Superman, o imigrante que virou estadunidense
Superman

Superman, o imigrante que virou estadunidense

Da criança enviada de Krypton ao símbolo dos Estados Unidos, a trajetória do herói ajuda a pensar as contradições de uma sociedade construída pela imigração

Vanderlei Tenório 19 set 2026, 13:25

Foto: Reprodução

Antes de se tornar um dos maiores símbolos dos Estados Unidos, Superman chegou à América como alguém que não pertencia àquele lugar. Era uma criança enviada de um planeta condenado, encontrada por uma família que decidiu criá-la como filho. Quando Jerry Siegel e Joe Shuster publicaram a primeira história do personagem, em 1938, dificilmente poderiam imaginar a dimensão que aquela origem adquiriria nas décadas seguintes. Os dois eram filhos de imigrantes judeus e criaram Superman enquanto o nazismo avançava pela Europa. O herói que viria a representar uma certa ideia de América começava, portanto, como estrangeiro.

No novo filme dirigido por James Gunn, essa característica ganha uma dimensão visível. O realizador apresenta um Superman menos interessado no excepcionalismo americano e mais preocupado com uma moralidade que não reconhece fronteiras nacionais. O personagem protege pessoas que não conhece, mesmo quando isso o coloca em conflito com interesses políticos. Gunn descreveu o filme como político e associado também à ideia de bondade humana. A reação de setores da direita americana, que acusaram o longa de promover uma agenda “woke”, recolocou o personagem diante de uma questão que a sua própria origem já continha: o que acontece quando alguém vindo de fora passa a ser considerado parte de uma sociedade?

Superman não atravessa uma fronteira com documentos, filhos, bagagem ou autorização de entrada. Vem numa nave. A ficção científica altera os detalhes, mas preserva a estrutura de uma história migratória. Kal-El nasce em Krypton, um planeta condenado. Os pais sabem que não poderão salvá-lo e decidem enviá-lo para outro mundo. A criança chega sozinha à Terra e é encontrada pelos Kent, que a criam como filho. Clark Kent passa a ser o nome usado por alguém cuja origem está em outro planeta.

A fantasia torna extraordinária uma experiência que acompanha milhões de pessoas que deixam o país onde nasceram. É preciso aprender uma língua, compreender costumes, adaptar-se a instituições e reconstruir relações. Clark, porém, dispõe de um privilégio que poucos migrantes têm: consegue ocultar a própria origem. Ninguém questiona de onde veio, se pode trabalhar ou se tem direito a permanecer. A integração parece completa porque ninguém sabe que existe uma história anterior.

Na vida real, essa história costuma acompanhar a pessoa durante muito mais tempo.

O estrangeiro por trás da bandeira

A criação de Superman ocorreu em um período em que a Europa caminhava para a guerra. Siegel e Shuster eram filhos de famílias judias e pertenciam a uma geração que conhecia a experiência da imigração. O personagem surgiu em 1938, quando a perseguição aos judeus europeus já havia adquirido uma dimensão que, poucos anos depois, desembocaria no Holocausto.

A fuga de Krypton ganha outra leitura quando observada a partir desse contexto. O planeta não oferece mais condições para a sobrevivência de seu povo, e os pais de Kal-El precisam decidir pelo filho. A criança não escolhe partir. A decisão pertence aos adultos que tentam salvá-la.

É importante não transformar essa comparação em uma equivalência histórica. Superman é uma obra de ficção, e a linguagem contemporânea sobre refugiados e deslocamentos forçados não existia nos mesmos termos quando o personagem foi criado. Ainda assim, a estrutura permanece reconhecível: uma família diante de uma ameaça, uma criança que abandona o lugar onde nasceu e uma comunidade estrangeira que decide recebê-la.

A identidade de Kal-El não se encerra na origem; ela também se forma na vida que constrói na Terra. Ele não passa a vida tentando reconstruir Krypton. Cresce na Terra, adota costumes humanos, constrói relações e passa a agir em defesa da sociedade que o recebeu. O passado permanece, mas deixa de determinar sozinho quem ele é.

A relação com os Estados Unidos torna essa história ainda mais contraditória. A imigração ocupa um lugar central na formação do país, mas a mesma sociedade que construiu sua identidade sobre a imagem de uma terra aberta a quem chega também criou leis de exclusão e restrições contra determinados grupos. A contradição não pertence apenas ao passado. Continua presente na forma como o país decide quem pode entrar, quem pode permanecer e quem pode ser considerado parte da comunidade nacional.

Os números ajudam a dimensionar essa tensão. Em janeiro de 2025, os Estados Unidos tinham 53,3 milhões de imigrantes, o maior número já registrado. Eles representavam 15,8% da população, também uma proporção recorde. Nos meses seguintes, porém, a população nascida no estrangeiro caiu para 51,9 milhões, em junho, uma redução de mais de 1 milhão de pessoas. A queda marcou a primeira redução da população imigrante desde a década de 1960. O Pew Research Center observa que o movimento está relacionado ao aumento das deportações e à saída voluntária de imigrantes, embora também possa haver influência de alterações técnicas na pesquisa.

Mesmo depois da queda, os imigrantes correspondiam a 15,4% dos residentes nos Estados Unidos. Sua presença é ainda mais visível no mercado de trabalho: em junho de 2025, representavam 19% da força de trabalho, embora a proporção tivesse recuado dos 20% registrados em janeiro. Em 2023, quando havia dados completos por situação migratória, cerca de 33 milhões de imigrantes faziam parte da força de trabalho americana, incluindo aproximadamente 23 milhões de imigrantes em situação regular e 10 milhões sem autorização.

A dimensão dessa presença ajuda a desmontar uma ideia recorrente no debate público americano: a de que o imigrante é alguém que está simplesmente à espera de ser incorporado à sociedade. Milhões já estão incorporados ao funcionamento cotidiano do país. Trabalham, pagam impostos, frequentam escolas, constituem famílias e, em muitos casos, tornam-se cidadãos. Em 2024, cerca de 818.500 imigrantes adquiriram a cidadania americana por naturalização. Em 2023, quase metade dos imigrantes nos Estados Unidos, 46%, já eram cidadãos naturalizados.

Vista por esse ângulo, a identidade americana parece menos evidente do que costuma parecer. A fronteira pode distinguir quem nasceu dentro ou fora do território, mas a vida social produz categorias mais complexas. Uma pessoa pode nascer no exterior, tornar-se cidadã, trabalhar durante décadas no país e continuar a ser tratada como estrangeira. Outra pode nascer nos Estados Unidos e crescer em uma família cuja história começou em outro lugar. Em 2024, os imigrantes representavam cerca de 15% da população americana, enquanto os americanos nascidos no país com pelo menos um progenitor imigrante acrescentava outros 13%.

Superman nasce fora da América e, ainda assim, transforma-se em um dos seus maiores símbolos culturais. Sua legitimidade não vem de ter chegado primeiro, mas da vida que constrói depois de chegar.

A imigração costuma ser discutida a partir da fronteira: quem entra, por onde entra, com quais documentos e sob quais condições. Menos atenção recebe o que vem depois. O que acontece quando a fronteira fica para trás?

Quando chegar não significa pertencer

No Brasil, essa questão ganhou uma dimensão maior nos últimos anos. Dados do Censo mostram que o número de imigrantes estrangeiros residentes no país passou de 592 mil, em 2010, para cerca de 1 milhão, em 2022, crescimento de 70,3%. A composição também mudou. Os latino-americanos passaram de 183 mil para 646 mil no mesmo período.

Venezuelanos, haitianos e cubanos tornaram-se grupos importantes na imigração recente. A presença estrangeira deixou de estar associada apenas às comunidades europeias e asiáticas que participaram da formação histórica do país. Hoje, aparece no cotidiano das cidades, das escolas e do mercado de trabalho.

São Paulo concentra parte expressiva desse fluxo migratório. Chegar a uma cidade com um mercado de trabalho amplo não significa conseguir ocupar nele um lugar estável. Dificuldades de documentação, barreiras linguísticas e preconceito podem limitar o acesso ao emprego formal.

O número de trabalhadores imigrantes no mercado formal brasileiro cresceu 54% entre 2023 e 2025, ultrapassando 414 mil vínculos. O crescimento demonstra uma incorporação significativa dessa população à economia, mas não significa igualdade de condições.

O Observatório das Migrações Internacionais aponta que muitos imigrantes com formação superior trabalham abaixo da própria qualificação. Diplomas não reconhecidos e barreiras institucionais podem fazer com que anos de formação percam valor depois da mudança de país. Entre trabalhadores domésticos, a vulnerabilidade é ainda maior: em 2024, 78,8% dos migrantes ocupados no setor estavam sem carteira assinada.

A situação muda quando o migrante é criança. Entre 2010 e 2024, o número de estudantes imigrantes matriculados na educação básica brasileira passou de 41.916 para 224.924, aumento de 437%. A matrícula garante acesso, mas não resolve questões de idioma, adaptação pedagógica e integração social.

O crescimento de 18,6% no número de crianças e adolescentes migrantes de até 17 anos cadastrados no CadÚnico entre 2023 e 2024 mostra ainda que parte dessas famílias vive em situação de vulnerabilidade econômica.

A experiência migratória, portanto, não se encerra quando alguém recebe autorização para entrar. Ela continua no emprego, na escola e nos serviços públicos. É nesse espaço cotidiano que direitos previstos em lei podem encontrar obstáculos que a legislação, sozinha, não resolve.

O Brasil tinha mais de 2 milhões de imigrantes internacionais entre residentes, temporários, refugiados e solicitantes de reconhecimento da condição de refugiado, segundo os dados mais recentes do Observatório das Migrações Internacionais. São pessoas de cerca de duzentas nacionalidades distribuídas pelo território.

Nos Estados Unidos, a discussão assumiu uma forma particularmente dura. Em 2025, a administração de Donald Trump ampliou as medidas de controle migratório e deportação. Nos seus primeiros cem dias de volta à Casa Branca, foram adotadas 181 medidas executivas relacionadas à imigração, segundo o Migration Policy Institute citado pelo Pew. O impacto já aparecia na redução da população imigrante, sobretudo entre pessoas sem autorização de permanência.

A política migratória passou, assim, a produzir uma pergunta que parece diferente daquela colocada pela história de Superman, mas é, na verdade, bastante próxima: em que momento alguém deixa de ser um recém-chegado e passa a ser parte da sociedade? A resposta não está apenas no documento que recebe, na fronteira que atravessa ou na cidadania que eventualmente conquista. Está também na disposição de uma comunidade para reconhecer como seus aqueles que chegaram depois.

O império das cercas e o duplo de Krypton

Afinal, o que o espelho de Krypton reflete sobre o nosso tempo não é a benevolência de uma pátria acolhedora, mas a violência estrutural da linha que separa o cidadão legítimo do “intruso”. Quando setores conservadores rotulam a moralidade desvinculada de fronteiras de James Gunn como subversiva ou “woke”, eles expõem o pânico político diante de uma premissa básica: o verdadeiro humanismo é radicalmente incompatível com o nacionalismo chauvinista.

Para a engrenagem do capitalismo global, o imigrante é sistematicamente reduzido a uma mercadoria de uso — uma força de trabalho altamente produtiva, barata, flexível e descartável. Seja nos subempregos precarizados dos grandes centros urbanos norte-americanos ou nas redes de exploração e informalidade de São Paulo, o sistema econômico e social depende visceralmente do suor estrangeiro.

No entanto, essa mesma economia política cospe o trabalhador assim que ele reivindica estabilidade, seguridade social ou direitos políticos plenos. A barreira jurídica não existe para impedir a entrada da força de trabalho, mas para mantê-la permanentemente vulnerável e subordinada.

A grande ironia histórica do mito de Superman é que a cultura de massa precisa recorrer a um alienígena dotado de superpoderes físicos para validar o direito à existência de quem cruza fronteiras. No mundo real, desprovido de invulnerabilidade atômica ou de um disfarce conveniente de óculos e terno em Metropolis, o migrante não tem o privilégio de apagar a própria pele, o sotaque ou a história. Ele é permanentemente vigiado pelo Estado penal, algemado por burocracias kafkianas e empurrado para os porões da cidadania de segunda classe.

Se a trajetória do herói de Krypton nos ensina algo sobre a geopolítica contemporânea, é que o pertencimento real jamais será uma concessão generosa de governos ou passaportes carimbados; ele é construído no conflito cotidiano, no trabalho coletivo e na solidariedade de classe. Enquanto as fronteiras nacionais continuarem a funcionar como filtros de exclusão e muros de morte, a humanidade seguirá aprisionada sob a lógica do capital, e o imigrante continuará sendo tratado como um eterno estrangeiro em uma nave que nunca tem o direito de pousar.

A espetacularização da crise migratória cumpre, portanto, um papel funcional inestimável para os Estados nacionais. Ao transformar o deslocamento humano em uma questão de “segurança nacional” ou de “ameaça cultural”, os governos ocidentais desviam o foco das crises estruturais geradas pelo próprio imperialismo e pela voracidade do capital financeiro.

A retórica do medo e da contensão de fronteiras serve para mascarar a exploração econômica desenfreada e a degradação ambiental que forçam populações inteiras a abandonarem seus territórios de origem. O inimigo externo é fabricado minuciosamente para justificar o endurecimento de leis de controle interno, a militarização das divisas territoriais e o desmonte progressivo das liberdades democráticas da classe trabalhadora como um todo.

Nesse cenário de cercas erguidas e direitos suspensos, a figura do imigrante assume a condição de um sintoma incontornável da falência do projeto liberal. Ela expõe, com crueza, a hipocrisia de ordens jurídicas que proclamam a universalidade abstrata dos direitos humanos enquanto os restringem, na prática, aos limites estritos do passaporte e da nacionalidade de nascimento.

A emancipação real, por conseguinte, não virá da caridade de benfeitores mascarados ou de reformas institucionais cosméticas, mas da ruptura radical com essa lógica de exclusão.

Apenas quando a humanidade puder se reconhecer para além das fronteiras arbitrárias dos Estados é que a travessia deixará de ser um ato de sobrevivência clandestina para se transformar, enfim, no direito inalienável de habitar o mundo.


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