantinham um regime que caiu graças às incontáveis iniciativas de resistência popular depois de longos 21 anos. O trabalho da Daniela Neves precisa de divulgação para chegar às bibliotecas e escolas públicas em todo o Brasil.

Livro: Juvêncio – o último preso político da ditadura brasileira. 120p. Autora: Daniela Neves. Editora: Banquinho Publicações. Curitiba: Instituto Edésio Passos, 2025.

Sérgio Gadini é jornalista é professor e, nas horas vagas, se dedica à organização de causas coletivas em defesa dos direitos humanos. E-mail: slgadini@uepg.br 

Imagem: Capa do livro (reprodução)


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