O Brasil que cabe em duas mil entrevistas
Como as pesquisas eleitorais deixaram de medir a política para também influenciá-la
Foto: Antonio Augusto/TSE
As pesquisas chegam cedo. Muito antes da abertura das urnas, já ocupam espaço nos jornais, nos grupos de WhatsApp e nas conversas de campanha. São discutidas em gabinetes, escritórios de investimento, redações e mesas de bar. Um candidato sobe três pontos e vira notícia. Outro cai dois e passa o dia explicando que nada mudou. Às vezes, parece que a eleição acontece dentro das planilhas antes de acontecer nas urnas.
A cena se repete há décadas. Em algum escritório, um coordenador de campanha recebe os números mais recentes. A aprovação cresceu entre mulheres. O desempenho caiu entre jovens. O adversário avançou em determinada região. Em poucos minutos, discursos são reescritos, agendas são alteradas e estratégias são revistas. O eleitor ainda nem sabe disso, mas uma pesquisa acabou de mudar o rumo da campanha.
Essa talvez seja a principal contradição dos levantamentos eleitorais. Eles foram criados para observar a disputa eleitoral, mas acabaram se tornando personagens dela.
No Brasil, poucas ferramentas exercem tanta influência sobre a vida pública. Os números divulgados por institutos de pesquisa ajudam a definir estratégias partidárias, orientam a cobertura da imprensa e oferecem uma espécie de retrato instantâneo do humor do eleitorado. Ao mesmo tempo, despertam suspeitas, alimentam teorias conspiratórias e provocam disputas que frequentemente dizem mais sobre a polarização política do que sobre a qualidade dos dados.
Por trás de cada percentual existe um esforço estatístico para responder a uma pergunta aparentemente simples: o que pensa o Brasil?
A resposta é menos simples do que parece. Transformar mais de 200 milhões de habitantes em uma amostra de algumas milhares de entrevistas exige escolhas metodológicas, critérios técnicos e uma série de decisões que raramente aparecem nas manchetes. É um trabalho que envolve estatística, geografia, sociologia e, cada vez mais, tecnologia.
Para entender como as pesquisas se tornaram uma peça central da democracia brasileira, esta reportagem ouviu o historiador e jornalista Marcelo Gaudio e o professor de Geografia e mestrando pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Samuel Nunes. Suas análises ajudam a compreender não apenas como os levantamentos são realizados, mas também por que eles se tornaram tão importantes — e tão contestados.
Quando os números entraram na política
As pesquisas de opinião não surgiram para prever eleições. Sua origem está ligada à tentativa de compreender comportamentos coletivos em sociedades cada vez mais complexas. No Brasil, elas ganharam relevância à medida que a política se profissionalizou e os meios de comunicação ampliaram seu alcance.
Segundo Marcelo Gaudio, a consolidação dos institutos de pesquisa acompanhou a expansão da democracia de massas e dos grandes veículos de comunicação. A televisão teve papel decisivo nesse processo. À medida que campanhas eleitorais passaram a depender da exposição midiática, cresceu também a necessidade de conhecer o eleitorado de forma mais sistemática.
O resultado foi a transformação de institutos como Ibope e Datafolha em atores permanentes da vida política nacional. Seus levantamentos deixaram de interessar apenas a especialistas e passaram a influenciar decisões de candidatos, partidos, empresários e jornalistas.
Com o tempo, os números adquiriram uma autoridade quase ritual. Eram aguardados como quem espera a divulgação de um boletim meteorológico. A diferença é que, na política, o clima muda justamente porque alguém anunciou a previsão.
Um país difícil de entrevistar
Em teoria, fazer uma pesquisa eleitoral parece um exercício relativamente simples. Define-se uma amostra, aplica-se um questionário e analisam-se os resultados. Na prática, porém, poucas democracias apresentam um desafio tão complexo quanto o Brasil.
O país que aparece nos gráficos dos institutos é o mesmo que abriga mais de cinco mil municípios, atravessa diferentes fusos informais de desenvolvimento econômico e reúne realidades que, muitas vezes, parecem pertencer a países distintos. Há bairros de São Paulo onde praticamente toda a população está conectada à internet em tempo integral. Há comunidades ribeirinhas da Amazônia onde chegar a um entrevistado pode exigir horas de barco. Existem capitais onde o transporte público concentra milhares de pessoas por hora e localidades rurais em que as casas estão separadas por quilômetros de estrada de terra.
O desafio das pesquisas começa justamente aí: encontrar o Brasil. Para Samuel Nunes, um dos maiores obstáculos enfrentados pelos institutos é construir uma amostra capaz de refletir a diversidade social e territorial do país. Uma pesquisa nacional não precisa apenas ouvir eleitores. Precisa ouvir um conjunto de eleitores capaz de reproduzir, em escala reduzida, a composição da população brasileira.
Isso significa considerar uma combinação de fatores que vai muito além da geografia. Idade, sexo, renda, escolaridade, ocupação, religião, localização urbana ou rural e acesso à informação entram na equação. O objetivo é fazer com que uma pequena parcela da população reproduza, em escala reduzida, as características do conjunto.
É uma tarefa que lembra a tentativa de condensar o Brasil em miniatura. Quando um instituto anuncia ter entrevistado duas mil pessoas, o número costuma provocar estranheza. Como duas mil entrevistas poderiam representar mais de 150 milhões de eleitores? A resposta está menos na quantidade de entrevistados do que na forma como eles são selecionados.
A lógica estatística funciona de maneira contraintuitiva. Uma amostra construída com critérios rigorosos pode oferecer resultados mais confiáveis do que dezenas de milhares de respostas obtidas de forma aleatória. É por isso que pesquisas realizadas por meio de formulários abertos na internet, por exemplo, frequentemente reúnem muito mais participantes do que os levantamentos eleitorais tradicionais.
O problema é que quantidade não garante precisão. Sem mecanismos de seleção e controle, esses levantamentos tendem a desenhar um retrato distorcido de quem está disposto a responder, e não necessariamente do eleitorado brasileiro.
O critério decisivo não é quantas pessoas são ouvidas, mas quão bem elas representam o conjunto da população. A dificuldade aumenta porque as desigualdades brasileiras não são apenas econômicas. Elas também são territoriais. Em algumas regiões, a população está concentrada em grandes centros urbanos. Em outras, encontra-se dispersa por extensas áreas rurais. Existem localidades onde praticamente todos os moradores possuem telefone celular e acesso à internet. Em outras, a conectividade continua limitada ou instável.
Essas diferenças influenciam diretamente a forma como as pesquisas são realizadas. Uma metodologia que funciona bem em áreas metropolitanas pode encontrar obstáculos em regiões mais isoladas. Da mesma forma, um modelo baseado exclusivamente em entrevistas online pode captar com eficiência determinados segmentos sociais e ter mais dificuldade para alcançar outros. Por isso, os institutos precisam ajustar constantemente seus métodos para evitar que partes da população sejam ouvidas em excesso enquanto outras permaneçam sub-representadas.
Há ainda um desafio menos visível: o da disposição para responder. Nas últimas décadas, pesquisadores perceberam mudanças importantes no comportamento dos entrevistados. Em grandes cidades, tornou-se mais difícil abordar pessoas nas ruas. O aumento da insegurança reduziu a receptividade a desconhecidos. As ligações telefônicas passaram a competir com o volume crescente de chamadas automáticas e tentativas de golpe. Na internet, por sua vez, a atenção do usuário é disputada por uma quantidade praticamente infinita de conteúdos.
Encontrar o eleitor tornou-se mais difícil justamente quando compreender o eleitor passou a ser mais importante. Talvez por isso as pesquisas contemporâneas dependam cada vez mais de um equilíbrio delicado entre estatística, tecnologia e conhecimento do território. Não basta dominar fórmulas matemáticas ou softwares de análise de dados. É preciso compreender como vivem as pessoas que compõem a amostra e quais obstáculos existem entre elas e o pesquisador.
No fundo, toda pesquisa nacional enfrenta uma ambição quase impossível: traduzir um país de dimensões continentais em algumas páginas de tabelas e gráficos. Quando funciona, o resultado impressiona. Milhares de municípios, milhões de trajetórias individuais e uma diversidade imensa de experiências sociais passam a caber em percentuais aparentemente simples.
Mas essa simplicidade é enganosa. Por trás de cada número divulgado existe um esforço permanente para representar um país que resiste, o tempo todo, a ser resumido.
A disputa das metodologias
Durante muito tempo, as pesquisas presenciais foram tratadas como uma espécie de aristocracia dos levantamentos eleitorais. O ritual era conhecido. Pesquisadores percorriam ruas, bairros e municípios carregando questionários e pranchetas. Batiam de porta em porta, abordavam pessoas em praças, pontos de ônibus e áreas comerciais. O eleitor era encontrado no mundo físico, e era ali que sua opinião era registrada.
A lógica parecia simples: se o objetivo era conhecer o que pensa a população, o melhor caminho seria encontrá-la pessoalmente.
Durante décadas, esse modelo dominou o setor. Não apenas por tradição, mas porque o Brasil apresentava limitações tecnológicas que tornavam outras alternativas pouco viáveis. Em um país onde o telefone fixo era privilégio de poucos e a internet ainda não fazia parte da vida cotidiana, o contato presencial oferecia uma vantagem importante: permitia alcançar praticamente qualquer segmento social.
Mas o Brasil mudou. O eleitor que antes era encontrado na porta de casa passou a passar parte considerável do dia diante da tela de um celular. As conversas migraram para aplicativos de mensagens. As discussões políticas ganharam espaço nas redes sociais. A informação passou a circular em velocidade muito superior àquela que caracterizava as campanhas de décadas anteriores.
Os institutos perceberam que o comportamento do eleitor estava mudando e que os métodos de pesquisa precisariam acompanhar essa transformação. Nos últimos anos, levantamentos realizados pela internet deixaram de ser uma experiência periférica para se tornar um dos temas mais debatidos do setor. Institutos especializados em coleta digital passaram a registrar desempenhos expressivos em algumas disputas eleitorais, alimentando uma discussão que continua longe do consenso.
A promessa é atraente. Em vez de mobilizar centenas de entrevistadores espalhados pelo país, uma pesquisa online pode reunir milhares de respostas em poucos dias. Os custos são menores, a velocidade é maior e a capacidade de atualização é praticamente instantânea. Enquanto uma pesquisa presencial pode levar vários dias entre coleta, processamento e divulgação, um levantamento digital consegue acompanhar oscilações de opinião quase em tempo real.
Mas toda inovação cobra seu preço. Se o entrevistador presencial enfrentava o desafio de percorrer grandes distâncias para alcançar determinados grupos sociais, a pesquisa online esbarra em outro problema: nem todos os brasileiros vivem a mesma realidade digital.
Segundo Samuel Nunes, fatores como renda, escolaridade, faixa etária e localização geográfica continuam influenciando diretamente quem está mais ou menos presente no ambiente virtual. Embora a internet tenha se expandido de forma acelerada nos últimos anos, o acesso permanece desigual. Em algumas regiões, a conexão é instável. Em outras, o uso da rede acontece quase exclusivamente por meio de telefones celulares com planos limitados. Há ainda diferenças importantes entre gerações e grupos sociais.
A consequência é evidente. Uma pesquisa realizada exclusivamente pela internet corre o risco de ouvir com mais intensidade determinados segmentos da população e sub-representar outros.
É justamente nesse ponto que a discussão metodológica se torna menos ideológica e mais técnica. A pergunta não é se a pesquisa presencial é melhor do que a digital, ou vice-versa. A questão é saber se o método escolhido consegue reproduzir, de forma equilibrada, a diversidade da população que pretende representar.
Na prática, cada modalidade carrega suas próprias vulnerabilidades. Pesquisas presenciais enfrentam custos elevados, exigem logística complexa e dependem do trabalho de entrevistadores espalhados por diferentes regiões do país. As telefônicas sofrem com a queda das taxas de resposta e com a crescente resistência das pessoas a atender números desconhecidos. Já as pesquisas online precisam lidar com os desafios de cobertura digital e com mecanismos sofisticados para evitar distorções na composição da amostra.
Para Nunes, não existe uma metodologia universalmente superior. O que existe são metodologias mais adequadas para determinados contextos, públicos e objetivos de pesquisa. Uma técnica que funciona bem em grandes centros urbanos pode apresentar limitações em regiões com menor conectividade. Um método eficiente para medir hábitos de consumo pode não ser o mais indicado para captar comportamentos eleitorais.
O futuro, ao que tudo indica, não pertence a uma única metodologia. Pertence à combinação delas. Cada vez mais, os institutos caminham para modelos híbridos que cruzam entrevistas presenciais, contatos telefônicos e coleta digital. É uma tentativa de reunir as vantagens de diferentes abordagens enquanto se reduz suas fragilidades.
No fundo, a disputa metodológica revela algo maior do que uma divergência técnica. Ela expõe uma questão que acompanha as pesquisas desde sua origem: como encontrar um eleitor que está sempre mudando? As tecnologias evoluem, os questionários são reformulados e os métodos se adaptam. O eleitor também. O desafio permanece o mesmo: transformar milhões de vozes espalhadas por um país continental em um retrato que faça sentido.
O país das certezas e das margens de erro
As pesquisas eleitorais talvez sejam uma das poucas instituições brasileiras capazes de desagradar simultaneamente a vencedores e derrotados. Em quase toda disputa recente, algum candidato, partido ou grupo político encontrou motivos para desconfiar dos números. Quando os resultados coincidem com as expectativas, são apresentados como prova da robustez da ciência estatística. Quando apontam numa direção inconveniente, tornam-se suspeitos de manipulação.
Não é preciso recorrer a episódios distantes. Nesta semana, o Tribunal Superior Eleitoral suspendeu liminarmente a divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel após um pedido do PL. O partido argumentou que determinadas perguntas do questionário, relacionadas ao senador Flávio Bolsonaro e ao Banco Master, poderiam induzir respostas negativas dos entrevistados e, consequentemente, contaminar os resultados sobre intenção de voto e rejeição. A empresa respondeu afirmando que o levantamento seguia as normas da Justiça Eleitoral e que as questões buscavam apenas aferir percepções dos eleitores sobre temas já presentes no debate público.
Independentemente do desfecho jurídico, o episódio ilustra uma característica recorrente da política contemporânea: a disputa não acontece apenas entre candidatos. Ela também se trava em torno dos instrumentos que medem a disputa. Os institutos deixaram de ser vistos apenas como observadores e passaram a ocupar, eles próprios, o centro do palco.
Marcelo Gaudio lembra que as pesquisas sempre despertaram desconfiança. A novidade não está na crítica, mas na sua escala. Houve um tempo em que candidatos contrariados telefonavam para redações ou reclamavam nos bastidores dos partidos. Agora, as contestações chegam instantaneamente a milhões de pessoas. As redes sociais encurtaram a distância entre a insatisfação de uma campanha e os eleitores. No caminho, argumentos técnicos costumam perder espaço para versões mais simples e emocionalmente eficazes.
Há uma razão estrutural para isso. Pesquisas trabalham com probabilidades, amostragens, margens de erro e intervalos de confiança. São instrumentos concebidos para lidar com incertezas. As redes sociais, ao contrário, recompensam afirmações categóricas, respostas simples e convicções absolutas. Entre a explicação estatística e a acusação de fraude, a acusação costuma ser mais curta, mais emotiva e mais fácil de compartilhar.
O resultado é um paradoxo. Nunca se produziram tantos dados sobre o comportamento eleitoral dos brasileiros. Ao mesmo tempo, nunca houve tanta disputa sobre a legitimidade desses mesmos dados. As pesquisas continuam tentando compreender o que pensam os eleitores. Mas, cada vez mais, precisam também defender a própria existência no debate público.
O retrato e o espelho
Na véspera da eleição para a Prefeitura de São Paulo, em 1985, Fernando Henrique Cardoso já parecia pronto para assumir o cargo. As pesquisas do Instituto Gallup indicavam uma disputa apertada, mas favorável ao senador do PMDB.
A confiança era tanta que ele aceitou posar para fotógrafos sentado na cadeira do prefeito, no gabinete municipal. A imagem serviria para ilustrar uma vitória que parecia iminente. No dia seguinte, porém, as urnas contaram outra história. Jânio Quadros venceu a eleição com 39,3% dos votos válidos, contra 35,8% de FHC. Meses depois, num gesto de teatralidade que lhe era característico, convocou a imprensa para assistir à desinfecção da cadeira ocupada antecipadamente pelo adversário.
O episódio atravessou décadas como uma das cenas mais emblemáticas da política brasileira. Não porque tenha revelado uma falha espetacular das pesquisas, mas porque condensou uma expectativa recorrente numa sociedade habituada a tratar a política como uma disputa de torcidas: a de que os levantamentos eleitorais sejam capazes de antecipar o futuro. Não são. Pesquisas registam opiniões, preferências e tendências existentes no momento em que são realizadas. Funcionam como uma fotografia de um instante, não como uma profecia.
Ainda assim, os números raramente permanecem confinados às planilhas dos institutos. Quando divulgados, passam a circular pelo sistema político e produzem efeitos concretos. Candidatos que aparecem em ascensão atraem apoios, recursos e espaço na imprensa. Os que surgem em situação desfavorável enfrentam mais dificuldades para mobilizar militantes e financiadores. Eleitores reconsideram estratégias de voto. Partidos recalculam alianças. O mercado financeiro interpreta cenários. Em torno de cada percentual forma-se uma cadeia de expectativas.
Nenhum coordenador de campanha ignora uma pesquisa desfavorável. Um candidato que perde apoio entre mulheres passa a rever discursos. Outro que cresce entre jovens redireciona recursos para as redes sociais. Em algumas disputas, uma variação de poucos pontos percentuais é suficiente para alterar agendas, redefinir prioridades e mudar o tom da comunicação. A pesquisa não escolhe os caminhos da campanha, mas frequentemente ajuda a indicar quais parecem mais promissores.
O futuro cabe na tela
As pesquisas eleitorais do futuro provavelmente serão mais digitais, mais rápidas e mais sofisticadas. Inteligência artificial, cruzamento de grandes bases de dados, plataformas online e sistemas automatizados de coleta já começam a transformar um setor que, durante décadas, dependeu de entrevistadores percorrendo ruas, bairros e cidades em busca de respostas.
A velocidade dessa transformação acompanha a própria mudança da sociedade brasileira. Se, no passado, a principal dificuldade dos institutos era chegar fisicamente aos eleitores espalhados por um território continental, hoje o desafio é compreender uma população que passa cada vez mais tempo conectada. Redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de vídeo tornaram-se parte do ambiente onde preferências, opiniões e posicionamentos políticos se formam e circulam.
Isso não significa que as pesquisas tradicionais estejam com os dias contados. Ao contrário. Especialistas apontam que o futuro será marcado pela combinação de diferentes metodologias. Pesquisas presenciais, telefónicas e online deverão coexistir, cada uma alcançando segmentos distintos da população. Em vez de substituição, o cenário aponta para a convivência entre modelos.
A própria expansão das pesquisas digitais trouxe novos desafios. Embora o acesso à internet tenha crescido significativamente no país, ele continua distribuído de forma desigual. Persistem diferenças importantes entre regiões, faixas etárias, níveis de renda e escolaridade. Em muitas periferias urbanas e áreas rurais, a conectividade ainda limita o alcance de levantamentos realizados exclusivamente no ambiente online.
Por isso, o principal desafio das pesquisas continua sendo menos tecnológico do que social. Não basta desenvolver ferramentas mais avançadas para coletar dados. É preciso garantir que consigam retratar um país marcado por profundas desigualdades econômicas, regionais e culturais.
No fundo, a pergunta permanece a mesma que mobiliza cientistas sociais, jornalistas, estrategistas de campanha e candidatos há décadas: como ouvir um país inteiro sem falar com todos os seus habitantes?
A resposta nunca foi simples. Nenhuma metodologia consegue capturar integralmente a complexidade de um país com as dimensões e as contradições do Brasil. Toda pesquisa envolve escolhas, recortes e margens de incerteza. Ainda assim, elas continuam sendo uma das ferramentas mais poderosas para compreender tendências coletivas antes que estas se transformem em resultados eleitorais.
Durante meses, candidatos, jornalistas, investidores e eleitores observam tabelas, gráficos e percentuais em busca de sinais sobre o que o país pensa. Cada nova divulgação produz análises, alimenta expectativas e reorganiza estratégias. Em certos momentos, parece que a eleição acontece primeiro nas planilhas e só depois nas urnas.
Mas chega o dia da votação. As planilhas fecham. Os modelos estatísticos silenciam. As projeções cedem lugar aos votos. Pela única vez em todo o processo eleitoral, a amostra desaparece e o país inteiro responde à mesma pergunta ao mesmo tempo. É quando as pesquisas deixam de estimar a vontade popular e as urnas passam a revelá-la.