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Sopram ventos de resistência no coração do capitalismo

Após oito anos os democratas retomaram o controle da Câmara dos Representantes.

Reprodução Facebook
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As eleições que ocorreram nesta terça-feira, dia 6 de novembro, nos Estados Unidos expressaram a dimensão do descontentamento com o governo Trump e suas políticas. Após oito anos os democratas retomaram o controle da Câmara dos Representantes, equivalente à nossa Câmara dos Deputados, com 219 congressistas eleitos. O tombo foi grande para os aliados de Trump: passaram de 237 para 193 parlamentares.

No Senado os republicanos mantiveram a maioria, e isso garante alguma folga para o presidente em meio ao furacão que atingiu a Casa Branca nestas midterms. Sem maioria em ambas as casas, dificilmente os democratas conseguirão levar adiante um pedido de impeachment de Trump, mas possuem força o bastante para barrar projetos cruciais para o presidente. Assim saem enfraquecidas a ideia estapafúrdia de construir um muro na fronteira com o México e a intenção de liquidar totalmente qualquer migalha de assistência pública na área da saúde.

Não apenas as prioridades de Trump viram pó, como se fortalece o polo exatamente oposto a elas. O sistema bipartidário nos Estados Unidos não é oficial. Existem, registrados, centenas de partidos políticos. Mas na prática apenas os candidatos democratas e republicanos conseguem chegar ao poder. É evidente que ambas as siglas possuem divergências, algumas bastante profundas. Mas também está cristalina a convergência de uma cúpula democrata com a agenda republicana, com a defesa de um sistema político e econômico excludente, numa aliança umbilical com a elite financeira de Wall Street.

Isso começa a mudar a partir de agora. Ainda é muito cedo para afirmar que a hegemonia centrista do Partido Democrata está frontalmente ameaça. Mas os alicerces que a sustentam já começam a dar sinais de ruína. E no centro deste terremoto estão os socialistas democráticos.

Os Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês) são a organização de esquerda que mais cresce no país. Desde a eleição de Donald Trump, já passaram de 5 mil para 52 mil membros. Foram sem dúvida os grandes vitoriosos destas midterms e seus resultados ajudam a empurrar o Partido Democrata para a esquerda, contra a vontade de seu establishment.

A maior expressão da vitória do DSA nestas eleições é Alexandria Ocasio-Cortez, a mulher mais jovem a conquistar uma cadeira na Câmara dos Representantes. Alexandria é uma representante legítima da classe trabalhadora norte-americana. Com 29 anos, a jovem garçonete latina do Bronx transforma-se em uma das figuras centrais da luta por uma renovação no Partido Democrata.

Além disso, outros candidatos que não são diretamente vinculados ao DSA, mas que foram apoiados pelos socialistas democráticos, saíram vitoriosos no Congresso e nos parlamentos estaduais. Além de candidaturas que não necessariamente se alinham à esquerda do Partido Democrata, mas que representam uma renovação fundamental na Câmara dos Deputados. Numa época em que Trump transforma imigrantes em inimigos e nega direitos às minorias, a eleição de deputados muçulmanos, LGBTs, latinos e indígenas abre um importante flanco de resistência.

Assim os Estados Unidos terão o primeiro governador homossexual, com a eleição do democrata Jared Polis no Colorado. As democratas Deborah Haaland e Sharice Davids se consagraram como as primeiras representantes indígenas no Congresso, algo inédito na história do país. Sharice ainda leva consigo a representatividade de ser uma mulher indígena e lésbica.

Outra vitória importante foi a eleição de Rashida Tlaib e Ilhan Omar, as primeiras muçulmanas a se tornarem deputadas federais. Rashida é filha de imigrantes palestinos e conquistou sua vitória em Michigan. E Ilhan Omar é de origem somali, tendo fugido com sua família da guerra na Somália, passando a viver quatro anos em um campo de refugiados no Quênia para então chegar aos Estados Unidos quando tinha apenas 12 anos.

Os ventos de resistência que sopram no coração do capitalismo servem de inspiração para o Brasil e mostram que, mesmo em tempos sombrios, há espaço para resistência. Após dois anos de experiência com o governo Trump, os americanos deram um forte recado nas urnas em rechaço às políticas do presidente. O resultado das eleições fortalece a luta por um salário-mínimo justo, por um sistema de saúde público e universal, pela gratuidade no ensino superior e por uma política migratória acolhedora, que não criminalize as minorias.

Artigo originalmente publicado no portal Sul21.

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Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

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