Lula e OMS pressionam G7 por acordo contra futuras pandemias
Lula e Thedros

Lula e OMS pressionam G7 por acordo contra futuras pandemias

Carta conjunta defende conclusão do Acordo das Pandemias, cobra compromisso dos países ricos com o compartilhamento de tecnologias e alerta que novas emergências sanitárias são cada vez mais prováveis

Foto: Ricardo Stuckert/PR

A poucos anos da maior tragédia sanitária do século XXI, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, voltaram a cobrar uma resposta coordenada da comunidade internacional para evitar que os erros da pandemia de covid-19 se repitam. Em carta aberta dirigida aos líderes do G7 – grupo que reúne algumas das maiores economias do planeta -, ambos pedem apoio político para concluir as negociações do Anexo de Acesso a Patógenos e Compartilhamento de Benefícios (PABS), etapa indispensável para a entrada em vigor do Acordo das Pandemias da OMS.

A mensagem parte de uma constatação simples: o mundo ainda não está preparado para enfrentar uma nova pandemia de forma justa e coordenada. Embora o texto principal do acordo tenha sido aprovado por consenso na Assembleia Mundial da Saúde, em 2025, falta concluir justamente o mecanismo que define como países compartilharão informações sobre vírus e outros agentes infecciosos e, em contrapartida, terão acesso equitativo às vacinas, medicamentos, testes e demais tecnologias desenvolvidas a partir desse conhecimento.

“Falta apenas uma peça: para responder a futuras pandemias a tempo, os países precisam ser capazes de identificar rapidamente patógenos com potencial pandêmico e compartilhar suas informações genéticas e materiais biológicos para que cientistas possam desenvolver ferramentas: testes, tratamentos e vacinas que determinam quem vive e quem não vive”, afirmam Lula e Tedros. Segundo eles, “o sistema que torna isso possível, de forma justa e em condições de igualdade, é o anexo de Acesso a Patógenos e Compartilhamento de Benefícios (PABS)”.

Lições da covid-19

A proposta busca corrigir uma das maiores distorções expostas durante a pandemia de covid-19. Países do Sul Global compartilharam rapidamente amostras e dados científicos que permitiram o desenvolvimento de vacinas em tempo recorde, mas enfrentaram enormes dificuldades para acessar esses imunizantes quando eles começaram a ser distribuídos. Enquanto nações ricas garantiam estoques suficientes para vacinar suas populações diversas vezes, países de baixa renda esperaram meses – e, em alguns casos, anos – para receber doses.

Nesse contexto, o PABS estabelece que o compartilhamento de informações sobre novos patógenos seja acompanhado de compromissos concretos para que os benefícios científicos e tecnológicos também alcancem os países que colaboraram com a pesquisa.

“O sistema PABS baseia-se em um princípio simples e justo: aqueles que compartilham rapidamente patógenos perigosos precisam ter confiança de que as vacinas e tratamentos desenvolvidos a partir desse compartilhamento também chegarão às suas populações”, defendem Lula e Tedros.

O Brasil, que preside as negociações do anexo, tenta construir um consenso entre países desenvolvidos e em desenvolvimento antes da próxima rodada de negociações, marcada para julho. Um dos principais impasses está justamente na resistência de parte das economias mais ricas em assumir compromissos juridicamente vinculantes para o compartilhamento dos benefícios decorrentes das pesquisas, tema que opõe interesses do Norte e do Sul Global.

A carta também rebate críticas difundidas por setores que alegam que o Acordo das Pandemias retiraria a autonomia dos Estados nacionais. Lula e Tedros enfatizam que isso não corresponde ao texto aprovado.

“Alguns podem perguntar se o Acordo sobre Pandemias compromete a soberania dos Estados. A resposta é clara: não compromete”, afirmam. Eles lembram que o artigo 22 estabelece expressamente que a OMS não terá autoridade para alterar leis nacionais nem impor medidas como lockdowns, restrições de viagem ou vacinação obrigatória.

Risco crescente de novas pandemias

Além de defender o acordo, a carta alerta que a próxima emergência sanitária pode estar mais próxima do que se imagina. Estudos científicos apontam que existe aproximadamente 25% de probabilidade de uma pandemia ocorrer na próxima década.

Diversos fatores ampliam esse risco. O avanço das mudanças climáticas altera a distribuição de vetores como mosquitos, favorecendo a disseminação de doenças infecciosas. O desmatamento, a expansão agrícola sobre áreas naturais e a perda de biodiversidade aumentam o contato entre seres humanos e animais silvestres, facilitando o chamado “salto zoonótico”, quando vírus passam de animais para pessoas. Ao mesmo tempo, a intensificação das viagens internacionais acelera a propagação de novos agentes infecciosos, enquanto os avanços da biotecnologia tornam ainda mais importante fortalecer mecanismos globais de biossegurança.

“As mudanças climáticas, as transformações no uso da terra e a evolução dos sistemas agrícolas estão redesenhando o mapa das regiões onde surgem patógenos perigosos”, alertam Lula e Tedros. Eles acrescentam que “os avanços da biotecnologia, acompanhados de forma desigual por medidas de biossegurança, aumentam o risco de liberações acidentais ou deliberadas de agentes biológicos”.

Relatórios da OMS, do Painel Independente para Preparação e Resposta a Pandemias e de estudos publicados em revistas científicas como Nature e PNAS convergem na avaliação de que novas pandemias são uma questão de “quando”, e não de “se”. Especialistas destacam que fortalecer sistemas públicos de saúde, ampliar a vigilância epidemiológica e garantir cooperação internacional são medidas centrais para reduzir impactos futuros.

Um custo humano e econômico imenso

Na carta, Lula e Tedros lembram que a covid-19 provocou uma das maiores perdas humanas da história recente. Estimativas da OMS apontam que a pandemia pode ter causado cerca de 20 milhões de mortes em todo o mundo. Além da tragédia humana, o Fundo Monetário Internacional estima prejuízos superiores a US$ 13 trilhões na economia global, resultado da paralisação da produção, da ruptura das cadeias de suprimentos e do fechamento prolongado de escolas e empresas.

Para os autores, investir em prevenção custa muito menos do que enfrentar uma nova crise sem mecanismos internacionais de cooperação.

“O mundo precisa terminar o que começou”, afirmam. “Fizemos uma promessa aos milhões que perdemos e às famílias que ainda sentem a sua falta. Que sejamos a geração que cumpre essa promessa.”

Ao defender a conclusão do Acordo das Pandemias, Brasil e OMS sustentam que a segurança sanitária depende de solidariedade internacional, acesso equitativo às tecnologias em saúde e fortalecimento do multilateralismo. Em um cenário marcado pelo aumento das desigualdades e pela recorrência de novas ameaças infecciosas, a disputa em torno do PABS tornou-se também um debate sobre justiça global e o direito universal à saúde.


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 21 ago 2026

Ponto de não retorno

A batalha recém começa. Vamos tomar as ruas com nossas campanhas combativas, fazendo todos os esforços tanto para reeleger Lula como para fortalecer um polo programático anticapitalista
Ponto de não retorno
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça a Revista Retomada!
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas

Autores