Universidades Estaduais de SP em Greve! Unir, Lutar, Vencer!
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Universidades Estaduais de SP em Greve! Unir, Lutar, Vencer!

Um panorama da lutas das universidades estaduais em São Paulo

Vários Autores 1 jun 2026, 09:39

O mês de maio, marcado historicamente pela luta dos trabalhadores a partir do 1º de Maio, foi atravessado por uma crescente mobilização de estudantes e de diversas categorias no estado de São Paulo. Esse processo teve seu ponto alto no último dia 20, quando estudantes, docentes e servidores técnico-administrativos das universidades estaduais, metroviários, servidores da educação municipal e estadual, secundaristas e trabalhadores das companhias de água marcharam juntos em direção ao Palácio dos Bandeirantes, em defesa da educação pública, contra as privatizações e pelo fim da violência policial. Diferentes lutas e reivindicações passaram, assim, a se unificar em oposição ao governo bolsonarista de Tarcísio de Freitas.

As greves estudantis na USP, Unicamp e Unesp, que marcaram as últimas semanas, denunciam as graves condições alimentares nos restaurantes universitários e a insuficiência das bolsas de permanência para garantir que estudantes pobres consigam se sustentar durante a graduação. Trata-se de uma contradição abismal entre o renome dessas grandes universidades e a realidade vivida sobretudo pelos cotistas, estudantes pobres, negros e trabalhadores que passam a ocupar as estaduais. Ao mesmo tempo, os servidores públicos enfrentam ataques aos salários, aos planos de carreira, a ausência de novas contratações e o avanço da terceirização, que precariza os serviços públicos e abre caminho para a privatização. Essa política privatista se expressa nos acidentes fatais da Sabesp privatizada, nos metrôs superlotados, no agravamento da saúde mental dos trabalhadores e nas condições precárias enfrentadas por estudantes nas escolas e universidades. Por isso, trabalhadores de diversas categorias também vêm protagonizando grandes greves, e o movimento estudantil cumpriu um papel unificador dessas categorias.

Mais do que isso, o neoliberalismo combina a precarização das condições de trabalho, de estudo e dos serviços públicos com a repressão. O espancamento de estudantes da USP na madrugada do Dia das Mães e a ostensiva presença policial ao final da Marcha do dia 20, no Palácio dos Bandeirantes, revelam essa face repressiva de um governo que recorre a ilegalidades para manter a normalidade da precarização. Da mesma forma, as ações policiais nas estradas, parando ônibus de estudantes e trabalhadores que vinham do interior para a Marcha, buscaram intimidar os manifestantes, mas fracassaram em impedir a chegada dos 12 ônibus da Unicamp e dos 17 da Unesp à capital paulista. 

A Marcha, que reuniu mais de 15 mil pessoas, demonstrou que nada disso é capaz de frear a luta de estudantes e trabalhadores. As greves nas universidades estaduais tiveram adesão massiva, enquanto técnicos-administrativos e docentes recusaram uma proposta de reajuste abaixo da inflação e passaram a se somar ao movimento, também em defesa das reivindicações estudantis. O princípio dessa greve teve início desde seu primeiro momento: a greve vitoriosa dos trabalhadores da USP impulsionam seus estudantes para lutar, e na Unesp explode a mobilização a partir da trágica morte de uma professora do Instituto de Artes, já que a ausência de uma enfermaria funcionando no campus Barra Funda impediu seu socorro imediato. Cada tentativa de enfraquecer a mobilização acabou produzindo ainda mais indignação e fortalecendo o movimento. Mesmo após a violenta repressão policial na USP, que feriu inclusive o princípio da autonomia universitária, os estudantes permaneceram firmes e ainda mais convencidos da legitimidade de suas reivindicações, conquistando a solidariedade e o apoio de amplos setores da sociedade. 

Cada mobilização passou a se conectar com as demais, construindo um ambiente de solidariedade, apoio mútuo e crescente disposição de luta. Um exemplo disso foi o encontro entre a manifestação dos servidores municipais, que marchava em direção à Avenida Paulista, e o ato da USP. Essa integração não ocorreu apenas por coincidência temporal; ela ganhou forma política à medida que as diferentes reivindicações específicas, em última instância, enfrentavam o mesmo governo. Foi essa compreensão que levou estudantes e trabalhadores a marcharem lado a lado em um gigantesco ato que parou a cidade. 

Tamanha foi a força dessa mobilização que o governo Tarcísio se viu obrigado a reconhecer a existência da Marcha e receber uma comissão de negociação. O governo sofreu um revés, tendo que administrar a crise no Estado de São Paulo, ao mesmo tempo em que se encontra diante de uma denúncia que envolve o caso BolsoMaster com as privatizações da Sabesp e da EMAE feitas pelo governador. Evidentemente, pouco se podia esperar de uma “conversa” com um governo que, na prática, limitou-se a receber a comissão na entrada do Palácio sem negociar qualquer reivindicação. Ainda assim, a cada dia fica mais evidente que a força da mobilização é capaz de abrir os portões das Reitorias e até dos Palácios, e que será ela que garantirá nossa vitória ao final desse processo, por mais resilientes que nossos adversários pareçam ser. 

Tudo isso foi possível por haver uma demanda represada de indignação. Não apenas com Tarcísio e seus quase quatro anos de ataques às universidades, escolas, transporte público, servidores, às periferias e às mulheres, representando hoje um projeto que busca testar no estado de São Paulo um privatismo autoritário, ampliando concessões e o sequestro dos serviços públicos por empresas privadas com único objetivo de ampliar seus lucros e piorar a vida da população mais pobre que precisa desses serviços.

O maior exemplo recado que as lutas de São Paulo podem dar é de que a nossa única saída seja para o problema eleitoral contra a extrema-direita, seja a longo prazo para derrotar seu projeto neoliberal, é de retomar um amplo processo de mobilizações e lutas. Que sejam impulsionados debaixo para cima, mas não percam de vista a necessidade da unidade, como por exemplo para derrotar a jornada 6×1 sem depender apenas do Congresso.

O impulso do dia 20 de maio tem que nos fortalecer, e a tarefa colocada para os movimentos é seguir em mobilização para que cada reivindicação seja atendida e as lutas sejam vitoriosas. A vitória de cada setor fortalecerá os demais e será, portanto, uma vitória de todos.

Universidade de São Paulo – USP

A greve dos estudantes teve conquistas relevantes até o momento. A Minuta dos Espaços Estudantis foi desconsiderada e um Grupo de Trabalho (GT) sobre espaços estudantis será criado com participação dos estudantes. Quanto aos bandejões, foi conquistado alterações nos contratos vigentes para fornecimento de café da manhã (com inclusão de proteína), almoço e jantar, de segunda a sexta-feira, e café da manhã e almoço aos sábados nos restaurantes, especialmente nos campi dos interiores. Em relação às cotas trans e indígenas, o assunto será debatido na Câmara de Cursos e Ingresso (CCI) do Conselho de Graduação (CoG), e dois grupos de trabalho serão criados para discutir políticas de permanência para trans e indígenas.

Sobre o Conjunto Residencial da USP, serão realizadas a manutenção dos prédios, reformas de espaço, ampliação do acesso à internet, instalação de filtros de água em cada andar dos blocos e adaptação dos elevadores para que atendam ao piso térreo. Inclusive conquistas sobre a mobilidade intercampi foram alcançadas, como o compromisso de implementação de uma linha gratuita à comunidade universitária, que ligará o Quadrilátero Direito/Saúde e o Campus Capital-Butantã, além de transporte intercampi em São Carlos e em Lorena.

A própria reitoria também afirmou na última negociação com os estudantes que o calendário escolar deve ser reajustado ao final da greve, com abono de faltas e reposição de aulas, um recuo que desmoraliza o comunicado da Pró-Reitoria de Graduação que ameaçava reprovar e expulsar estudantes por faltas. Por último, há uma conquista relevante de criação de um programa de bolsas voltado exclusivamente a estudantes calouros mais pobres logo no primeiro semestre.

Ressaltar essas conquistas é fundamental, porque são vitórias da luta política, são resultados da própria greve. Apesar de que uma reivindicação essencial de aumento das bolsas de permanência não foi atendida, sendo o fator principal que sustenta a continuidade da greve. Há reservas em caixa e orçamento anual, como demonstrado pela Associação de Docentes da USP, possibilitando o aumento do PAPFE a um patamar digno para os estudantes e um reajuste salarial aos docentes e técnicos que não seja abaixo da inflação.

A greve dos servidores técnicos-administrativos emplacou uma vitória e estes continuam a apoiar os estudantes em sua luta, agora os docentes da USP também aprovaram greve por reajuste salarial, mas sobretudo em apoio aos estudantes. A unidade novamente fortalece a luta com a reunião dos três setores da universidade, estudantes, enquanto uma crise aguda abate a reitoria a ponto de a própria Comissão de Negociação renunciar seu papel diante da intransigência da burocracia.

Mesmo com toda a força da mobilização da universidade transformada pelas cotas, e uma greve de enorme capilaridade com ampla participação em diversos cursos, a intransigência da reitoria expressa a estrutura de uma universidade profundamente antidemocrática. Por isso, para que as reivindicações do movimento avancem nesta e em outras lutas, é preciso uma luta política por democracia na USP, que parta desde já pela destituição do Reitor Aluísio Segurado, ampliação da participação de estudantes e trabalhadores nos órgãos colegiados e um plebiscito por Diretas para Reitor Já!

Universidade Estadual de Campinas – Unicamp

A mobilização na Unicamp consolidou-se como um dos pilares de sustentação da Greve Geral das estaduais paulistas, revelando a profunda disposição de luta da comunidade acadêmica de Campinas e dos campi expandidos. A força do movimento se expressa na construção de uma forte unidade programática entre as três categorias. Trabalhadores técnico-administrativos e docentes incorporaram a greve como parte de uma defesa comum, unificando a pauta de recomposição salarial e contratação de pessoal à urgência da permanência estudantil e à defesa irredutível da autonomia universitária contra o projeto privatista do governo estadual. Essa unidade é fundamental para enfrentar a histórica disparidade salarial imposta pela burocracia: hoje, os servidores técnicos da Unicamp amargam os menores salários em comparação com os trabalhadores da USP e da Unesp, uma defasagem que precariza a vida do funcionalismo e que a greve exige corrigir imediatamente.

No centro das reivindicações da assistência estudantil, a greve escancara a insuficiência das políticas de permanência para garantir a subsistência dos estudantes mais pobres e cotistas. O movimento exige a ampliação urgente das vagas de moradia estudantil, denunciando o descaso crônico da reitoria com os campi descentralizados: enquanto Campinas enfrenta superlotação, nos campi de Limeira simplesmente não existe moradia estudantil para os estudantes, inviabilizando a permanência e excluindo os filhos da classe trabalhadora que ingressam na universidade. Além disso, a comunidade universitária se levanta contra o projeto de autarquização e privatização dos hospitais da Unicamp comandado pela reitoria. O avanço desse modelo representa um risco brutal, pois abre as portas para a terceirização via fundações privadas, precarizando as condições de trabalho e ameaçando diretamente a qualidade do atendimento à população que depende da saúde pública.

A resposta das instâncias de poder e do governo estadual ao protagonismo da Unicamp seguiu a cartilha da intimidação. A tentativa de asfixiar a participação da universidade na grande Marcha do dia 20 se deu por meio do bloqueio e da fiscalização ostensiva da Polícia Militar nas rodovias que conectam o interior à capital, como a Rodovia Anhanguera. A interceptação das caravanas, longe de desmobilizar, converteu a viagem dos 12 ônibus da Unicamp em um ato de resistência nas estradas. Os estudantes romperam o cerco policial e integraram a massiva manifestação em São Paulo, demonstrando que a articulação política entre a capital e o interior está consolidada e que o movimento não se isolará diante de táticas de coerção do governo de extrema-direita de Tarcísio de Freitas.

A sustentação da greve na Unicamp agora entra em uma fase decisiva de consolidação tática. O desafio é aprofundar as bases de apoio nas faculdades e institutos, respondendo à intransigência da reitoria com a manutenção dos piquetes e o fortalecimento das assembleias por curso. Diante de uma Cruesp que tenta empurrar um reajuste abaixo da inflação aos trabalhadores e ignorar o patamar digno das bolsas, a Unicamp se coloca na linha de frente para exigir o recuo nos projetos de autarquização da saúde, a criação imediata da moradia em Limeira e a isonomia dos salários dos técnicos com a  USP e Unesp. A tarefa imediata é unificar o calendário de lutas, massificar os próximos atos e manter o campus mobilizado como um território livre da política de precarização.

Universidade Estadual Paulista – Unesp

O maior ganho da greve na Unesp, até agora, está na retomada política do interior paulista. Segundo o grevômetro, já são 81 cursos paralisados em nove campi — Assis, Bauru, Rio Claro, Franca, Araraquara, Marília, Rio Preto, Presidente Prudente e São Paulo, com ocupação há um mês do Instituto de Artes. E não é coincidência que justamente esses municípios sejam territórios onde a extrema-direita consolidou forte presença eleitoral, onde o bolsonarismo enraizou discursos de ataque à universidade pública e a pressão conservadora sobre os campi se tornou cotidiana.

É exatamente nesses lugares que a greve ganha mais força. Não apenas nos números,  com assembleias que chegam a reunir milhares de estudantes, mas também nos símbolos construídos ao longo da mobilização: piquetes organizados, prédios ocupados, campi inteiros paralisados. As faculdades do interior, historicamente tratadas como espaço de isolamento e dispersão, se reconhecem no movimento da Greve Geral como território de resistência e construção de luta coletiva pela educação.

grevômetro demonstra como o movimento estudantil cresce apoiado pela mobilização da comunidade universitária. Servidores e docentes passam, cada vez mais, a incorporar a greve como parte de uma defesa comum da universidade pública. O apoio já se expressa na organização em diferentes unidades, como os docentes da FCLAr e FCFAr (Araraquara); os docentes e servidores da FCHS (Franca); os docentes e servidores de Bauru; os professores da Adunesp (Rio Claro); os docentes e servidores da FFC (Marília); e os docentes e servidores do Ibilce (SJRP). 

Não há dúvidas de que a extrema-direita testa os limites da resistência do movimento estudantil no interior. A resposta do governo à força da mobilização foi a repressão nas estradas. No ato do dia 20, caravanas foram interceptadas e submetidas a revistas da Polícia Militar nas rodovias Castello Branco e Anhanguera. Não houve acaso nessa escolha. Barrar os ônibus do interior significava tentar reproduzir, em tempo real, a velha lógica da fragmentação imposta pela ditadura ao criar a Unesp: impedir que a força espalhada pelos campi se transformasse em força política unificada na capital.

Mas o efeito produzido foi outro. Cada ônibus parado tornou-se símbolo da disposição de luta do interior e da consciência coletiva de que existe uma tentativa deliberada de isolar e desarticular o movimento. A próxima etapa é aprofundar esse caminho, em uma demonstração de força capaz de afirmar que o interior paulista não está rendido.

O episódio ocorrido ontem em Araraquara sintetiza essa disputa com clareza. Quando um pré-candidato da extrema-direita invadiu o campus da FCLAr acompanhado de assessores para atacar o movimento estudantil, apagar manifestações e produzir conteúdo provocativo, encontrou resistência imediata da comunidade universitária. A tentativa de intimidação fracassou porque houve resposta coletiva. A manutenção da paralisação e o enfrentamento político ao grupo demonstraram que existem limites para o avanço dessas ofensivas dentro da universidade.

Um movimento crescente tem poder de pressão qualitativamente diferente de um movimento estabilizado. O governo Tarcísio sabe disso, e é por isso que a aposta no desgaste precisa ser respondida com ampliação. Os próximos dias exigem que o movimento na Unesp sustente tarefas cruciais: defender os campi da pressão da extrema-direita, ampliar a articulação para greves em assembleias, aumentar a mobilização para os próximos grandes atos e, principalmente, historicizar o processo de luta. Uma tarefa não existe sem a outra.

Estudantes, servidores técnico-administrativos e docentes, militantes do MES nas universidades estaduais de São Paulo


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