O caso Anthropic e quem realmente governa a IA

O caso Anthropic e quem realmente governa a IA

Gigante que defendia regras rígidas no setor afrouxou segurança e caiu no próprio fosso regulatório que tentou impor. Bloqueio determinado por Washington ao resto do mundo acende novamente alarme para Sul global desenvolver sua própria tecnologia

James Görgen 21 jun 2026, 15:15

Publicado em OutrasPalavras

Na noite de sexta-feira, 12 de junho, a Anthropic recebeu uma carta do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, assinada pelo secretário Howard Lutnick. Em nome da segurança nacional, o governo determinava a suspensão de todo acesso aos seus dois modelos mais poderosos, o Fable 5 e o Mythos 5, por qualquer estrangeiro, dentro ou fora do país, incluindo os próprios funcionários não americanos da empresa. Para cumprir a ordem, a Anthropic teve de desligar os dois modelos para todos os seus clientes no mundo. O Fable 5 havia sido liberado três dias antes, de graça, a milhões de assinantes. A companhia acabara de protocolar a sua abertura de capital. E o motivo de tudo, segundo a própria empresa, foi uma técnica estreita de driblar as salvaguardas do modelo, que apenas expõe falhas menores e já conhecidas, encontráveis também em modelos concorrentes e abertos.

O momento é impiedoso. Nas últimas semanas, a Anthropic havia publicado três documentos pedindo, entre outras coisas, que o Estado tivesse autoridade legal para bloquear a implantação de modelos perigosos. Poucos dias depois, foi o Estado que bloqueou os modelos dela. O poder de bloqueio que a empresa queria entregar a Washington voltou-se contra quem o ofereceu e a companhia protesta agora invocando exatamente os princípios de transparência, justiça e fundamento técnico que o seu próprio arcabouço prometia e que esta ordem ignora. É difícil imaginar ilustração mais limpa do argumento que esses textos tentavam disfarçar. Convém, então, voltar a eles.

Os três documentos

Há um gesto que se repete sempre que uma tecnologia se torna grande demais para ser ignorada. A empresa que lidera a corrida toma a frente e propõe, ela mesma, as regras do jogo. Sob a marca política para o salto da IA, a Anthropic publicou um texto voltado à segurança, que defende dar aos governos o poder de bloquear modelos de risco catastrófico, mas só para empresas acima de certo porte, e um segundo, sobre o trabalho, que diante da hipótese de a IA substituir a mão de obra humana propõe respostas graduadas por nível de desemprego, até chegar a renda básica e fundos soberanos no cenário extremo.

Semanas antes, num manifesto, pedira que os grandes laboratórios criassem um mecanismo coordenado para pausar o desenvolvimento caso a IA passasse a se aprimorar sozinha rápido demais. A constatação que abre os três é correta, a de que a política regulatória foi feita para um mundo mais lento. O problema é quem se apresenta para corrigi-la. Quando quem cava o fosso para se separar dos concorrentes menores é também o maior proprietário do terreno que ele isola, convém olhar duas vezes onde a vala é aberta e quem fica de cada lado dela.

A recepção crítica aos textos da empresa já vinha se formando antes mesmo da publicação da diretiva. O ex-responsável pelas diretrizes de IA na Casa Branca, David Sacks, classificou a postura da empresa como captura regulatória baseada no fomento do medo e o então cientista-chefe de IA da Meta, Yann LeCun, disse que a estratégia visava regular os modelos abertos até a extinção. Um ensaio descreveu o regime de auditorias como um fosso regulatório que os gigantes absorvem e os pequenos não.

Mas o episódio da sexta-feira parece dar a essas vozes um capítulo novo, que uma análise contundente já chamava de captura estratégica. Não é a empresa que captura o Estado: é o Estado que captura a empresa cuja tecnologia se tornou crítica. Washington obtém por meio de compras públicas, controles de exportação e designações de segurança o que Pequim obtém por lei e propriedade estatal. O resultado é uma convergência funcional com o modelo chinês alcançada por outro caminho.

Convém, porém, não simplificar a história. Uma reconstituição do Politico revela um quadro mais áspero do que a captura “tranquila”. O alarme partiu da Amazon, que é ao mesmo tempo investidora da Anthropic e respondia a um pedido de avaliação do governo, e suas conclusões teriam passado pelo crivo da agência de segurança nacional. Vieram horas de ligações tensas com o alto escalão, e até as versões do desfecho divergem. O governo diz ter implorado que a empresa retirasse o modelo, ao passo que a Anthropic afirma ter recebido um ultimato de 90 minutos sem detalhes da ameaça, justamente o oposto do processo transparente e fundamentado que o seu próprio arcabouço exigia. Até David Sacks, ferrenho adversário da regulação, saiu em defesa do bloqueio e voltou contra a empresa a bandeira da segurança que ela mesma erguia.

O Washington Post foi além e revelou o pano de fundo que a falha apenas encerrou. Semanas antes, a Anthropic entregara ao governo uma lista de 111 organizações que receberiam acesso ao Mythos, e as autoridades a aprovaram. A lista depois cresceu por conta própria, com cerca de 50 entidades recebendo acesso sem constar dela, e a empresa demorou dias para identificar os novos nomes. Entre eles estava uma operadora de telecomunicações sul-coreana que o governo suspeitava de ter laços com a China. A Anthropic revogou o acesso e nega ter retido nomes, mas a confiança já estava arruinada, e o alerta da Amazon foi lido como o último de uma série de descuidos. Convém registrar que a Amazon que deu o alerta é investidora da Anthropic e que o presidente do seu conselho, Jeff Bezos, é dono do jornal que revelou o episódio.

Há, portanto, uma leitura concorrente e legítima, a de que isto foi fiscalização e não captura de mercado. As duas não se excluem, e nenhuma apaga o ponto que interessa a quem está de fora. Seja captura, seja fiscalização, foi um punhado de autoridades e de gigantes reunidos em Washington que decidiu, da noite para o dia, o que o resto do mundo poderia usar. A Anthropic cavou o fosso imaginando barrar concorrentes, sem perceber que a ponte levadiça que separava o fosso do castelo estava nas mãos do Estado, que pode mantê-la baixa para um rival bem relacionado, como a Amazon, ou erguê-la contra a própria empresa que o construiu, como já fizera ao rotulá-la risco à cadeia de suprimentos pelo Pentágono, ainda que seu modelo viesse sendo empregado em operações de guerra.

A proatividade que protege

Desde o ano passado, a empresa construiu a marca de empresa responsável do setor. Mas poucos meses antes afrouxou a própria política de escalonamento responsável, trocando pausas categóricas por uma abordagem flexível. Logo pediu uma pausa coordenada de todos no exato momento em que abandonava a sua própria. Pedir regras duras para todos enquanto se relaxam as suas é a contradição de fundo.

Some-se a isso a forma como a empresa administra o próprio discurso de risco. O Mythos foi retido do público como ofensivo demais e sua contagem de vulnerabilidades virou prova para justificar a regulação que a empresa propõe, ao mesmo tempo em que o projeto Glasswing distribuía o modelo a um conjunto selecionado de organizações de confiança, ao governo dos Estados Unidos, à OTAN e à agência europeia de cibersegurança, no que me parece um cultivo de dependência junto a quem decide as regras. Foi essa mesma lista de acesso que, como vimos, escapou ao controle da empresa. E o mesmo perigo acabou liberado ao público como Fable 5 às vésperas da abertura de capital. O que a empresa não previu é que o governo levaria o discurso do perigo a sério e recolheria o produto. Oficiais da Casa Branca disseram ter ficado perplexos ao ver Amodei, que já comparara os perigos da própria tecnologia a uma bomba nuclear, recusar-se a desligá-la diante de uma falha conhecida. Quem alardeia a ameaça para vender segurança não deveria se espantar quando o Estado decide tratá-la como ameaça de verdade.

A outra metade

Há ainda a outra metade do pacote, a que trata do trabalho, e que peca pela falta de ambição onde mais importa. No cenário de desemprego sem precedentes, a Anthropic admite não ter respostas e adia o financiamento, ao mesmo tempo em que reconhece, sem encarar a conclusão, que deslocar renda do trabalho para o capital encolhe a base fiscal. Encerra o documento com a frase mais reveladora do conjunto, a de que a sociedade dependerá, para se reerguer, inclusive de sistemas de IA cada vez mais capazes. Ou seja, a mesma tecnologia que produz o desemprego é convocada para curá-lo. Ao risco catastrófico, a empresa quer dar ao Estado poder coercitivo desde já. Ao desemprego oferece cenários e voluntariedade e os US$ 350 milhões anunciados financiarão pesquisa sobre políticas, não as políticas. A empresa que mais contribui para o problema se propõe a financiar o estudo da solução, não a solução em si.

Do lado de fora

O ângulo que mais importa é o que esses documentos deixam de fora e que a diretiva de sexta-feira ilumina de uma vez. Um regime de bloqueio concebido e operado a partir de Washington define quem pode rodar quais modelos, sem assento para as jurisdições afetadas. Não é mais hipótese. Quando o corte veio, o primeiro a ser desligado, antes de qualquer cliente estadunidense, foi o estrangeiro, e o critério foi a nacionalidade, não o risco. A comunidade de software livre já apontava a falha, porque um bloqueio centrado em laboratórios estadunidenses não alcança os modelos abertos, mas pode sufocar a alternativa aberta, justamente a via por onde países sem bilhões para investir entram na cadeia.

Que ninguém imagine ser um problema distante. O episódio atingiu também o Reino Unido, cujo ministro de IA reagiu tratando-o como caso de soberania tecnológica e a própria Comissão Europeia o classificou como mais uma ilustração de por que a Europa precisa de soberania tecnológica mais forte. Se até os aliados mais próximos são, para efeitos da carta, estrangeiros a serem cortados, e já leem o episódio como prova de que precisam dos próprios meios, o que dizer do Sul Global? O documento econômico reconhece que toda política de renda dependerá de infraestrutura pública digital, de identidade, pagamentos e intercâmbio de dados, uma base que Brasil e Índia construíram e que boa parte do Sul ainda persegue. Herdar um arcabouço pensado em Washington e Genebra é herdar os parâmetros de outra realidade fiscal e produtiva.

E o alarme não vem só de fora. Dentro dos próprios Estados Unidos, especialistas em cibersegurança, executivos e investidores assinaram uma carta pedindo a reversão da medida, e o ex-chefe de segurança do Facebook, Alex Stamos, classificou a punição como grotescamente desproporcional ao problema. O que eles temem é o mesmo que interessa a quem está de fora, o de que empresas do mundo inteiro passem a se perguntar se vale a pena construir sobre a IA americana sabendo que podem ser deixadas sem nada da noite para o dia.

O risco não está em a Anthropic estar errada, porque em muitos pontos ela está mais lúcida que seus concorrentes, e a forma abrupta como foi tratada pelo próprio governo merece crítica. O risco está em aceitarmos que os termos do debate sejam fixados por quem mais tem a ganhar com o formato deles e em sermos chamados apenas para referendá-los. Pode ser que, desta vez, o dono do fosso tenha agido por uma razão de segurança verdadeira, diante de um descuido real da empresa, e não por puro apetite de controle. Para quem ficou do lado de fora, no entanto, a lição não muda. A diretiva da semana passada mostrou que o fosso tem dono, e que o dono não é a empresa, é o Estado que a hospeda, com a mão na ponte levadiça. Quando ele a ergueu, deixou o estrangeiro do lado de fora e cortou o suprimento do próprio castelo que o fosso deveria proteger. Resta saber se quem ficou na margem de fora vai esperar a próxima vez que a ponte se levante ou se decide, enfim, construir a sua própria governança de IA.


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