Lobistas conservadores propõem monitoramento do aborto no SUS
Instituto busca influenciar nas eleições para os cargos executivos com propostas de planos de governos. Suas diretrizes caminham para restrição dos direitos reprodutivos e ampliação da criminalização do aborto
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
Via Outras Palavras
Uma organização de lobby antiaborto tem apresentado a pré-candidatos à presidência da República propostas de plano de governo que restringem direitos reprodutivos. O Instituto Isabel divulgou a entrega do documento com suas diretrizes a Flávio Bolsonaro (PL) e a Romeu Zema (NOVO). Em publicação recente, a organização Sleeping Giants Brasil denunciou a movimentação, articulada com deputados da extrema-direita e think tanks conservadores.
A proposta entregue aos futuros presidenciáveis conservadores busca dificultar significativamente o aborto legal no Brasil – já considerado pouco acessível por amplo número de especialistas. Mais etapas seriam exigidas e a privacidade da mulher ou criança a passar pelo procedimento, posta em xeque.
Entre as exigências que o grupo elenca como políticas de saúde pública estão: um “protocolo federal obrigatório de verificação nos casos de aborto por alegação de estupro”, exigindo exame de corpo de delito das vítimas; e a exigência de notificação obrigatória a autoridades policiais e ao Ministério Público em casos de aborto por estupro realizados pelo SUS, “para apuração dos fatos e responsabilização criminal”.
Também se propõe a inclusão de materiais que informem supostos “riscos físicos e psicológicos do aborto” em programas de aborto legal e a criação de sistema nacional de registro e monitoramento dos procedimentos de interrupção da gravidez realizados no SUS.
A misoginia como política pública
O Outra Saúde, em matérias anteriores, cobriu casos como o do Hospital Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo. Este se tornou exemplo de como a violência contra as mulheres não é cometida apenas em nível individual, mas se entranha cada vez mais na adminsitração pública por meio de gestores conservadores.
Na ocasião, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), em nota enviada a este boletim, apontou que políticos como Ricardo Nunes preferem impor barreiras a meninas e mulheres vítimas de violência em vez de garantir seu atendimento.
Atualmente, na maior parte do país, mulheres e meninas já enfrentam verdadeiras provações para acessar seus direitos reprodutivos. Burocratizar e impor mais exigências a um procedimento que é simples e classificado como de baixo risco pela Organização Mundial da Saúde, além de garantido por lei, significa condená-las a uma revitimização ainda maior, de maneira que possivelmente não consigam realizá-lo.
Movimentos de extrema-direita, como o Instituto Isabel, já se esgueiram por dentro das instituições da política para levar à frente seu projeto. Figuras como Damares Alves, responsável pela mais recente derrota aos direitos reprodutivos, abrem as portas para esses ideais.
Como lembrou o médico pernambucano Olímpio Moraes em entrevista de 2024 a este boletim, “a maior parte dos atendimentos são de meninas vulneráveis. E elas não queriam nem a gravidez nem o aborto tardio. Elas são as mais vulneráveis, não podem ser punidas porque na verdade já foram punidas: já sofreram a violência do estupro, da gravidez fruto desse crime, da falta de acesso ao aborto legal, do acesso tardio ao aborto”.