A participação do trabalho na renda
Se medirmos a relação entre lucros e salários em termos marxistas, ou seja, como taxa de mais-valia, veremos que ela nunca foi tão elevada
Foto: Trabalhadoras da indústria. (GCE/Reprodução)
Em uma publicação recente, destaquei que as margens de lucro das empresas dos Estados Unidos (isto é, os lucros como proporção da renda nacional) haviam atingido níveis recordes, chegando a 19,4% — o maior percentual registrado nos EUA desde a década de 1940!

O inverso ocorreu com a participação do trabalho na renda, que caiu para um novo mínimo.

Se medirmos a relação entre lucros e salários em termos marxistas, ou seja, como taxa de mais-valia, veremos que ela nunca foi tão elevada. Isso constitui um importante fator de contrarrestação à tendência de queda da taxa de lucro nos EUA (calculada pela divisão da mais-valia pelo estoque de meios de produção somado à remuneração dos empregados), particularmente evidente desde o fim da pandemia.

No entanto, essas medidas da participação dos lucros e dos salários na renda nacional dos EUA foram contestadas pela Tax Foundation. A Tax Foundation se considera o principal centro de estudos independente e apartidário do mundo dedicado à política tributária. “Há mais de 85 anos, nossa missão permanece a mesma: melhorar vidas por meio de políticas tributárias que promovam maior crescimento econômico e ampliem as oportunidades.”
A Tax Foundation argumenta que é incorreto utilizar a medida da renda nacional bruta para avaliar a parcela destinada aos lucros e aos salários. E, ao contrário da conclusão apresentada acima, não seria verdade que o capital esteja se apropriando de uma fatia cada vez maior do bolo econômico ou que a participação do trabalho tenha caído de quase dois terços na década de 1950 para cerca de metade atualmente.
Por que essas conclusões estão erradas?
Como a Tax Foundation aponta corretamente, a renda nacional total não é composta apenas pelos lucros e salários recebidos, mas também pela depreciação. A depreciação corresponde à parcela da renda nacional que as empresas precisam contabilizar para substituir máquinas, instalações, equipamentos tecnológicos e outros bens de capital desgastados ou obsoletos — ou seja, não se trata de investimento em novos meios de produção. Portanto, a depreciação deve ser descontada dos lucros que as empresas obtêm com suas vendas. Em outras palavras, a participação dos lucros ou dos salários deve ser calculada em relação à renda total líquida, isto é, após a dedução da depreciação.
Quando esse cálculo é feito, a participação do trabalho não está em seu nível historicamente mais baixo, segundo a Tax Foundation: “a participação do trabalho é tanto mais elevada quanto mais estável do que sugere a série do Bureau of Labor Statistics (BLS)”. Nessa medida líquida da renda nacional, a participação do trabalho era de aproximadamente 69% no final da década de 1940, subiu para cerca de 75% na década de 1970 e hoje está em 68,3% — praticamente o mesmo nível da década de 1950. “Em outras palavras, a participação do trabalho não está em um nível ‘nunca antes visto’.”

Mas, em minha opinião, um exame mais atento dos dados e das séries históricas apresentados pela Tax Foundation permite chegar a uma conclusão mais precisa.
Primeiro, cabe dizer que a “depreciação” é uma dedução contábil dos lucros brutos. Ela continua sendo valor apropriado pelo capital por meio da exploração do trabalho. Se os lucros brutos forem reduzidos pela depreciação, o valor do estoque de ativos fixos também deverá ser reduzido, de modo que os lucros líquidos sejam calculados em relação ao estoque líquido de capital. Mantidas as demais condições constantes (ceteris paribus), a taxa de lucro sobre o capital, portanto, não será reduzida pela dedução da depreciação da renda nacional.
Quanto à participação dos diferentes grupos na renda nacional, mesmo utilizando a medida da Tax Foundation, a afirmação anterior de que a participação do trabalho está em seu nível historicamente mais baixo é praticamente confirmada. O percentual de 68,3% da renda nacional dos EUA destinado ao trabalho em 2026 ainda era o menor desde 1948. Correspondentemente, a participação dos lucros também estava próxima de seu nível mais elevado desde 1948.

Assim, afirmar que a participação do trabalho está em seu nível historicamente mais baixo é apenas um ligeiro exagero, e a Tax Foundation está fazendo muito barulho por pouca coisa.
Mais importante ainda, o gráfico acima revela que o pico da participação do trabalho ocorreu no final da década de 1970. A partir dos anos 1980, essa participação caiu e, correspondentemente, aumentou a parcela destinada ao capital.
Esse foi o início do chamado período neoliberal, marcado por ataques aos direitos e à organização sindical, privatizações, cortes nos benefícios sociais e nos serviços públicos, além da transferência de empregos industriais para regiões do mundo onde a mão de obra era mais barata. Tudo isso possibilitou o aumento da rentabilidade geral do capital norte-americano.
Além disso, se convertermos as medidas de participação da Tax Foundation em categorias marxistas, veremos que a taxa de mais-valia aumentou 57% desde 1980, 32% desde o fim da Grande Recessão e 17% desde o fim da pandemia, atingindo um nível próximo ao pico imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial.

Esse aumento foi um fator fundamental de contrarrestação à lei de Marx sobre a tendência de queda da taxa de lucro. Ele contribuiu para elevar a rentabilidade nos EUA durante o período neoliberal (1982–2000), novamente após o fim da Grande Recessão e também nos últimos cinco anos, desde o encerramento da pandemia.
Mas há uma ressalva. A maior parte desses lucros adicionais está concentrada em apenas alguns setores fundamentais da economia.
No período de um ano encerrado em meados de 2026, os lucros das empresas norte-americanas na economia doméstica — excluindo os lucros obtidos por empresas dos EUA no exterior — chegaram a US$ 4,4 trilhões. Isso representa um aumento de US$ 738 bilhões, ou expressivos 17,7%.
Desse aumento, o setor financeiro — impulsionado pela alta do mercado de ações — contribuiu com US$ 185 bilhões, ou 25%. O setor de energia — beneficiado pela forte elevação dos preços energéticos — contribuiu com US$ 135 bilhões, ou 18,2%.
Mas foi o setor de tecnologia, incluindo software e hardware, que liderou o crescimento, respondendo por US$ 214 bilhões do aumento total de US$ 738 bilhões nos lucros, ou 29%.
Se excluirmos o setor financeiro e considerarmos apenas os setores não financeiros, a participação do setor energético no aumento dos lucros sobe para 24%, enquanto a do setor de tecnologia chega a 39%. Portanto, quase dois terços do crescimento dos lucros dos setores não financeiros no último ano vieram de apenas dois setores.

Isso sugere que, caso os lucros do setor de tecnologia sofram uma queda em decorrência do estouro de uma bolha no mercado de ações impulsionada pela inteligência artificial (IA), a rentabilidade geral das empresas norte-americanas despencará, desencadeando uma recessão.
Afinal, quase dois terços do aumento dos lucros dos setores não financeiros no último ano vieram de apenas dois setores.